Poli e EESC intensificam pesquisas em estruturas contra incêndio

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Bruna Pellegrini, especial para o USP Online

O crescimento da economia brasileira se reflete nos números da construção civil. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção, de 2004 a 2010 a construção nacional cresceu 42,41%. Lado a lado a esse aumento significativo de obras, aparecem os cuidados e exigências para garantir a segurança nas novas construções, especialmente contra incêndios. Nesse contexto ganha cada vez mais importância trabalhos como do Grupo de Pesquisa de Segurança das Estruturas contra Incêndio, coordenado pelo professor Valdir Pignatta e Silva, da Escola Politécnica da USP (Poli).

Empenhados em promover estudos sobre a resistência de elementos usados em edificações em situações de incêndio, estão, junto com ele, pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Rio Grande do Sul (UFRS), de Santa Catarina (UFSC), do Rio Grande do Norte (UFRN), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre outras instituições.

Desde 2009, um projeto paralelo, coordenado pelo professor Carlito Calil Junior, da EESC, e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), promoveu a construção do primeiro forno brasileiro para pesquisa de estruturas em caso de incêndio. A previsão é de que em março deste ano ele já esteja em funcionamento.

Dimensionamento

O trabalho dos pesquisadores dos grupos de Pignatta e de Calil é determinar quais são as mínimas dimensões de elementos da construção para suportar os esforços do dia-a-dia e assegurar sua resistência quando submetidos a situações de incêndio. “Hoje, a grande filosofia se baseia, antes de tudo, em garantir que os usuários tenham tempo para sair do edifício em chamas, antes que a estrutura se rompa, que entre em colapso”, explica Calil.

Além disso, trabalha-se com a exigência de algumas normas governamentais, como a paulista, de que, caso o incêndio ocorra, que seja o máximo compartimentado. “Isso quer dizer que o fogo não deve se alastrar para outros andares e setores do edifício. Daí a importância da eficiência de portas-corta-fogo, por exemplo”, complementa Pignatta.

Por isso, a previsão do comportamento dessas estruturas é imprescindível. “Até agora, todos os pesquisadores que trabalham no Brasil nessa área fazem simulações computacionais, em que se analisa virtualmente o comportamento das estruturas. Quando muito, fazemos alguns estudos com fornos muito pequenos”, lembra Pignatta. “Como se conhece muito dos materiais que compõem as estruturas, recorremos também a normas internacionais e adotamos valores para os nossos casos”, completa Calil.

Em vários países com grande investimento em pesquisa e inovação, existem laboratórios equipados com fornos que permitem que elementos estruturais (vigas, colunas, lajes, paredes) e, em alguns casos, até subconjuntos sejam submetidos ao fogo do forno, para se analisar o comportamento das estruturas em incêndio. “Na America Latina, existe um forno para pesquisas no Chile. No Brasil, temos um forno mais voltado para prestação comercial de serviço no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e um forno no Centro Tecnológico de Engenharia Civil da usina Eletrobras Furnas, em Goiânia, mas que não têm todas as qualidades de forno ideal para o trabalho de pesquisa”, esclarece Pignatta.

Laboratório

Foi diante desse panorama, que os professores Calil, Pignatta, Jorge Munaiar Neto, também da EESC e Armando Lopes Moreno Junior, da Unicamp criaram, em 2009, um projeto temático para a Fapesp, para construção de um forno horizontal. A partir de março ele permitirá realizar ensaios que antes não eram possíveis de serem feitos no Brasil. “Será, portanto, o segundo forno na América Latina para pesquisa de estruturas contra incêndio”, comemora Pignatta.

Coordenador do projeto, Calil detalha a escolha e vantagens do forno recém-construído.  “Vamos poder fazer ensaios de elementos estruturais (pilares, vigas, lajes e colunas), de aço, madeira e concreto em sistemas mistos, por exemplo. E por ser horizontal, conseguiremos fazer o ensaio com a aplicação de carga, simulando, portanto, uma estrutura está sob carregamento do dia a dia em situação de incêndio.”

Toda a empreitada custou cerca de dois milhões de reais. Além do forno, que foi produzido por uma empresa paulista de cerâmica, foi necessário importar oito queimadores alemães e construir um prédio especial para abrigar o equipamento. “A Fapesp colaborou muito para que esse forno fosse construído”, ressalta Calil.

Exigências

No Brasil, a exigência de segurança contra incêndio não é federal, é estadual. Com isso, cada estado tem o seu regulamento. “A legislação paulista é umas das mais rigorosas quanto à segurança contra incêndio”, avalia Pigatta. As legislações estipulam os critérios que têm que ser cumpridos tanto pelo projeto arquitetônico quando pela obra de engenharia.

“O problema, pondera Pignatta, é a falta de conhecimento dos profissionais. Não há no Brasil curso de graduação, incluindo os da USP, que ensine os engenheiros a calcular estruturas em situação de incêndio, ou um arquiteto a bem projetar um edifício nessas condições”.

Quando entram no mercado de trabalho, a deficiência pesa. Qualquer profissional que trabalhe com edificações, por exemplo, tem uma exigência normativa do Corpo de Bombeiros que deve ser cumprida para segurança contra incêndio. “Aí os profissionais têm que correr atrás do prejuízo”, adverte Pignatta.

Ensino e mercado

Ciente dessa deficiência na grade curricular da Poli, Pignatta criou uma disciplina de graduação com a temática de segurança contra incêndio.  “Desde 2010, começamos a oferecer esta disciplina optativa que é a primeira na América Latina, chamada Projetos de Estruturas em Situação de Incêndio. No ano retrasado foram mais de 40 alunos que cursaram a disciplina, e no ano passado, mais de 30 alunos”. Além disso, desde 1999, Pignatta oferece disciplina semelhante na pós-graduação.

Com o aumento da obras de construção civil e a entrada de novo elementos no canteiro de obras, a tendência é que tanto a demanda por profissionais mais bem formados quanto por testes em forno como o de São Carlos cresçam. “A nossa expectativa é de bastante de trabalho, tanto de pesquisa, como de prestação de serviço à comunidade já para os próximos meses”, comemora Calil.

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