Pesquisa reunida em livro revela mudanças no perfil e rotina do jornalista

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Izabel Leão/Jornal da USP

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
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Roseli Fígaro apresenta pesquisa na Câmara Municipal de São Paulo

Em palestra na Câmara Municipal de São Paulo, no dia 17 de outubro, a professora Roseli Fígaro, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, apresentou uma pesquisa realizada com mais de 500 jornalistas de todo o País.

Já publicada no livro As Mudanças no Mundo do Trabalho do Jornalista, a pesquisa mostra que uma série de funções do jornalismo desapareceu do cenário das rotinas produtivas do trabalho jornalístico. “A comunicação, na contemporaneidade, ganha tal dimensão que sai do âmbito dos meios tradicionais que conhecemos, como jornal impresso, televisivo e rádio, para ser incrementada como processo fundamental para a realização do trabalho”, afirma a pesquisadora.

Hoje os produtos jornalísticos impressos, televisivos ou radiofônicos são produzidos de uma maneira completamente diferente do que há cerca de 20 anos. Outro ponto relevante apontado pela pesquisa é que o tempo e o espaço foram comprimidos devido à agilidade das tecnologias da comunicação e informação, reduzindo o tempo para a reflexão, a apuração e a pesquisa no trabalho jornalístico. Por isso fala-se de uma “imprensa sentada”, que não sai mais em busca do fato.

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

A pesquisa mostra ainda que a comunicação muda os meios de trabalho. As rotinas são transformadas para a introdução de novas formas de comunicar. “Na área própria da comunicação esse fato mudou muito. Hoje quem trabalha com comunicação é um número maior de mulheres, a maioria é de jovens, e ocorre um borrar de fronteiras entre as profissões. Ou seja, trata-se da intersecção cada vez maior entre as profissões tradicionais da área de comunicação, como relações públicas, publicidade e jornalismo.”

Também fica evidente que o mundo do trabalho do jornalista exige intimidade com o mundo digital. Ele precisa cumprir multifunções e as redes sociais revolucionaram a busca pelo personagem da reportagem. O jornalista multifunção se prende às tecnologias, pois estas permitem ao profissional estar em qualquer lugar produzindo notícia para vários meios de comunicação ao mesmo tempo. O personagem não é mais o sujeito que protagonizou o fato. O jornalista colhe a narrativa do personagem e a transforma num acontecimento, ou seja, o personagem agora é aquele que dá a informação que preenche a matéria. “A pauta já foi formulada, e o personagem apenas dá umas falas para criar um sentido de veracidade”, ressalta Roseli.

Com as tecnologias e racionalização nos processos de trabalho, o resultado é o aumento de horas trabalhadas, o aumento da competição entre os colegas e a redução da mão de obra e do número de postos de trabalho.

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

Outro fato relevante apontado por Roseli é que a palavra “cliente” é recorrente. “Se todo o fundamento do jornalismo é a importância e a credibilidade da informação que o jornalista produz, quando traz a palavra cliente para esse universo, a mediação da informação pública passa a ter um problema.”

A pesquisadora acrescenta que os jovens jornalistas veem a informação como um produto como outro qualquer, e questiona: “Até que ponto tem sido um ideal realizado do jornalismo ser o contraponto de uma sociedade democrática?”.

Assessoria de imprensa

Não é possível fazer jornalismo nas grandes empresas sem assessoria de imprensa, lembrou Roseli. “Não estou falando só das grandes agências jornalísticas, e sim das assessorias, não só por conta da questão econômica, mas sobretudo pelo tempo. A ideia do jornalismo sentado é não sair em busca da informação, mas a informação chegar até o jornalista na redação. Isso acontece há algum tempo e isso só aumentou com as novas possibilidades tecnológicas. Não são mais apenas as instituições, grupos, escolas, igrejas, clubes, artistas, personalidades que geram informações para as redações. Agora é também o cidadão comum.”

Segundo a pesquisadora, os jornalistas mais velhos e mais experientes hoje estão em outros postos de trabalho que não a redação e os mais novos não têm experiência para contestar a fonte de informação especializada, qualificada que lhe fornece o material pronto. Nas redações, não há mais os jornalistas experientes para formar os mais novos, para atuar como um tutor dos jovens.

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Sociólogo Rafael Grohmann

A informalidade e a precariedade são dois fatores preponderantes hoje na profissão do jornalismo. Essas características se confirmam com o grande número de jornalistas free-lancers, como mostrou a pesquisa.

Rafael Grohmann, sociólogo, doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA e integrante da equipe da professora Roseli, destacou no evento, na Câmara Municipal, que hoje ser free-lancer é uma imposição. “Quem tem CLT é raro. Hoje o free-lancer é fixo, não tem nenhum direito, mas tem todos os deveres de um jornalista contratado. O jornalista tem uma formação política débil. Não há mais consciência do seu papel de mediador social”, ressaltou.

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