Mostra traz à tona marcas do sofrimento imigrante em solo estrangeiro

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A experiência de ser o outro em um espaço de resistência marca a identidade e se reflete no próprio corpo. Ultrapassando a dor física ou mental individualizada, se constitui como sofrimento de dimensão social. Uma mostra organizada no Centro Universitário Maria Antonia da USP faz da arte a via de expressão de algumas faces desse processo.

Aberta ao público a partir de 8 de agosto, Woundscapes, suffering, creativity and bare life – Corpos , memórias, itinerários de cura e as feridas da imigração: diálogos entre antropologia e arte nasceu de histórias vivenciadas e recolhidas por antropólogos imigrantes em Portugal. Através de imagens, foto montagens, objetos, textos e áudios, os artistas buscam refletir a dimensão da doença, do mal estar causado tanto por sofrimentos individuais – o estar longe da terra natal – como por processos coletivos, históricos, econômicos e políticos.

As obras explicitam os efeitos da situação de migração na identidade e no corpo em dois momentos. Primeiro o sentimento de vulnerabilidade, a dor, a ferida causada por esse processo. E também a reação, isto é, como um corpo estranho em algum lugar reage e busca sobreviver, incluindo aí as formas de ocupação dos espaços e a presença de cultos religiosos – especialmente a Umbanda e o Candomblé – como métodos de resistência, de valorização de uma cultura que é desvalorizada em tantos outros aspectos.

A exposição, que foi exibida anteriormente em Lisboa, é desdobramento do projeto de intercâmbio internacional “Políticas Públicas, vulnerabilidades e risco: tecnologias de cidadania e inclusão nas sociedades contemporâneas”, desenvolvido na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP junto com o Instituto Universitário de Lisboa (IscTE-IUL) e o Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) em Portugal, sob coordenação dos professores Rubens Adorno (FSP) e Chiara Pussetti (CRIA). O projeto tem como objetivo entender como as instituições contemporâneas trabalham com processos que causam grande sofrimento social, como as populações excluídas são tratadas.

Os artistas

As obras foram produzidas por pesquisadores antropólogos e  imigrantes: os italianos Chiara Pussetti e Lorenzo Bordonaro; as brasileiras, Ângela Alegria e Letícia Barreto; e pelos portugueses Clara Saraiva, Cristina Santinho, Filipe Reis e Vítor Barros.

O que está refletido na exposição é produto de uma pesquisa acadêmica. A qualidade de um projeto normalmente é medida através da produção de artigos científicos, entretanto, as obras provam que é possível comunicar conhecimento como produção artística. É uma outra via para divulgar a pesquisa científica que não o texto, mas a fotografia, a imagem, a arte.

“Através do projeto, nós da USP conhecemos esses pesquisadores de Portugal e durante esse percurso, inclusive de crise na Europa, eles perderam determinados espaços, continuaram dando aula, mas precarizados. A resistência foi traduzir essa produção acadêmica em arte. (…) Não existe diferença entre pesquisador e artista” – explicou o professor Rubens Adorno, coordenador do projeto na USP.

Segundo a pesquisadora Chiara Pussetti, antropóloga, artista e curadora do evento, ser estrangeiro em Portugal tornou-se obviamente mais difícil por causa da crise. “O imigrante, ainda mais no imaginário, é o criminoso, o que ocupa lugares de trabalho que seriam para os portugueses, os que se aproveitam dos benefícios sociais aos custos das taxas dos nativos, o que no fundo é responsável pelo fracasso do país inteiro.” Ela ainda acrescenta que a exposição para muitos portugueses foi uma ocasião de descoberta de aspectos ignorados da cultura dos imigrantes: “Como antropóloga achei curioso o genuíno o espanto do público ao se confrontar com rituais, religiões, crenças, muito difundidas no contexto português, mas das quais os nativos não fazem ideia. Assim como achei curiosa a perplexidade de muitos portugueses em escutar, pelas vozes dos imigrantes, histórias de discriminação e estigma. Atitude que só confirma que a maior parte destas pessoas nunca tinha realmente falado com um estrangeiro”.

A Saúde Pública

Em sua segunda fase no Brasil, a exposição expressa visualmente pesquisas realizadas em torno da questão do sofrimento social e sua relação com o campo da saúde. Há uma tendência em se pensar em saúde pública como sistema público de saúde e não como ciência que a estuda enquanto um fenômeno coletivo, constituído por aspectos históricos, demográficos, epidemiológicos, sociais, políticos e ambientais.

O projeto busca demonstrar como tratar, no campo da saúde, dessas questões tidas como sociais. Pouco percebe-se que a experiência do corpo é uma experiência social e biológica. Nesse sentido, os traumas, as opressões, transformam-se em demanda para o serviço de saúde que sabe “medicamentalizar”, ou seja, dar alguns remédios para os sintomas, e as  causas não são trabalhadas. Por exemplo, uma pesquisa norte-americana afirma que a população negra dos EUA possui mais casos de hipertensão que a população branca. Isso não é um dado genético ou biológico. Essa população convive desde o nascimento com a experiência de discriminação e stress no convívio social que transformam-se em sintomas físicos. O sistema de saúde tem essa demanda imensa que consome medicamentos e verbas, mas as origens dessas doenças não são tratadas.

A inauguração ocorre a partir das 18h30. A exposição, que faz parte da programação do Ano de Portugal no Brasil, estará aberta até 25 de agosto de terça à sexta-feira das 10 às 18 horas e sábados, domingos e feriados das 10 às 20 horas no Maria Antônia – Rua Maria Antonia 258 e 294, Vila Buarque – SP. A entrada é franca.

Mais informações: sites http://www.woundscapes.com/ e http://mariantonia.prceu.usp.br

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