Em projeto da EACH, design thinking trabalha a favor do idoso

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Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti
Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti

A chamada terceira idade carrega consigo muito mais do que apenas complicações relacionadas à saúde física. Envelhecer nas grandes cidades pode ser um grande desafio nos quesitos mobilidade, acessibilidade e padrão econômico. A fim de buscar soluções capazes de amenizar os efeitos da vida urbana no cotidiano do idoso, a professora Maria Luisa Trindade Bestetti dedica seus estudos à ambiência e seus efeitos nas pessoas de idade avançada – e como a prática do design estratégico pode intervir nessa situação.

“Há uma quantidade enorme de falhas nos projetos urbanos no que diz respeito ao acesso dos idosos. Quando se pensa em um espaço saudável para esse público, leva-se em consideração que ele não só permita o protagonismo, mas também forneça segurança, conforto, satisfação, bem-estar e qualidade de vida”, diz a docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Os ambientes aos quais ela se refere vão além de apenas a casa do sujeito. O trabalho, o bairro, a rua, o supermercado frequentados pelos indivíduos estão todos inseridos dentro de um contexto maior, que é a cidade.

Há uma quantidade enorme de falhas nos projetos urbanos no que diz respeito ao acesso dos idosos.

Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti
Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti

Acessibilidade, colocação de placas de orientação adequadas, tempos maiores nos semáforos de travessias, educação de motoristas, cobradores de ônibus e atendentes de balcões de serviços diversos, calçadas bem pavimentadas, mobilidade na cidade e o entendimento de como, ao envelhecermos, podemos melhorar nossa capacidade de autonomia. Este são todos fatores incorporados ao projeto de pesquisa Ambiência e envelhecimento. “No momento em que se percebem todos os estímulos ambientais, desde os que estão dentro do espaço privado até os que estão presentes nos grandes espaços coletivos, considera-se que esses impactos podem favorecer ou desfavorecer o envelhecimento saudável”, detalha.

Originalmente formada em arquitetura, Maria Luisa trabalhou durante muito tempo com projetos de edifícios, área em que desenvolveu pesquisa sobre segmentação turística. Foi a partir do interesse em projetar um hotel adequado aos idosos que ela focou seus estudos em acessibilidade e gerontologia – curso em que atualmente dá aulas na EACH – atuando na gestão de projetos e empreendedorismo.

Junto ao grupo que desenvolve o projeto “Cidade Amiga do Idoso”, ou “Bairro Amigo do Idoso”, no caso de São Paulo, a professora passou a aplicar seus conhecimentos junto às subprefeituras da Mooca e do Brás – e neste último o trabalho já foi desenvolvido.

A partir das percepções dos idosos moradores dessas regiões, investiga-se o que não está favorecendo sua vivência em aspectos como acessibilidade, uso do transporte público, segurança, e engajamento social. Ao longo de todo processo, é feita uma prospecção de como quem atende os idosos – e os próprios idosos – estão lidando com o espaço urbano, como as pessoas veem as dificuldades e propõem soluções para elas.

Os dados levantados são encaminhados às instâncias de governo que elaboram as políticas públicas, visando à melhoria da qualidade de vida de toda uma população. Afinal, “o velho de amanhã é o maduro de hoje, e o maduro de amanhã é o jovem de hoje. Estamos todos no processo de envelhecimento”, diz Maria Luisa.

Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti
Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti

Colaboração para soluções inovadoras

O Laboratório de Design, Inovação e Criatividade (d-USPLeste), grupo de pesquisa liderado por Bestetti, conta, em um primeiro momento, com professores e alunos, mas é um espaço que busca também a presença de diversos grupos da sociedade para que tragam suas demandas. Isso não deve ser entendido no sentido de que a universidade sanará os problemas das comunidades mais carentes, o que na opinião da pesquisadora seria uma visão paternalista. A ideia é que esta colaboração possa promover oportunidades de reflexão, nas quais o grupo multidisciplinar consiga discutir em um fórum encaminhamentos e possíveis soluções em temas como transporte público, habitação adequada, coibição de tráfico de drogas e violência.

Maria Luisa está desenvolvendo, atualmente, sua pesquisa de pós-doutorado, na qual conta com a parceria da Parsons The New School for Design para compreender como as inciativas das políticas públicas de Nova Iorque e de São Paulo impactam os cidadãos durante o envelhecimento, nesse contexto de aglomeração urbana e de custos elevados. Com a qualidade de vida diminuída, os imóveis mais valorizados, e menos segurança, o processo de envelhecer em uma metrópole não pode ser equiparado ao que se dá em uma cidade pequena. Se torna praticamente impossível, por exemplo, manter um imóvel de boa qualidade com as baixas aposentadorias de que esse público depende.

Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti
Foto: Maria Luisa Trindade Bestetti

Ambas as capitais possuem programas de habitação para idosos a partir da revitalização de edifícios abandonados. Isso não funciona somente para a terceira idade, mas também para migrantes e mães solteiras, no caso de São Paulo, e para veteranos de guerra e grupos fragilizados socialmente, em Nova Iorque.

No Brasil como um todo, porém, esta ainda é uma iniciativa muito incipiente, especialmente se considerarmos a tendência de aumento da longevidade que o país vem apresentando, comprovada pelo Censo de 2010. “As pessoas estão vivendo mais e estão nascendo menos crianças. O potencial de trabalhadores para o futuro é menor e a quantidade de dependentes da previdência tende a aumentar”, ressalta a Maria Luisa.

Para ela, uma cidade compatível com essa realidade é um local que pode manter a qualidade do idoso, mesmo que já esteja com algumas limitações, além da aposentadoria. “Ele deve poder continuar tendo uma vida social, além de uma boa saúde”, conclui.

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