Pesquisadores debatem as crises do Brasil e do mundo em simpósio na FFLCH

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Sylvia Miguel / Jornal da USP

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

O paradigma econômico no Brasil não se alterou substancialmente nos últimos dez anos, a despeito do avanço propagado pelo governo. De fato, houve uma efêmera fase de crescimento. Mas, apesar da recente distribuição de renda, já vemos sinais de um retorno ao paradigma usual. Ou seja, o sistema econômico brasileiro tem funcionado para atender apenas a duas prioridades: de um lado, cumprir o papel de subordinado na divisão internacional do trabalho, fornecendo matérias-primas e exportando a preços abaixo do valor, e, de outro lado, buscando apenas o necessário para manter os privilégios de uma elite que não para de crescer. O valor do trabalho não volta para o trabalho e assim se perpetua a dialética da dependência.

Essas palavras do professor Ildo Sauer, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, arrancaram efusivos aplausos de um auditório lotado durante o simpósio internacional Um Mundo em Convulsão. O evento foi promovido nos dias 8 e 9 de outubro pelo Programa de Pós-Graduação em História Econômica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Integração da América Latina (Prolam) e pelo Laboratório de Estudos da Ásia (LEA), também da USP.

Na mesma mesa de Sauer, também debateram temas da atualidade brasileira os professores André Singer e Paulo Arantes, ambos da FFLCH, além do professor Armando Boito, professor de Ciência Política da Unicamp.

Organizado pelos professores Lincoln Secco, Osvaldo Coggiola, Francisco Alambert, Rodrigo Ricupero e Jorge Grespan, da FFLCH, o simpósio reuniu em dois auditórios e uma sala da faculdade intelectuais e cientistas de diversos países para debater o cenário mais recente do Brasil e do mundo, incluindo as manifestações populares de junho, o papel das redes sociais na organização das massas, a guerra no mundo árabe, cenários de conflitos nucleares, a situação econômica dos Estados Unidos, a nova geopolítica mundial e o papel da China e da América Latina, além de marxismo, capitalismo, fascismo e imperialismo, entre outros temas.

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Algumas linhas teóricas argumentam que o comércio entre países exportadores de matérias-primas e países desenvolvidos tende a uma deterioração das relações de troca, isto é, os preços de manufaturados importados aumentam mais que os preços dos produtos agrícolas exportados, ocasionando uma perda ao longo do tempo para os exportadores de matérias-primas. Mas o que se viu na última década foi um boom nos preços das commodities, o que beneficiou substancialmente a economia brasileira. Para o professor Sauer, o aumento dos preços internacionais das commodities foi uma das mais importantes causas do crescimento da economia brasileira nos últimos anos.

Entre outros fatores do crescimento do Brasil nos últimos anos, o professor Singer apontou os programas sociais do governo federal de transferência de renda e emprego e enfatizou que o principal meio de distribuição foi o aumento real do salário mínimo. Na última década, o salário mínimo teve uma alta de 70%, afirmou. Isso impulsionou o consumo e o crescimento, disse.

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
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André Singer

Porém, Singer lembrou que tais programas atingem sobretudo municípios muito carentes e distantes dos grandes centros, o que deixou uma lacuna nas metrópoles. Isso explicaria em parte o descontentamento que eclodiu justamente nas grandes cidades, através das manifestações nas ruas, em junho.

Singer disse também que os “acontecimentos de junho” têm uma relação direta com a decadência do lulismo. Além de os programas sociais não atingirem a massa das metrópoles, o lulismo tem sido menos eficaz nas grandes cidades porque é “muito caro mudar as condições de vida nas metrópoles”, disse. Os grandes centros requerem mudanças profundas e que necessitam de um grande orçamento, como é o caso das áreas da saúde, transportes e moradias, por exemplo, destacou. “Por isso não foi surpresa que os partidos de oposição tenham ganhado nas metrópoles nas últimas eleições. E também por isso não foram surpresa as ocorrências de junho nas metrópoles”, disse.

Coggiola vem organizando os simpósios internacionais para debater atualidades desde 1986, trazendo cientistas e pesquisadores de todo o Brasil e do exterior. “É uma oportunidade de levar ao grande público e especialmente aos professores e alunos da rede pública de ensino o conhecimento produzido na academia. Nessa atividade de extensão buscamos realizar comunicações relativamente curtas, feitas por especialistas e protagonistas sociais, a fim de promover a interface entre eles”, afirma Coggiola.

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