Estudo na FFLCH mostra que militância transforma mães de jovens infratores

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Mariana Soares / Agência USP de Notícias

Estudo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP reuniu relatos de mães cujos filhos eram ou já haviam sido internos da antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor, a Febem (hoje Fundação Casa). Segundo a historiadora Marcela Boni Evangelista, o envolvimento ou não com movimentos sociais influenciou a maneira positiva ou negativa como essas mães encaram a instituição.

A pesquisa de Marcela, Padecer no paraíso? Experiências de mães de jovens em conflito com a lei, buscou explorar a percepção que as mães tinham sobre a instituição e como essa experiência adversa as transformou como mães e como mulheres. A historiadora conta que via uma tendência em matérias jornalísticas de dar pouca voz ou criminalizar tanto os jovens infratores quanto sua família. Por causa disso, buscou conhecer a história de vida dessas mães que tiveram a experiência de ter um filho na Febem. Segundo ela, passar pela chamada ‘maternidade adversa’ fez com que transformassem seu papel como mulher na sociedade, buscando formas para mudar a situação de seus filhos, especialmente através da militância.

Foram realizadas seis entrevistas com mulheres nesta situação, a maioria delas ligadas à Associação de Mães e Amigos da Criança e Adolescente em Risco (AMAR). As mães relataram sua história de vida, não se limitando apenas ao período de internação de seus filhos. Das seis entrevistadas, apenas uma não possuía relação próxima com a militância, e curiosamente foi a que descreveu a instituição prisional de maneira mais positiva. Segundo Marcela, as mães de um modo geral descreviam aquele ambiente como um lugar onde o Estado era ausente e onde seus filhos eram privados de direitos humanos básicos. “Outra característica é que todas elas passaram a se informar sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, para que pudessem fiscalizar a situação de seus filhos. Uma delas inclusive começou a fazer faculdade depois de passar por essa experiência”, diz a autora.

Para essas mães, a Febem era um lugar totalmente despreparado para cumprir o que propunha, a ressocialização dos internos. Na visão delas, a instituição foi a principal responsável pelo distanciamento de seus filhos, dada a dificuldade das visitas, das revistas e de outros fatores. As mães militantes viam a fundação como local de violação intensa de direitos humanos, pois seus filhos não tinham acesso a educação de qualidade, sofriam maus tratos, entre outras violações. Apesar das críticas, elas ressaltaram que existiam funcionários com a preocupação de melhorar aquele ambiente, e que a parceria com eles fez com que elas próprias se capacitassem em sua militância.

Já a mãe que não era envolvida com movimentos sociais descreve uma Febem diferente: para ela a internação do filho era um alívio em determinado sentido, pois ele recebia uma boa alimentação e, uma vez preso, não seria morto por policiais (já que tinha envolvimento com tráfico de drogas). Ou seja, aquele ambiente dava segurança a ela, que também disse ser bem tratada. “É claro que ela pode ter conhecido uma unidade menos problemática da Febem, mas não deixa de ser interessante a diferença das visões entre as mães envolvidas em atividades políticas e sociais e a que não se envolve”, diz Marcela. Essa busca por comportamentos diferentes foi uma das intenções da autora da pesquisa, que queria observar o que elas tinham em comum e o que tinham de dissonante em suas histórias de vida.

A trajetória de vida

As mães ouvidas na pesquisa tinham entre 35 e 60 anos e eram, de maneira geral, vindas de classe média baixa e de bairros da periferia. Seus filhos se envolveram com o crime muito cedo, em uma idade média de 12 anos de idade, tendo eles já sido presos antes dos 15. As drogas e seus desdobramentos foram a principal motivação para o início da vida de infrações. Em um primeiro estágio, eles eram usuários, mas começaram a se envolver com o tráfico e outros atos infracionais, como o roubo, para poder sustentar seu vício. Muitas mães tiveram seus filhos assassinados, o que fez com que a pesquisa abarcasse também a questão do luto materno. Nas palavras da autora, “é interessante como essa militância pode surgir a partir de um trauma muito grande sofrido por elas, como a perda dos filhos, e como isso as transforma. Antes elas eram mulheres comuns e depois se tornaram mães militantes”.

O trabalho, que tem como vertente a História Oral, abrangeu toda a história de vida das mães de jovens em conflito com a lei, encontrando peculiaridades nessas histórias. Marcela destaca que a violência contra a mulher foi um fato comum à maior parte delas e que não era esperado. Segundo a pesquisadora, essa questão aparecia de maneira muito forte em suas histórias de vida, deixando várias marcas. “Essa é uma sutileza do trabalho que fala de toda a história de vida. As históricas contadas por elas são delas, mas ao mesmo tempo são de muitas outras”, completa.

A pesquisa, orientada pelo professor Jose Carlos Sebe Bom Meihy, dá a possibilidade de se conhecer e entender melhor essas trajetórias, e sem a intervenção de terceiros. Marcela enfatiza a necessidade dessas histórias se tornarem mais conhecidas, pois “uma vez que elas são tornadas públicas, há chance de vários problemas serem discutidos e isso pode suscitar políticas de intervenção”.

Mais informações: email marcela.boni@gmail.com, com Marcela Boni Evangelista 

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