MAE aproveita férias para introduzir cultura africana às crianças

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Durante o mês de julho, o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP proporcionou a crianças e jovens uma oportunidade diferente de aprendizado. Além de uma oficina para a confecção de máscaras inspiradas em culturas da África, foi promovida a encenação de contos africanos.

As ações de férias para o público infanto-juvenil já vem se tornando tradição no museu. A ideia é trabalhar com o público infanto-juvenil conceitos da Arqueologia e da Etnologia, inserindo estas ciências em exercícios específicos.

Em anos anteriores, já foram realizadas atividades como simulações de escavação arqueológica e produção de instrumentos indígenas. Esta última edição teve como tema Culturas Africanas: Entre máscaras e contos, sendo oferecida pela Seção Técnica de Educação para o Patrimônio (STEP) do MAE.

Judith Mader Elazari, educadora do MAE responsável pelo evento, comenta que uma das principais vantagens de se trabalhar conceitos teóricos durante as férias é que nelas “é possível trabalhar com o público infantil como público espontâneo, e não como aquele que vem porque é trazido pela escola”. Abertas e espontaneamente interessadas, as crianças se dedicam mais às atividades, sejam elas reflexivas ou práticas.

Simone Pedroso, mãe do participante Rômulo Pedroso, de 7 anos, afirma que, além do ensino de questões sobre etnia e diversidade cultural africana, ela se interessou pelo curso devido à oportunidade de incentivar seu filho “a conhecer a USP e as várias coisas que acontecem no campus em geral”. E Rômulo aprovou o lado divertido da experiência.

Máscaras e contos

A edição desse ano, direcionada a crianças e jovens de 8 a 12 anos, foi totalmente estruturada pelos estagiários do STEP. Glaiane Quinteiro, Glaucus Monueira, André Lima Godoy, Danielle Sousa e Osvaldo Luiz foram os responsáveis pela escolha do tema e pela elaboração das atividades.

A respeito do assunto escolhido, Osvaldo diz que a motivação veio,  primeiro, porque o Museu tem um acervo africano importante, que é pouco utilizado e não tão procurado quanto os outros; e, segundo, para levantar a discussão de um tema de grande importância para a sociedade, nem sempre destacado. Os exercícios, ressalta, deveriam abordar a diversidade de todo aquele imenso continente, mas com as devidas contextualizações culturais, sem que se caísse em reducionismos. Escolheu-se, então, tratar das máscaras, ícone presente em vários grupos étnicos do continente, e no uso delas para a encenação de contos da cultura africana.

Divididas em três dias, as atividades formaram um passo-a-passo no qual as crianças aprenderam sobre a simbologia e os significados dos contos e das máscaras enquanto confeccionaram suas próprias. A estagiária e cientista social, Danielle Sousa, detalha: “no primeiro dia, buscamos nos distanciar do continente africano para tratar de máscaras em um sentido mais geral: ‘para que serve uma máscara?’, ‘Quem usa uma máscaras?’, ‘A máscara esconde ou revela?’. Ao final, as crianças revestiram uma bexiga com papel e cola – como se fosse papel machê.”

Com os moldes preparados, o segundo dia começou com uma visita a algumas peças do acervo de arte africana, com máscaras, tecidos e peças de metalurgia. Depois disso, foi feita uma divisão em três grupos e cada um deles escutou um conto diferente. “No final, cada um devia escolher um personagem e, a partir do personagem escolhido, decorar o molde feito no dia anterior”, conta Danielle. Já no terceiro dia, foi dado um tempo para que as crianças se articulassem e ensaiassem uma apresentação do conto para as demais, afinal, um grupo não conhecia o conto do outro. O terceiro dia terminou, então, com eles encenando o conto com as máscaras que começaram a fazer no primeiro dia.

A África do nosso dia-a-dia

Uma outra motivação para a escolha do tema “África” foram os 10 anos da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de questões afro-brasileiras na escola.

A Lei propõe novas diretrizes curriculares, no estudo da história e cultura afro-brasileira e africana, para que seja ressaltada em sala de aula a influência da cultura afro-brasileira na formação da sociedade brasileira. Para isso, é necessário que sejam valorizadas a cultura – música, culinária, literatura, dança, etc. – e as religiões de matrizes africanas, e foi com esse propósito que elementos da cultura africana foram inseridos às crianças durante as atividades.

“Nós vemos que essa temática não está presente na escola, ou, se está presente, não está como deveria. Então, achamos que o MAE, por ter um importante acervo de arte africana, possui um papel importante nesse contexto”, diz Danielle.

Ao mesmo tempo em que os pequenos escutavam os contos africanos ou confeccionavam suas máscaras, era possível ouvir ao fundo músicas com referência às culturas da África. A playlist compreendia desde o jazz americano e canções do compositor Cartola, até músicas de Bob Marley e de ícones do rap nacional, como Criolo e Racionais. Incluía, ainda, alguns cantos de escravos trazidos da África para a América. “Volta e meia uma criança vinha perguntar ‘o que eles estão falando, tia?’. São outros dialetos, e as crianças ficavam curiosas e se interessavam. Numa outra aula, algumas crianças até ficaram tentando decorar as canções”, comenta Danielle.

No último dia das atividades, também foi oferecido às crianças um lanche especial, cujos alimentos, comuns ao cotidiano dos brasileiros, continham alguma referência africana, entre eles o suco de melancia, que é uma fruta africana; o bolo de fubá, porque o fubá até o século XIX era uma das bases da alimentação dos escravos; a pipoca, pela simbologia do milho e da pipoca em relação às religiões afro-brasileiras; e a paçoca, em referência a um doce de milho torrado com açúcar que era um alimento comum na época da escravidão.

Mais informações: (11) 3091-4905, email educativo.mae@usp.br, site www.mae.usp.br

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