Para pesquisadora do Prolam, tradição indígena dá singularidade ao Dia dos Mortos no México

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Mariana Melo /Agência USP de Notícias

A comparação entre as festas realizadas no Dia dos Finados no Brasil e no México demonstrou que a população do país da América do Norte associou mais a tradição indígena do que o país da América do Sul. O Dia dos Mortos, como é conhecida a celebração mexicana para o dia 2 de novembro, é uma das maiores celebrações do mundo, que demonstra a forte conexão que os mexicanos têm com seus antepassados.

Por meio da análise dos símbolos utilizados na data, Júlia Batista Alves, que realizou a pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP, sob a orientação do professor Luiz Antonio Lindo, pôde perceber o porquê da pouca força do evento no Brasil. “Aqui não vemos nada parecido com o que acontece nas ruas do México.”

Uma possível explicação para as divergências estaria, segundo a pesquisadora, na forma como a cultura indígena foi mais integrada à população não índia no México, enquanto no Brasil a supressão da cultura indígena parece ter sido ser mais radical. “Podemos dizer que, nesta comparação, os índios no Brasil assimilaram mais a cultura católica europeia, e que os índios mexicanos conseguiram fazer com que os jesuítas assimilassem mais sua cultura, ainda que tenha sido por meio de adaptações dos ritos indígenas ao católico, para uma maior interação entre eles.”

Divergências

A Festa dos Mortos tem proporções muito maiores do que as celebrações relativas no Brasil, que são mais solenes e marcadas pela religiosidade da Europa. No Dia de Finados brasileiro ocorrem missas e outros ritos cristãos, além de idas ao cemitério para homenagear familiares falecidos. Mesmo com o forte sincretismo de culturas e religiões no País, uma festa brasileira para os mortos não acontece. “A celebração aqui tem um viés mais católico”, diz Júlia. Tanto que, os símbolos utilizados que se assemelham entre os dois países sãos os de contexto católico, como velas, flores e cruzes, missas e visitas aos cemitérios.

A comparação, para Júlia, se faz interessante porque o México também é um país no qual a maioria se declara católica. Ainda assim, as comemorações apresentam aspectos muito diferentes. Os mexicanos confeccionam altares coloridos, no qual oferecem alimentos, flores,velas, entre outros artigos, dependendo da região e do grupo indígena; também ocorrem desfiles e concursos de fantasias. A pesquisadora conta que a Guatemala também apresenta ritos parecidos, mas que não se comparam à grandiosidade da celebração mexicana, que chegou a ser reconhecida como Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade pela UNESCO em 2003, devido ao seu valor histórico, cultural e artístico.

Viagem

Para averiguar como os brasileiros constroem o Dia de Finados, Júlia entrevistou 40 pessoas, entre 20 e 60 anos, de cidades no estado de São Paulo, e questionou como se dão as suas preparações para o Dia de Finados, com perguntas como “Que tipo de atividades realizam nesse dia?” e “Quais os símbolos representativos desse dia?”. Para o levantamento mexicano, ela viajou duas vezes ao país no ano de 2011 e realizou entrevistas informais, além de filmar festas e desfiles e visitar as casas decoradas. “As casas ficam abertas para visitas. Além disso, os mexicanos deixam um espaço na mesa para que parentes falecidos se sentem e participem da refeição.”

Júlia visitou o povoado de San Andrés Mixquic, localizado na região sul da cidade do México, no bairro de Tláhuac. “Esse povoado foi escolhido para ser pesquisado depois de entrevista realizada com a historiadora local e vice-diretora do Museu do Fogo Novo, Silvia Zuragazo Sánchez, que destacou alguns dos principais lugares onde a celebração pode ser vista com maior intensidade e alto nível de resgate e preservação.”

O Prolam preocupa-se em integrar a América Latina por meio de pesquisas que investiguem e comparem o Brasil com os países formadores do bloco. “Tentei procurar o lado mais cultural. Dei ênfase aos símbolos utilizados nos dois países nesta ocasião e procurei no que eles dialogam, o que é comum e diferente entre eles.” diz a pesquisadora, que é formada em Letras.

Mais informações: email juliabatistaalves@yahoo.com.br

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