Nova sede do MAC inaugura andar com duas mostras

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Leila Kiyomura/ Jornal da USP

Foto: DivulgaçãoLuiz Braga | Sombrinha 2010
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Luiz Braga | Sombrinha 2010

O compromisso do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP de habitar a sua nova sede, “paulatinamente”, com a reflexão e a pesquisa, aliadas ao acervo, vai se cumprindo.

No dia 28 de setembro, o museu inaugurou mais duas mostras, totalizando uma programação de 12 exposições abertas no decorrer deste ano. Léon Ferrari: Lembranças de Meu Pai, com a curadoria de Carmen Aranha e Evandro Nicolau, e Fronteiras Incertas: Arte e Fotografia no Acervo do MAC USP, organizada por Helouise Costa, apresentam as reflexões, as pesquisas e a importância dos 50 anos do MAC na arte contemporânea. E abrem, para o público, o quarto andar do edifício assinado por Oscar Niemeyer.

“Um dos principais desafios do MAC é refletir de forma crítica sobre o legado que nos deixaram as várias vertentes da arte das últimas décadas e suas supostas superações”, observa o diretor Tadeu Chiarelli. “De que maneira? Colocando determinadas obras produzidas há algum tempo em franco confronto com a produção mais atual. Nesse sentido, Fronteiras Incertas: Arte e Fotografia no Acervo do MAC USP responde a esse propósito, fazendo aderir à produção mais recente uma espessura histórica.”

Foto: DivulgaçãoCris Bierrenbach | Sem título
Foto: Divulgação
Cris Bierrenbach | Sem título

Chiarelli destaca também a obra de Léon Ferrari como uma referência importante na arte brasileira. “Talvez ele tenha sido um dos artistas que mais herdaram o espírito combativo e resistente das vanguardas do último século”, observa. “Sua obra investe contra as diversas formas de repressão à liberdade, além de posicionar-se, sempre crítica e irônica, frente à alienação da sociedade contemporânea”. A mostra Léon Ferrari: Lembranças de Meu Pai reverencia a trajetória do artista que morreu, aos 92 anos, no dia 25 de julho passado.

Tempos diferentes

Quando sai do elevador, no quarto andar da nova sede do MAC, o espectador caminha entre tempos diferentes. Em Fronteiras Incertas: Arte e Fotografia no Acervo do MAC USP, a curadora Helouise Costa traz a década de 1970 revisitando a exposição Fotografia Experimental Polonesa, apresentada pelo museu em 1974. Várias obras dessa mostra que foram incorporadas ao acervo estão no espaço, dialogando com obras de artistas e fotógrafos de diversos países. “Passados 40 anos, esse conjunto fornece o testemunho de um período de intenso debate, não só sobre o rompimento das fronteiras entre os territórios da arte e da fotografia, como também acerca da incipiente presença da imagem fotográfica em museus e galerias naqueles anos”, esclarece Helouise.

Foto: DivulgaçãoPedro Meyer | Pégaso Carioca 2005
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Pedro Meyer | Pégaso Carioca 2005

O recorte temporal vai de 1962 a 2010. Um período que, segundo a curadora, “abarca desde o declínio da fotografia moderna, passa pelo momento pioneiro de assimilação de fotos pelos acervos dos museus de arte no Brasil e chega aos dias de hoje, em que as tecnologias digitais libertaram as imagens de seus suportes materiais, dotadas de uma fluidez e uma maleabilidade inéditas”.

O público pode perceber o trabalho dos artistas poloneses inovando com os seus retratos, como Janusz Bakowsky, com o seu estudo de orelhas, e Edward Grochowcz, com um mural registrando uma sequência de olhos, e ainda Jozef Robakowski, com o seu autorretrato espacial. Há também fotografias da Coleção do Banco Santos, sob a guarda provisória do museu, entre outras aquisições recentes.

A mostra destaca o beijo eletromecânico de Waldemar Cordeiro. É a imagem fotografada de uma boca que abre e fecha, simulando um beijo para o observador. Há também a sensibilidade e a técnica do fotógrafo e repórter Cristiano Mascaro na série O Enterro de Barrientos, de 1969, quando foi enviado à Bolívia pela revista Veja para cobrir o funeral do presidente René Barrientos, vítima de um acidente de helicóptero nunca esclarecido. Mas há suspeitas de ter ligação com a responsabilidade do presidente na execução de Che Guevara. Mascaro registra o enterro retratando a reação popular com a perda do líder.

Artista polêmico

Foto: Divulgação León Ferrari - Collage 1986 - Série Paraherejes
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León Ferrari – Collage 1986 – Série Paraherejes

A mostra Léon Ferrari: Lembranças de Meu Pai traz a produção do artista entre 1976 e 1984, quando residia em São Paulo. “Na época, ele estava ligado a um grupo de artistas que o instigou à experimentação de novos modos de fazer arte, desde desenhar com materiais convencionais como nanquim, grafite, crayon, tinteiro e carimbo até utilizar modos de impressão em heliografia, serigrafia, fotocópia, videotexto e offset”, explica a curadora Carmen Aranha.

O visitante tem a oportunidade de rever o artista com seus grafismos nas obras Autopista do Sul, de 1981, Cruzamento II Espectadores, ambas de 1981. Porém, o quadro Cristo s.d., do final dos anos 1980, apresenta o artista polêmico criticando a violência da religião cristã. Outro espaço “proibido para menores” também mostra as relações pecaminosas da cultura cristã. “As séries La Basílica e Parahereges, em forma de livros, o primeiro publicado em 1985 e o último publicado em 1986, em São Paulo, marcam o início da discussão de Ferrari, a partir de 1983, sobre os valores éticos e estéticos da cultura ocidental e, especificamente, sobre as relações de poder e violência dos processos políticos da América Latina nos anos 1970”, observa Evandro Nicolau.

Serviço

As exposições Léon Ferrari: Lembranças de Meu Pai e Fronteiras Incertas: Arte e Fotografia no Acervo do MAC USP estão na nova sede do MAC, na avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, São Paulo, às terças-feiras, das 10 às 21 horas, e de quarta a domingo, das 10 às 18 horas. Entrada gratuita.

Mais informações: (11) 2648-0254, site www.mac.usp.br

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