No IEB, História da África nasce para os olhos do público brasileiro

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Em 2013, a Lei Federal que determina a obrigatoriedade do ensino do conteúdo referente à História e Cultura Africana e Afro-Brasileira no ciclo escolar básico nacional, completou 10 anos de existência. A medida tinha por objetivo principal trazer ao conhecimento dos alunos brasileiros uma fração dessa história pouco ou nada visitada ao longo de muitas décadas.

Apesar de uma década em vigor, a Lei ainda não causa mudanças significativas no material lecionado aos estudantes, tanto da rede de ensino público quanto do privado. É o que afirma a professora Marina de Mello e Souza, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, vice-diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e coordenadora do Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) Brasil África, sediado na FFLCH, mas com pesquisadores de diversas outras unidades. O NAP Brasil África tem como um de seus objetivos justamente a mudança deste quadro, conforme indica Marina. “Se o professor do ensino básico não tem preparo ou conhecimento sobre História da África para passar aos alunos, só a lei não vai resolver. Por isso promovemos atividades que promovem uma maior capacitação, como um curso de extensão que temos feito nas manhãs de sábado, para aperfeiçoamento dos docentes”.

Outra diretriz do NAP é facilitar o acesso público ao material muito importante – mas pouco conhecido – que o IEB possui sobre o tema. E isto vem sendo feito através do apoio e custeio do Projeto Brasil África. A idealizadora do trabalho, Márcia Moisés Ribeiro, relembra a origem da iniciativa: “entre 2008 e 2009, estava desenvolvendo minha pesquisa de pós-doutorado sobre História da Medicina, e durante as investigações em busca de documentação, nos arquivos do IEB, me deparei, aos poucos, com um acervo riquíssimo de [História da] África, do qual eu nunca tinha sabido da existência”.

Projeto de facilitação de acesso

A partir de 2009, foi fundado o Projeto, que visava, dentro do acervo do IEB, a compilação das obras sobre o tema, o registro e catalogação das mesmas em um banco de dados e, por fim, a digitalização dos textos, para que possam ser totalmente disponibilizados através da internet. Até o momento, o banco de dados do Projeto tem registradas 628 obras. “E não são apenas livros, como eu mesma posso ter imaginado no começo, mas documentos de várias naturezas, como tratados e acordos, com grande valor de estudo”, conta Márcia.

Entre as publicações presentes no banco de dados, que pode ser visitado através deste link, a pesquisa destacou, por exemplo, o título Caroli V. Imperatoris expeditio in Africam ad Argieram, do ano de 1542. “Trata-se de um livro que, só pela idade, já teria um valor histórico altíssimo, ainda mais tendo sido publicado em latim. É muito interessante”, se entusiama a pesquisadora.

Outra obra de destaque dentre as que já foram digitalizadas é a Relation historique de l´Ethiopie Occidentale, de 1732, do autor Giovanni Antonio Cavazzi, cuja descrição oficial é de um livro “em cinco volumes que retrata religião, costumes, cultura, paisagens, fauna e flora da Etiópia e dos reinos do Congo, Angola e Matamba”. A pesquisadora relata dificuldades no manuseio dos escritos, dos quais apenas 120 foram digitalizados até o momento, por conta justamente de suas idades e estados de conservação. “É um trabalho muito lento. Temos obras de difícil acesso, e agora o projeto está em pausa, por causa da mudança [o IEB está sendo transferido para dentro da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin],”.
A professora Marina de Mello e Souza identificou um livro que, para ela, está entre os maiores valores do banco de dados do IEB. “Como professora, tenho feito muito uso do Description de l´Afrique,  de Olfert Dapper, publicado em 1686. Como parte de seu conteúdo, ele tem imagens incríveis, que tenho apresentado aos alunos em sala de aula”. A publicação traz descrições históricas e geográficas das principais partes da África e, entre outras coisas, também fala das relações políticas, comerciais e militares entre africanos e europeus. “A ideia era fazer professores conhecerem e usarem o material, e assim já está se tornando realidade”, comemora a coordenadora.

Trabalho em outras frentes

O NAP Brasil África ainda tem outras atividades em desenvolvimento, como uma análise do trabalho do historiador brasileiro José Honório Rodrigues (1913-1987) e seus estudos africanos nos anos 1960. Além disso, o NAP, com verba própria, firma convênios com outras instituições nacionais e internacionais, para intercâmbio de profissionais, e promove viagens para estudos em campo, realizados por pesquisadores e alunos.

As duas especialistas ainda esperam um crescimento do acervo do Projeto. “Por se chamar Instituto de Estudos Brasileiros, a maioria dos alunos vai nele para pesquisar sobre a Semana da Arte Moderna, por exemplo, e a parte sobre a África fica ignorada”, diz Marina. “Por isso o banco de dados segue em aberto, e vamos esmiuçar os arquivos para mudar esse quadro”, projeta Márcia.

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