Pesquisa da FFLCH analisa presença da retórica no discurso cristão

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Rúvila Magalhães / Agência USP de Notícias

A retórica foi uma arma empregada pelas autoridades cristãs desde o início desta religião, na antiguidade, visando combater certas correntes doutrinais consideradas hereges, no intuito de impor um modelo de cristianismo supostamente correto. Os diversos autores cristãos, desde o início,  sempre tiveram a retórica como uma ferramenta de consolidação institucional e difusão de sua fé, embora sempre tenham negado o seu emprego. Dentre eles, Tertuliano fez um grande uso dos artifícios da retórica clássica. Por ser advogado antes de sua conversão, seu conhecimento da arte da persuasão marcou todo o seu discurso.

Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, uma pesquisa é responsável pela tradução e análise do opúsculo “Adversus Valentinianos”, de autoria de Tertuliano, a primeira feita diretamente do latim para o português pelo historiador Ivan Baycer Junior. “Os textos cristãos, e mais especificamente os de Tertuliano, do século terceiro, trazem em sua construção diversos elementos da retórica clássica, tais como os apresentados por Aristóteles, Cícero e outros. Destaca-se também que estes elementos argumentativos já estão presentes no discurso cristão desde as cartas do apóstolo Paulo”, afirma o historiador.

A retórica, que pode ser definida como a arte da argumentação persuasiva, tem sua origem no século 5 a.C. nos tribunais gregos. Devido a sua origem no mundo helenístico, ou seja, no mundo grego, a prática era abertamente condenada, mesmo assim o cristianismo incorporou em seu discurso os mecanismos persuasivos da retórica.

Sempre foi comum que as autoridades cristãs tivessem concepções doutrinais distintas sobre o mundo real e o mundo espiritual, contudo, no período estudado, observa-se a delineação de um suposto pensamento correto dentro da cristandade. A partir deste momento, todos que tivessem concepções que não se enquadrassem nos padrões doutrinais estabelecidos passaram a ser denominados como hereges, termo que ganhou uma acepção negativa.

Um herege

Tertuliano foi o primeiro autor cristão a escrever em latim — a literatura cristã anterior fora desenvolvida completamente em grego — e um dos ferrenhos defensores da religião crescente, responsável por uma obra que aborda diversos temas doutrinais e refuta correntes cristãs tidas como heréticas. Contudo, ironicamente, a rigorosidade moral e eclesiástica de Tertuliano o levou a se afastar da corrente majoritária do cristianismo, terminando os seus dias como um herege. “Tertuliano era muito rigoroso no campo moral e eclesiástico, sobretudo no que tange a postura de um cristão frente às perseguições religiosas, isso o levou um radicalismo conceitual distante do espírito da cristandade”, explica.

A principal maneira de combater os padres heréticos era por meio do discurso. O suposto mestre, que poderia ser Tertuliano ou outro locutor com o mesmo propósito, apresenta-se como superior para rebaixar o adversário e as suas ideias. O rebaixamento do oponente, mesmo por uso de xingamentos e ofensas pessoais, é essencial para que o mestre capte a benevolência do público, que passará a desacreditar das ideias e da pessoa. Esse é um mecanismo de linguagem identificado pelo pesquisador em seu trabalho. A retórica, então, era empregada na construção da auto-imagem e na desconstrução da imagem do inimigo pelo discurso.

A pesquisa Adversvs valentinianos: tradução da obra e análise dos mecanismos retóricos empregados por Tertuliano em defesa da proto-ortodoxia, orientada por Elaine Cristine Sartorelli, aborda principalmente a retórica usada pelo padre Tertuliano. A dissertação de mestrado conta com uma tradução inédita do tratado Contra Valentianos (Adversvs Valentinianos), diretamente do latim para o português feita pelo autor, que também contribuiu reunindo indicações bibliográficas. A partir do tratado foi possível fazer um estudo da época.

Por meio deste estudo o pesquisador pôde perceber que o cristianismo primitivo abrigava uma série de correntes doutrinais nem sempre concordes entre si, originando uma série de conflitos travados sobretudo no campo discursivo, espaço onde a principal arma é a retórica. O pesquisador se surpreendeu com “a grandeza teórica da retórica clássica, a profundidade de seu pensamento, seus conceitos e discussões, todos estes originados de um saber prático originado nas querelas dos tribunais gregos”, afirma. Por fazer um levantamento do que foi estudado a respeito de Tertuliano, por suas análises teóricas e pela tradução realizada, o estudo de Ivan Baycer Junior compõe um referencial teórico e acadêmico sobre o assunto.

Mais informações: email ivanbaycerjunior@yahoo.com.br, com Ivan Baycer Junior

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