Estudo da FFLCH analisa perfis de presidenciáveis no Twitter

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Lara Deus / Agência USP de Notícias

Os três candidatos à presidência mais votados nas eleições de 2010, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, adotaram uma postura semelhante em seus perfis no Twitter durante a campanha política. Os microblogs, em geral, mesclavam conteúdo sobre o cotidiano da campanha com postagens sobre suas vidas privada e familiar, revelando uma preocupação crescente em criar um vínculo afetivo com seus eleitores. A constatação faz parte de uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Artur Daniel Ramos Modolo, autor da dissertação de mestrado da FFLCH, percebeu que, em geral, não havia diferença de conteúdo entre o que Dilma, Serra e Marina postavam. Ele afirma que sempre eram presentes a divulgação da agenda política e os elogios a gestões anteriores. Além disso, Modolo constatou que “eles tentavam evitar questões polêmicas, como aborto, uso de células tronco e maioridade penal”. A pesquisa abordou as postagens de 6 de julho a 31 de outubro de 2010, período oficial de campanha.

Outra conclusão da pesquisa é que a campanha presidencial brasileira de 2010 muitas vezes adaptou o material de outros meios ao digital, como é o caso da postagem das propagandas televisivas no Youtube, e explorou diversos sentidos do internauta (o verbal, o visual, o auditivo, etc.). Para que agregasse um valor político-ideológico àquilo que era publicado, o material era comumente feito com as cores dos respectivos partidos de Dilma (PT), Serra (PSDB) e Marina (PV).

Também se verificou que a esfera política estava agindo de acordo com a convergência das mídias, tendência apropriada por outras comunidades, como a científica ou a religiosa. Um exemplo disto é que, apesar de Modolo ter selecionado para a pesquisa apenas o Twitter, ele afirma que acabou “tendo que indiretamente verificar outros canais, como o Youtube”.

Para o pesquisador, é central destacar a importância da hipertextualidade presente principalmente nos links na Internet, que faz com que o internauta possa passar, em poucos cliques, de uma música para uma notícia, entrevista ou até um material de conteúdo político. “Dessa forma, o internauta muitas vezes não navega com o intuito específico de aumentar seus conhecimentos políticos ou sobre determinado candidato. Pelo contrário, passa pelos mais diversos tipos de linguagem e conteúdo”, afirma Modolo.

Ideologia do cotidiano

As eleições não são o único tema tratado nos microblogs dos candidatos. Modolo constatou que Dilma, Serra e Marina usaram o que ele chamou de “Ideologia do Cotidiano”. Ele exemplifica que “quando eles escrevem que foram tomar sorvete com sua netinha, se você for pensar friamente, isso não tem a ver com a política. Mas, talvez o internauta coloque ele dentro de um molde de uma boa pessoa que teoricamente também seria um bom político”, diz. “Não se trata somente de um microblog político. Na verdade, o que eles estão fazendo ali é tentar cativar o internauta e criar uma empatia”.

Para ganhar eleitores, os candidatos transitaram entre a linguagem erudita e a popular. Algumas vezes, eles inseriam nos 140 caracteres permitidos na postagem do Twitter citações de poetas ou de líderes políticos. Ao mesmo tempo, também foi próprio do microblog eleitoral o uso de expressões abreviadas ou do vocabulário juvenil. “Serra chegou a usar ‘bombou’, ‘irado’, ‘punk’, coisas que não fazem parte do linguajar dele”, comenta Modolo. Isto aconteceu, segundo ele, pois os candidatos tinham um interlocutor presumido, que, no caso do Twitter, era o público jovem.

Para não se fazer uma análise exclusivamente linguística do tema, a questão foi estudada a partir da metodologia do Círculo de Bakhtin, por meio da qual se considera também o âmbito ideológico, social e histórico que permeiam a linguagem. A escolha foi importante pois o material selecionado é compostos de discursos que, por fazerem parte de uma campanha política, têm como ponto de partida ideologias delimitadas.

Para o pesquisador, as conclusões de seu estudo continuarão se aplicando à próxima eleição, já que elas são relacionadas mais aos aspectos culturais da sociedade brasileira do que temporais do ano de 2010. A dissertação Hipertextualidade e relações dialógicas no gênero digital microblog político dos candidatos à presidência do Brasil nas eleições 2010 foi defendida em 2012 na FFLCH.

Mais informações: email a.d.r.modolo@gmail.com, com Artur Modolo

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