5 – Pacto de confiança

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Somados esses desencontros e a chuva de pautas a desabar continuamente na mesa dos repórteres, Letícia passou algum tempo sem ver Felipe. Quando o reencontrou, assustou-se: ele crescera; já tinha mais cara de homem do que de guri. Nesse dia, havia usado drogas e não estava para muita conversa. “Tínhamos um pacto de confiança. Eu não o seguia escondida, não entrava nos pontos de crack e, quando ele dizia ‘não’, eu não forçava”, explica a jornalista.

As primeiras fugas do guri se deram a pretexto de procurar o pai, de quem Maria se separou quando o filho contava pouco mais de três anos.

Como que em romaria, seus irmãos perderam-se na vida, quiçá em busca de aventuras: um morreu assassinado, outro foi preso por roubo, um terceiro tem passagens pela Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), sucessora da Febem. As duas irmãs também caíram nas drogas e nas ruas. Certa vez, o segundo companheiro de Maria teve uma briga tão feia com Felipe que a mãe interveio dando-lhe uma facada no braço. O padrasto levou dez pontos.

Todas essas histórias, e muitas outras, Letícia coletou na longa gestação de três anos de trabalho. O parto do Filho da rua foi demorado, entre razões como as sobrepostas pautas do dia a dia, pela crença do então diretor de redação de que era necessário algum acontecimento que desse um fecho ao caso. No ano passado, a nova diretora, Marta Gleich, tomou contato com o material apurado por Letícia e avaliou que a história era suficientemente rica para ser contada sem precisar de um “epílogo”. Para Maria, por sua vez, a espera era mesmo de esperança – a de que a publicação trouxesse ajuda ao filho.

Quem defendeu a veiculação da reportagem num encarte de 16 páginas com projeto gráfico especial foi o editor-chefe de Zero Hora, Nilson Vargas. “Fiz todo um trabalho de convencimento interno da direção de redação e de gestão do jornal e, quanto mais a discussão atingia outros níveis da empresa, mais crescia a convicção de que a qualidade do trabalho justificava esse tratamento diferenciado”, lembra Vargas. O diário é publicado pela RBS, maior grupo de comunicação da região Sul do Brasil.

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