Leopoldo Magno Coutinho: uma vida entregue ao ensino e ao estudo do cerrado

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Especialista em biologia vegetal, professor dedicou-se durante 49 anos à USP, entre as aulas no Instituto de Biociências e pesquisas sobre o cerrado

Apaixonado por ecologia vegetal e um dos principais especialistas brasileiros em vegetação do cerrado. Esta é uma breve definição de uma extensa trajetória profissional. Estamos falando do professor aposentado do Instituto de Biociências (IB) da USP Leopoldo Magno Coutinho. Ingressante na turma de 1953 do curso de História Natural e professor do IB até o ano de 2002, Coutinho dedicou-se por quase cinco décadas à USP e ao ensino da biologia vegetal. Suas pesquisas e trabalhos passam por diversos campos, mas suas principais obras estão relacionadas às queimadas e ao seu papel no ambiente do cerrado.

Durante sua carreira, o professor Leopoldo teve a chance de trabalhar com grandes profissionais da ecologia vegetal, aprendendo e sendo motivado por eles. Contudo, ele conta que seus primeiros contatos com a natureza se deram ainda na infância, através de seu pai, um farmacêutico português que trabalhou como seringueiro no Acre. “Meu pai nos contava muitas histórias da floresta amazônica, da fauna e dos ambientes com os quais ele conviveu durante anos. Isso fez com que desde pequeno eu me impressionasse com a natureza e despertou a minha curiosidade” relata.

Seu pai frequentou o curso de farmácia em São Paulo – na época, ainda não existiam as universidades e as aulas eram ministradas em escolas da área. “Ao longo da minha infância e adolescência tive intenso convívio com o ambiente farmacêutico. Isso me trouxe certa familiaridade com laboratórios, vidrarias e princípios químicos. Além disso, as farmácias eram principalmente de manipulação, e suas matérias-primas eram plantas secas ou em pó”, descreve o professor.

Uma história com a USP

Leopoldo Magno Coutinho Foto: Divulgação
Leopoldo Magno Coutinho
Foto: Divulgação

Natural de Franca, no interior do estado de São Paulo, Leopoldo Magno Coutinho terminou o ensino científico no ano de 1952. Aficionado pela natureza não teve dúvidas da carreira que gostaria de seguir. No ano seguinte, ainda no primeiro semestre da graduação, teve a oportunidade de estagiar no Instituto Butantan, no Laboratório de Microscopia Eletrônica, o que mais tarde lhe renderia excelentes resultados. Coutinho iniciou o treinamento junto com dois colegas, no entanto, os dois desistiram após quinze dias, ficando ele sozinho na empreitada. Segundo o professor, houve uma série de dificuldades relacionadas ao estágio, como distância, tempo de deslocamento e transferência para um período de aulas diferente do seu, mas a aprendizagem durante os seis meses em que trabalhou no laboratório compensou os esforços.

Após meio ano de atividades no Instituto Butantan, Coutinho decidiu deixar o estágio, pois as tarefas desenvolvidas estavam relacionadas a animais peçonhentos, principalmente cobras, e seu interesse sempre se deu acerca da biologia vegetal. Logo uma nova oportunidade surgiu e o professor Leopoldo foi convidado a estagiar no Departamento de Botânica. Em sua nova casa, usou das experiências adquiridas anteriormente e realizou um trabalho de microscopia eletrônica em plantas, o primeiro do tipo no Brasil.

Seu empenho e esmero não tardaram a ser reconhecidos: no segundo ano da graduação Leopoldo foi convidado pelo professor Mário Guimarães Ferri, catedrático do Departamento, para trabalhar como auxiliar no Laboratório de Botânica. “Foi uma ótima oportunidade, pois durante o dia eu trabalhava com algo que gostava e era remunerado por isso, e de noite podia assistir às aulas. Dessa maneira segui até o ano de minha formatura, em 1956”, diz o professor Coutinho.

Foto: Leopoldo Magno Coutinho
Foto: Leopoldo Magno Coutinho

Os primeiros trabalhos relacionados ao cerrado aconteceram após o término da graduação, quando Leopoldo tornou-se assistente no Departamento e passou a auxiliar o professor Ferri. Neste período desenvolveu seu doutorado, tese que abordava o balanço da água nas plantas da mata pluvial tropical de Paranapiacaba, defendida em 1960. Um mês após a defesa, embarcou para a Alemanha, onde morou durante um ano, enquanto cursou pós-doutorado na Universidade de Stuttgart.

De volta ao Brasil, o professor Leopoldo realizou uma série de pesquisas em parceria com o professor Ferri e alunos de pós-graduação, sempre tendo o cerrado como temática principal. Assim seguiu até o ano 1976, quando defendeu sua livre-docência em uma dissertação sobre os efeitos das queimadas na floração das espécies do cerrado.

Entre inúmeros trabalhos e pesquisas, Coutinho assumiu, em 1984, o cargo de professor titular do Departamento de Ecologia, onde permaneceu até o ano de 2002. Mesmo após sua aposentadoria continuou colaborando com o IB, ministrando disciplinas de pós-graduação e cursos de difusão cultural.

O fogo, a flor e o cerrado

Entre os diversos ofícios que exerceu durante os anos de dedicação à USP, o professor Leopoldo foi responsável por lecionar a disciplina de biologia vegetal, que integra o currículo do curso de biologia. A matéria era organizada através de algumas excursões, uma delas ao cerrado de Pirassununga, área relativamente preservada. Em uma de suas visitas, o professor e seus alunos encontraram uma extensão totalmente queimada onde, para a surpresa de todos, as plantas herbáceas estavam inteiramente floridas.

Foto: Leonardo Carvalho / Wikimedia Commons

De acordo com o professor Leopoldo, é um costume da população atear fogo no cerrado durante a época de seca, pois dessa maneira ele rebrota verde. Contudo, a ação costuma ser feita sem medidas de segurança, como demarcação de espaços ou precauções para que o fogo não se alastre. Instigado pelo assunto, o professor passou a estudar como o fogo interferia na fisiologia de floração das plantas do cerrado e quais fatores determinavam sua existência.

“O fogo sempre foi um elemento presente no cerrado e as pessoas sabiam disso, mas não havia pesquisadores trabalhando com este fator ambiental. Sua origem, por exemplo, era creditada apenas às intervenções humanas, desprezando-se a ação de raios, como acontecia na Savana Africana. Após uma série de estudos e observações, eu e um grupo de alunos demonstramos a presença de queimadas naturais provocadas por raios”, conta.

Eu costumava, por brincadeira, atear fogo em um vaso com a espécie preferida da minha filha, calculando o tempo necessário entregava-lhe o vaso florido no dia de seu aniversário.

Além dos estudos sobre a origem do fogo, o professor Leopoldo investigou quais fatores eram determinantes para que as plantas do bioma pudessem florescer. Em laboratórios e estufas ele realizou três experimentos: na primeira situação colocava fogo nas plantas, na segundas as podava e por último as expunha a períodos de seca e, em todos os casos, o efeito era de floração. Dessa maneira constatou que o essencial era a eliminação da parte aérea da planta, independente da forma.

“Após entender o período de florescimento das plantas, eu costumava, por brincadeira, atear fogo em um vaso com a espécie preferida da minha filha, calculando o tempo necessário entregava-lhe o vaso florido no dia de seu aniversário. Era um gesto simples, mas de grande simbologia”, afirma o professor.

Atualmente, o professor Leopoldo Magno Coutinho está escrevendo um livro no qual reúne parte de seus estudos sobre o cerrado. Embora não lecione desde 2002, está continuamente produzindo e acrescentando conhecimentos ao campo a que dedicou a maior parte de sua vida.

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