Estudo do IP analisa a crueldade supostamente gratuita

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Mariana Soares / Agência USP

Embora certos atos de crueldade pareçam gratuitos, eles não o são, havendo um componente prévio de ordem política ou social. A pesquisa Estudo psicanalítico sobre a gramática da maldade, desenvolvida no Instituto de Psicologia (IP) da USP, analisou algumas modalidades de violência, com base nos grandes genocídios. Principalmente no Holocausto da Segunda Guerra Mundial, quando a barbárie humana atingiu uma magnitude até então inédita.

A fim de compreender como o homem pôde alcançar tais níveis de destrutividade, a psicóloga Marie Danielle Brulhart Donoso resolveu articular aspectos históricos e cotidianos, e individuais e coletivos, fazendo uma análise da relação indivíduo-mundo. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, relaciona a perversão à sexualidade, mas a autora ampliou o estudo para as perversões morais (não ligadas à sexualidade): “a perversidade está também na relação do dia-a-dia, e não só nos grandes massacres. A dominação atrelada à crueldade pode encontrar-se num chefe autoritário, por exemplo”. A pesquisa direcionou sua análise aos opressores que praticam atos cruéis com indiferença (o perverso), havendo uma distinção daquele que o faz por prazer (o sádico).

Marie relembra que Freud afirmava que para viver em sociedade o homem teria que renunciar aos seus impulsos naturais (isto é, não poder fazer tudo aquilo que deseja, quando e como quiser), criando, desta maneira, uma tensão constante entre os interesses pessoais e as exigências da cultura.

Por outro lado, a psicanálise fala que durante o desenvolvimento da criança surgem componentes cruéis, o que faz com que tais elementos façam parte da constituição de qualquer ser humano. Dessa forma, a pesquisadora não acredita que o ser humano esteja mais cruel hoje, mas ele “atualmente está mais instrumentalizado tecnologicamente para dar vazão a esse tipo de impulso.” A pesquisadora observa que a perversidade acompanha o homem ao longo da história, já que sempre existiram os dominados e os dominadores. Segundo ela, isso explica porque grandes massas podem cometer atos de destruição: “Quando se está em grupo, há uma certa desinibição para descargas de ordem não racional. Em uma massa, as pessoas tornam-se anônimas e se sentem libertadas para fazer o que sentem vontade, ou para seguir o que fazem os outros. Segundo a psicanálise, na massa fala mais alto o desejo do todo, não mais a vontade individual”.

O estudo de Marie aponta também que não existe gratuidade nas ações cruéis, havendo grande influência do contexto social, histórico e político. Segundo ela, quando o grupo é coordenado por um líder este passa a representar um ideal para os membros, que passam também a identificar-se entre si. As diferenças existentes entre grupos (quaisquer que sejam elas) são vistas como uma ameaça, como algo intolerável, e por causa desta ameaça torna-se justificável a sua destruição. A pesquisadora também atenta para o fato de que em muitos casos de destruição em massa, o grupo opressor trata o oprimido como não-pertencente à humanidade, comparando-os com certos animais ou até objetos. E essa desumanização pode facilitar ainda mais os atos de crueldade. Deste modo, os gestos parecem, à primeira vista, gratuitos para quem está de fora, mas derivam de uma intolerância que pode ter diversas causas.

O líder

Um líder perverso causa identificação nas massas, o que pode ocasionar a destruição de uma sociedade por outra. “A coletividade inibe a capacidade de julgamento, de culpa, etc. Nessa situação, há uma prevalência de impulsos destrutivos e o lider é visto como a pessoa ideal, não há questionamento a respeito do que ele faz”, analisa Marie. Neste mesmo raciocinio, é possível visualizar certa lógica nas guerras, por mais terrível que sejam. A guerra teoricamente usa a violência como meio para atingir um fim, mas existe uma outra forma de destrutividade, que é quando a violência deixa de ser um instrumento para atingir uma meta e passa a ser o próprio fim, matando para exterminar o outro, porque ele é diferente, e portanto intolerável. E, como a pesquisadora frisa, esse tipo de ação não ocorre apenas em grandes conflitos ou massacres. Está na nossa mídia cotidiana também, muitas vezes em contextos de dimensão menor ou dentro de uma esfera mais privada.

Atualidade

Para o estudo, Marie debruçou-se em uma extensa pesquisa bibliográfica, tendo a Segunda Guerra Mundial como ponto de partida, e autores como Freud e Hannah Arendt como norte. Sob a orientação do professor Nelson da Silva Junior, ela relacionou os fatos observados com eventos atuais e que se tornaram conhecidos da sociedade, a fim de demonstrar a atualidade de seu estudo. Os recentes casos de agressão à homossexuais, índios e episódios divulgados pela mídia como o de Suzanne Von Richthofen (que assassinou os pais com ajuda do namorado) são exemplos vivos disso. “Esse assunto, infelizmente, ainda é muito atual. Todos os cenários históricos apontam para algo que pode ser observado hoje em dia. A problemática é a mesma. A crueldade, esteja ela articulada ao sádico ou ao perverso, caminha junto com o ser humano”, acrescenta. A pesquisadora assume que essa é uma visão dura do ser humano, pois segundo sua pesquisa, este é um processo que não se pode evitar, que não se sabe ainda quando nem como parar. “É difícil imaginar um fim”, diz a psicanalista.

Mais informações: danybru@gmail.com

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