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Núcleo de pesquisa avança nos intrincados caminhos das células

Descobrir e caracterizar os peptídeos – moléculas que resultam da degradação da proteína pelas enzimas – é o trabalho do Núcleo de Apoio à Pesquisa na Interface Proteólise-Sinalização Celular (NAPPS) da USP, que pode resultar em novas formas de tratamento do câncer e outras moléstias

Às portas de mais descobertas

Empenho dos pesquisadores do NAPPS na investigação dos peptídeos pode garantir, no futuro, novas esperanças para o combate a diversos tipos de câncer, obesidade e doenças degenerativas

Sylvia Miguel / Jornal da USP

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

“A aprovação de produtos na área farmacêutica pode levar de nove a 20 anos. De cada 5 mil moléculas novas estudadas, apenas uma chega ao consumidor em forma de algum produto. Está demonstrado, estatisticamente, que só o desenvolvimento de uma molécula pode consumir US$ 16 milhões. Já o estudo clínico custa US$ 1 bilhão, até que ela possa se transformar em fármaco para a sociedade. Nenhuma agência de fomento ou universidade terá esse dinheiro para investir. Essa é justamente uma das maiores dificuldades das pesquisas na área farmacêutica em universidades hoje.”

As informações do professor Marco Antônio Stephano, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e co-coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa na Interface Proteólise-Sinalização Celular (NAPPS) da USP, dão uma dimensão de como a corrida ao conhecimento está estreitamente ligada a sociedades mais ricas. No caso, o conhecimento gerado na USP já resultou em patentes não só no Brasil, mas em países como Japão, China e Portugal.

Depois de descobrir e dar nome à hemopressina – um achado que tem grande atenção da ciência desde 2003 –, uma equipe de farmacologistas encabeçada pelo professor Emer Suavinho Ferro, coordenador do NAPPS, provou que essas partículas não são apenas resíduos sem função na célula, como se acreditava. São peptídeos que, além de regular o funcionamento celular, também facilitam a interação de proteínas e podem modular estímulos extracelulares.

“O professor Lloyd Fricker, do Albert Einstein de Nova York, disse que esses peptídeos eram o lixo da célula, um subproduto do metabolismo celular. Acreditava-se que eram destruídos tão logo entravam na célula. Durante um trabalho de três meses, pude provar que não eram apenas resíduos. Eles têm uma atividade muito rica em nível intracelular. Com os peptídeos, criamos um novo conceito em biologia, que vem sendo validado e sedimentado por muitos outros achados e gerando patentes até fora do nosso grupo de pesquisadores”, afirma Ferro, que é docente do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

Segundo ele, a hemopressina está pronta para ser testada em animais. “A ideia é fazer um medicamento sublingual, com aplicação para dor neuropática. Não existe ainda no mercado um medicamento para tratar essa dor”, diz.

Desde o primeiro peptídeo encontrado por Ferro, a trajetória de descobertas continuou numa espiral crescente. “Em 11 anos, descobrimos diversas moléculas novas com atividades farmacológicas. Em 2006 conhecíamos 40 peptídeos. Hoje conhecemos milhares de sequências e estudamos profundamente uma dezena delas”, diz o professor.

Até o momento, dois desses peptídeos tornaram-se alvo de patentes depositadas pela USP, geradas a partir do trabalho multidisciplinar iniciado há cerca de um ano entorno do NAPPS. São eles o pep5 e o L28.

O pep5 é uma molécula natural sintetizada em laboratório e que já pode ser considerada uma droga. Além da patente, gerou um artigo numa das revistas de mais alto crivo científico, a Journal of Biological Chemistry. “O pep5 apresenta uma altíssima potência citotóxica, ou seja, dispara a morte celular para cerca de uma dúzia de tumores humanos testados e com efeitos insignificantes em células humanas normais.”, afirma o professor Fábio Luís Forti, do Instituto de Química (IQ) da USP, integrante do NAP.

A patente do L28 está em processo de depósito, motivo pelo qual os professores não podem dar muitos detalhes. Revelam apenas que a molécula vem se mostrando um adjuvante de vacinas.

“A universidade serve para gerar conhecimento. Não colocamos o produto no mercado, mas como acadêmicos temos o compromisso de gerar patente. Ao publicarmos um trabalho, torna-se um conhecimento público. Foi assim que diversos países registraram patentes a partir do conhecimento gerado dentro do nosso NAP”, afirma o professor Ferro.

O coordenador do NAPPS conta que verificou patentes registradas em países como Portugal, Japão e China, além de Brasil, a partir dos peptídeos estudados no seu núcleo de pesquisa. São aplicações voltadas ao alívio da dor, para o tratamento da obesidade, tratamento e prevenção de desordens neurodegenerativas, entre outras. “Isso é natural. Outros pesquisadores descobrem as mais diversas aplicações para o conhecimento que produzimos”, afirma Ferro.

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