Casa de Mário de Andrade revela suas histórias em filme produzido na FAU

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Foto: Reprodução / VideoFAU
Acervo do IEB sobre o intelectual foi fonte para a pesquisa de Luiz Bargmann

Hoje museu e espaço de cultura, o imóvel que fica no número 546 da rua Lopes Chaves, em São Paulo, tem muita história para contar. Foi lá que, há 90 anos, viveu o intelectual modernista Mário de Andrade. A relação dele com a casa onde viveu sua época mais fértil e a obra de Mário de Andrade em si são temas do documentário A Casa do Mário (Brasil, 2013, 26 min.), que vai ao ar pela TV USP nesta segunda-feira, às 22 horas. A produção é do VídeoFAU, Laboratório de Vídeo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

Ainda em 2011, o diretor do documentário Luiz Bargmann apresentou o projeto do vídeo para o IEB e para a curadora do Acervo Mário de Andrade, professora Telê Lopez. Membro da VídeoFAU, que é uma seção técnica da Faculdade para produção audiovisual, o documentarista conta que o vídeo também recebeu o apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP. Do laboratório, foram utilizados os recursos do vídeo, da gravação, edição e registro da imagem em movimento.

Mário no IEB

Foto: Reprodução / VideoFAU
Segundo o diretor, época em que viveu nesta casa foi a mais produtiva de Mário de Andrade

“Esse projeto surge a partir do acervo que existe no IEB”, conta Bargmann. A ideia da obra veio de um filme de 1968, encontrado no Arquivo IEB. Produzido pelos cineastas Thomas Farkas e Sergio Muniz, o vídeo era um registro da casa onde moraram Mário e sua família. A gravação é de um período anterior à transposição das coleções do artista para a USP, um registro do ambiente em que o intelectual vivia. O filme não foi editado ou sonorizado. É, como conta o cineasta, apenas o material bruto. “Eu assisti a este filme e fiquei motivado a desenvolver o projeto a partir dele”, revela.

O diretor, no entanto, optou por buscar mais dados sobre a vida do autor. Conta que, pela extensão do acervo no IEB, houve uma captação extensa de material que não tratava somente da casa de Mário, mas de suas criações e vida pessoal – são fotografias, recortes, partituras e até mesmo alguns móveis desenhados pelo próprio modernista que formam as referências do documentário. “Há uma grande riqueza nesta coleção do IEB para se trabalhar dentro da linha que propus”, conta o diretor sobre o filme, que busca não ser propriamente um retrato, mas que traz um pouco do cotidiano da casa onde o intelectual morou durante mais de 20 anos.

“Sua época mais produtiva foi enquanto morou nesta casa, de 1921 até 1945, quando faleceu”, afirma Bargmann. A presença da construção da Lopes Chaves na vida de Mário, conta o cineasta, é muito grande. O ambiente era, ao mesmo tempo, um abrigo para o escritor, um espaço reservado à intimidade pessoal, mas ao mesmo tempo tinha um caráter bastante social, pois era lá onde o escritor recebia seus amigos para festas e comemorações. É essa relação da casa com Mário que é trabalhada no filme.

Filme na planta

O documentário apresenta também cenas atuais da Casa Mário de Andrade, que continua tendo um papel cultural relevante na cidade. O local sedia eventos, oficinas e atividades que envolvem diversas áreas da cultura e das artes, e mantém a estrutura da época em que o modernista era seu morador. Muito significativa, conta o diretor, a planta original do prédio foi encontrada no Arquivo Municipal. Conjunto de três sobrados germinados, os prédios foram construídos em 1920. A partir da planta original e com recursos gráficos e digitais, a equipe do filme preparou animações que tomam conta do espaço da casa trazendo o cotidiano de Mário em suas aulas, trabalhos, enfim, todos os seus roteiros domésticos.

O documentário é feito quase todo sobre material de arquivo. São apresentadas em vídeo algumas cartas e poesias do modernista. A trilha sonora é toda formada a partir de músicas que fazem parte da sua coleção. “Ele tinha centenas de discos da época, procurei como opção de preservar esse caráter de documento sonoro, manter as músicas com o chiado do disco”, diz Bargmann.

Arquitetura e literatura

Foto: Reprodução / VideoFAU
Relacionar literatura e arquitetura foi um desafio

A combinação entre arquitetura e literatura é inusitada, mas Bargmann já está acostumado com a produção de documentários a partir de documentos estáticos e de arquivo. Ainda assim, esse não deixa de ser um trabalho novo para o diretor. Cruzar a fronteira da arquitetura com a literatura e com o universo poético e intelectual de Mário de Andrade foi um desafio.

O projeto começou em 2011, quando a equipe se organizou para realizar uma pesquisa complementar que buscava imagens e documentos. Foi neste período que entraram em contato com  a planta da casa e a cópia de um vídeo desconhecido que também mostrava a casa do autor, assinado pelo cineasta Rui Santos.

Há outros trabalhos de Bargmann relativos à pesquisas em arquivos que ele já desenvolve há certo tempo. “Por diversas razões eu acabei fazendo um levantamento sobre filmes de arquivo na USP”, o que motivou o cineasta.

Anteriormente, Bargmann produziu, também a partir do Arquivo IEB, a obra  Em arapiraca o trabalho canta. Trata-se da montagem de um filme presente no acervo que ainda não havia sido editado, um material bruto, filmado em formato Super 8. Datado de 1977 e realizado na cidade de Arapiraca, em Alagoas, o filme fala do canto de trabalho das mulheres que lidam com a produção de fumo. “Este material nós digitalizamos, passamos para vídeo em formato digital e fizemos uma montagem”, lembra o diretor, que confessa ter tomado gosto por lidar com materiais de arquivo. “Tem um outro vídeo que é totalmente de material de arquivos da USP, o Filme Partido“, produção composta por fragmentos de diversos filmes encontrados nos acervos da Universidade.

Serviço

A produção A Casa do Mário será transmitida na segunda-feira (02/12), a partir das 22 horas, pela TV USP no Canal Universitário de São Paulo (CNU), sintonizado pelo canal 11 da Net, canal 71 da Vivo TV, e canal 187 da Vivo TV Digital, ou pela página do CNU. O documentário também estará disponível para consulta no site do Intermeios.

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