Pequena porção de espécies domina ecossistema na Amazônia

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Antônio Carlos Quinto/ Agência USP de Notícias

Cientistas de diversas partes do mundo acabam de publicar um estudo sobre a Amazônia, no qual identificaram que apenas 227 espécies de árvores exercem um tipo de domínio em relação às outras. A floresta amazônica contém cerca de 16 mil espécies de árvores em cerca de 6 milhões de quilômetros quadrados (km²) . Esta pequena proporção das espécies, que representam pouco mais de 1%, respondem por 50% do total das árvores da floresta. Ou seja, tem larga representatividade nos ciclos de carbono, água e nutrientes da Amazônia. O grupo de pesquisadores é formado por especialistas de 120 instituições do mundo e inclui 25 pesquisadores brasileiros.

Segundo o professor Alexandre Adalardo de Oliveira, do Laboratório Ecologia de Florestas Tropicais, do Instituto de Biociências (IB) da USP, coautor do estudo, os dados se referem a anos de pesquisas. “É a primeira vez que um conjunto de dados nesta escala é analisado”, diz o professor, lembrando que muitos estudos começaram há muitos anos. “Eu mesmo estudei as áreas de Manaus no início dos anos 1990 com meu trabalho de doutorado. Outros foram iniciados na década anterior”, ressalta. O estudo Hyperdominance in the Amazonian Tree Flora, que acaba de ser publicado na revista Science, foi liderado pelo biólogo Hans ter Steege, da Utrecht University, na Holanda.

As causas deste “domínio” ainda permanecem desconhecidas, mas o que se sabe é que grande parte da matéria e energia do sistema passa por essas espécies. Os cientistas sugerem que algumas espécies hiper-dominantes talvez sejam comuns por terem sido cultivadas pelos grupos indígenas antes de 1492, mas isso ainda é um assunto em discussão.

“Essas espécies chamadas de hiper-dominantes podem nos ajudar a entender o funcionamento da floresta e a modelar possíveis cenários de utilização dos recursos e mesmo as consequências de mudanças climáticas no funcionamento do sistema”, avalia Adalardo.

O estudo analisa dados compilados de 1.170 levantamentos florestais em todos os principais tipos florestais da Amazônia, para gerar a primeira estimativa de abundância, frequência e distribuição espacial em larga escala de milhares de árvores amazônicas.

Extrapolações sugerem que a grande Amazônia, o que inclui toda a bacia amazônica e as Guianas, abriga cerca de 400 bilhões de árvores.

Lista vermelha

Em contraste com a presença das “hiper-dominantes”, o estudo também indica que cerca de 6 mil espécies de árvores da Amazônia têm populações menores do que 1.000 indivíduos, o que automaticamente as qualificaria para inclusão na Lista Vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). De fato, algumas dessas espécies são tão raras, que os cientistas talvez nunca as encontrem.

Contudo, Adalardo adverte sobre os outros 99% das espécies que não estão entre as dominantes. “Notem que, apesar de estarmos falando de metade das árvores, estamos tratando de apenas pouco mais de 1% das espécies que compõem essa imensidão de floresta ou seja, não podemos esquecer que há de se revelar ainda esse universo composto pela outra metade das árvores e grande maioria das espécies para escrevermos uma história mais completa sobre a diversidade e funcionamento dessa floresta.”

Novo paradigma

O pesquisador do IB destaca que as constatações atuais eram “algo impensável” antes dos resultados obtidos por esta rede de interação de pesquisa da diversidade da Amazônia.

Ele lembra que um estudo nessa escala se compara somente ao esforço das equipes de campo do projeto RADAMBRASIL, nas décadas de 1970 e 1980. “Foi onde avançamos muito no conhecimento da estrutura e composição da floresta, com campanhas por toda a Amazônia brasileira”, lembra. “A diferença é que o estudo atual muda o paradigma de diversidade de árvores da Amazônia. Permanece a ideia de uma floresta hiper-diversa em árvores, podendo chegar a mais de 300 espécies de árvores de grande porte em apenas um hectare e que no conjunto tem mais de 16 mil espécies; e emerge pela primeira vez a ideia de que apenas uma fração muito reduzida dessas espécies contribuem com mais da metade das árvores na floresta como um todo.”

Mais informações: labtrop@ib.usp.br

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