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Pesquisa da FFLCH evidencia as oscilações no poder local em Rondônia

Presença forte do Estado e empresas capitalistas ditaram força no local nos últimos 30 anos.

Por Paloma Rodrigues, da Agência USP de Notícias

Análise da dinâmica territorial em Rondônia mostra que, no período de 1970 e 2010, a região apresentou dois processos distintos de ocupação especial. A colonização agrícola incentivada pelo Estado e foi responsável pelo crescimento populacional, com a entrada de imigrantes na região. Segundo o geógrafo Ricardo Gilson da Costa Silva, pesquisador da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a partir de 1970 o estado começa a ser largamente ocupado, principalmente por sulistas. A possibilidade desses assentamentos atraiu pessoas de todo o País. “O governo incentivava essa migração, pois queria ocupar os territórios ao norte do País e estimular a economia local”, diz Silva. Posteriormente, o território se urbanizou com o crescimento da pecuária e das agroindústrias.

Até a década de 1970, Rondônia era um território onde a atividade econômica era basicamente ligada ao extrativismo. “A geografia social não se altera bruscamente até esse período. O uso do território é pautado pela agricultura familiar”, explica o pesquisador que também é professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

A pesquisa Dinâmicas territoriais em Rondônia: conflitos na produção e uso do território no período de 1970/2010 foi defendida em 2011 e orientada por Maria Mónica Arroyo, também da FFLCH.

Primeira fase: a força do Estado

Rondônia se tornou um forte polo de atração populacional, decorrente de políticas de colonização organizadas pelo governo federal. A migração foi tão forte que o Estado não tinha como regular essa ida, sendo assentadas somente as primeiras famílias de camponeses — depois, o Estado começava o processo de regularização quando as famílias já estavam assentadas. “É por isso que esse processo é chamado de colonização, já que de fato não houve uma relação de compra e venda de terras. Um novo espaço desabitado foi simplesmente ocupado.”

Nesse primeiro período, a presença do governo é muito forte. É ele quem organiza as cidades, suas estradas e a distribuição de crédito, por exemplo. Segundo Silva, todas as mudanças eram coordenadas pelo Estado ou, ao menos, passavam pelo aval dele.

Para ele, a colonização foi um processo positivo, pois permitiu ao camponês ter terras. Contudo, todo esse processo evoluiu para a presença das relações capitalistas no campo e na cidade, já que a expansão delas fez com que o Estado perdesse o controle sobre a divisão de terras.

Segunda fase: o ingresso das empresas capitalistas

Essa nova geografia econômica na Amazônia desperta o interesse das empresas e indústrias capitalistas. Elas veem em Rondônia uma nova possibilidade de expansão para seu capital, além de uma mão-de-obra abundante. “Esse segundo momento se desdobra no período pós 1995, alimentado por novos usos do território. A região que só se baseava na mineração, agora vê as empresas de agropecuária ganharem o território”, conta. O Estado vai perdendo seu domínio gradativamente. Ele passa a dividir as atenções da população com outras instituições, como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o INCRA, por exemplo e também com as grandes empresas.

Para Silva, “a construção da Hidrovia Madeira-Amazonas serve como um marco espaço-temporal nesse processo de avanço do capital, pois sinaliza o início do agronegócio da soja, a migração do campo para a cidade, o fenômeno da pecuarização e toda uma instabilidade territorial”. As agroindústrias também se tornam mais importantes. “Uma das empresas que mais ganham espaço em Rondônia é JBS-Friboi, a maior exportadora de carne brasileira”, exemplifica Silva.

Um ponto importante ressaltado na pesquisa é a mudança na configuração do território: da concentração rural, o estado passou para a concentração urbana, com um crescimento exponencial na importância das cidades. Atualmente, a concentração de terras cada vez mais empurra o camponês para as cidades para servir de mão-de-obra; ou eles se deslocam para outras frentes agrárias, o que tem gerando muitos conflitos na região de Porto Velho.

Hoje, as principais atividades agrícolas são orientadas para o mercado externo. Rondônia tem apenas 40 anos, mas já possui 1,5 milhão de habitantes e um número de cidades que se formaram muito rapidamente (em 1970, eram apenas duas, em 1980 já eram mais de 50). “Rondônia vem passando por mudanças profundas, mas bastante rápidas. O estado mudou sua configuração bruscamente em um período muito curto e isso deve ser observado de perto, para que possamos entender no futuro como se configurou essa formação”, conclui.

Mais informações: e-mail ricardogilson@usp.br 

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