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Novo método de ensino no Instituto de Física torna professores mais “socráticos”

Instituto de Física da USP adota novo método de ensino, que inclui o uso de tecnologias e maior participação do aluno em sala de aula

O modelo tradicional de ensino há muito tempo é discutido. Há uma forte tradição das aulas expositivas – principalmente na área de exatas –, que demonstram ser pouco eficientes na retenção do conteúdo. Para mudar esse quadro, o Instituto de Física (IF) da USP adotou um novo método, desenvolvido na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. De acordo com esse método, o aluno se prepara previamente em casa, antes de cada aula, e a sala é adaptada para discussões em grupo e para o uso de computadores.

A principal diferença do novo modelo de ensino é que o estudante tem o primeiro contato com o conteúdo em casa, através dos livros e apostilas, e em sala esse conhecimento é sedimentado. O professor pode focar em assuntos mais relevantes e naquilo que os alunos têm mais dificuldade, esclarecendo melhor as dúvidas.

O debate e as discussões em grupo também são estimulados. Um aluno com mais facilidade em determinado assunto se beneficia ao ter que explicá-lo para outra pessoa, porque sistematiza e organiza seus conhecimentos em sala de aula. Já o estudante com mais dificuldades ou timidez se sente mais à vontade para expressar suas dúvidas para um colega de classe do que para o professor.

A estrutura da sala de aula também é repensada, com a inserção da tecnologia. As mesas são adequadas para essa discussão em grupo, com um notebook para cada três alunos, ligado na internet. Há três telas espalhadas pela sala, que reproduzem o que o professor insere no computador. O estudante pode enxergar o conteúdo de qualquer ângulo, sem precisar se virar. Há também uma série de lousas espalhadas pelo ambiente, para que os alunos possam levantar, desenhar e resolver tarefas, para depois serem comentadas pelo professor. Essa dinâmica faz com que eles trabalhem o tempo todo na aula, propondo discussões.

Planejamento

Foto: Reprodução | Aulas no Instituto de Física: salas adaptadas para discussões em grupo

Esse método foi aplicado integralmente em 2015 para as disciplinas de Física I e II do Instituto de Física, mas já era planejado havia três anos. Segundo a professora Carmen Prado, professora do Departamento de Física Geral do IF, a proposta foi estudada com cautela, discutida na Comissão de Graduação e chegou a ir para a Congregação, onde foi aprovada. “Foi uma iniciativa institucional. Não é um modismo, uma aventura ou a importação de algo que veio de algum lugar. Houve um planejamento.” Também participam do projeto os professores José Roberto Oliveira, Marcio Varella, Maria Teresa Lamy, Renato Higa, Vera Henriques e André Vieira.

Em 2013, começou o planejamento e a construção da infraestrutura. Nesse meio tempo, os professores envolvidos com a disciplina participaram de um seminário para se familiarizar com o novo método. Além disso, a Comissão de Graduação patrocinou a viagem do professor André Vieira para a Universidade da Carolina do Norte, a fim de que ele tivesse contato com o criador do método, o professor Robert Beichner, além de assistir a algumas aulas.

“A viagem foi importantíssima para conhecermos melhor os desafios envolvidos na implantação do método e para nos convencermos da viabilidade de implementá-lo no Instituto de Física”, comenta Vieira. “O professor Beichner falou sobre o desafio que é adaptar a própria atitude do docente em sala de aula a uma postura mais ‘socrática’, em que o professor ensina mais através de questionamentos do que tenta repetir para o aluno o conteúdo do livro.”

O desafio que é adaptar a própria atitude do docente em sala de aula a uma postura mais ‘socrática’, em que o professor ensina mais através de questionamentos do que tenta repetir para o aluno o conteúdo do livro.

Já no ano passado, os professores começaram a ministrar aulas híbridas, no ciclo de Física Básica, com uma aula por semana no novo formato e duas no tradicional. Em 2015, a nova metodologia foi aplicada integralmente. Segundo a professora Carmen Prado, o instituto ainda não coletou dados suficientes para comprovar a melhora no desempenho dos alunos, mas a diferença é perceptível. “Fizemos uma enquete para avaliar a eficiência e o resultado foi muito positivo: entre 60% e 70% dos alunos afirmaram que preferem o novo modelo, e a maioria disse que aprendeu mais e melhor assim”, comemora a professora. “Dentre os mais de mil trabalhos produzidos no mundo que avaliaram essa experiência, quase todos apontaram sistematicamente uma melhora importante na aprovação, na diminuição da evasão e também no ganho conceitual, mesmo dos alunos que já iam bem.”

Ainda segundo a professora, há uma intenção clara da comissão organizadora do curso de Bacharelado em Física em expandir o novo método para as disciplinas Física III e Física IV. “Dar uma aula nesse formato não é muito mais difícil do que no modo usual, desde que a infraestrutura e o material didático estejam prontos”, finaliza Carmen.

Thiago Castro/Jornal da USP

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