Monstros…!

Yanina Stasevskas, egressa do Instituto de Psicologia (IP) da USP

 

Para começar, conto que sou mestiça: minha mãe nasceu no Japão e meu pai veio de uma aldeia polonesa da Lituânia. Ambos estudaram na USP quando a Cidade Universitária começou a ser construída, meu pai se formou em Física e minha mãe cursou alguns anos a Matemática, mas não chegou a se formar. Dizem que hoje no Japão, a palavra para designar uma pessoa como eu é hafu, e que os hafu estariam em alta, são foco de notícia, de interesse. Essa seria a pronúncia japonesa da palavra inglesa half. Eu me pergunto, quem seria uma “metade”? Quando eu era criança, o que se usava nesse caso até pela colônia japonesa no Brasil, era gaijin, palavra que significa ‘de fora’, em japonês. Talvez nessa tradução falte a mordacidade que, por exemplo, existe para nós na palavra gringo. Embora seja uma interpelação a quem é de fora e que estaria aqui nos ferrando, e a palavra japonesa expresse rejeição a quem não é integralmente japonês. Que impacto, essa onipresença da língua inglesa, da era da globalização, e que mudança sutil de significado!

Mas sabe-se também que as tribos que não pertenciam à etnia dominante no Japão seguem até hoje sem serem reconhecidas, salvo os Ainu, no final da primeira década do século XXI. Nas narrativas tradicionais, essas tribos se transformavam em monstros lendários… E a mestiçagem entre um indivíduo japonês e alguém dessas tribos, gerava uma criança-monstro. Sabemos que um grupo humano fechado, constituído através de atribulações e objetivos em comum, e compartilhando uma cultura, pode apresentar alguma relutância inicial ao lidar com alguém que chega. Mas no Japão, esse estranhamento e repulsa aos ‘estrangeiros’, vamos dizer assim, validou uma estrutura interna milenar, de riqueza e de domínio de certas castas, conjugado à pobreza e condições difíceis da maioria.

Monstros nos oprimem e assombram. Eles perduram muito além do que a gente possa explicar… Assim temos a vida assustada e encolhida, por algo indizível, sem face, avassalador. Quem são os nossos monstros…? De onde vêm? São sempre tão violentos, e o medo que temos… parece que não conseguiremos enfrentar. Embora existam todo o tipo de monstros no mundo, só nós, humanos, podemos ser monstros uns com os outros… assim como só realizamos a humanidade que carregamos na sua plenitude, na companhia
de outros!

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Bem, no Brasil, quando as pessoas contam de onde vieram e quem são seus antepassados, são os europeus que são lembrados… Ser descendente daqueles escravos trazidos da África é ainda concebido como subalterno, inferior… Aqueles que cultivam na família alguma herança cultural dessas origens, são certamente os que conseguem permanecer centrados em quem são, diante do racismo esmagador, que perdura. Mas uma origem indígena…é inexistente! Pois todas as etnias originárias e suas culturas, inexistem. E mestiços, de qualquer etnia originária com uma pessoa do povo brasileiro, não existem. Embora tão diferente do Japão, o conjunto dessa situação brasileira acaba sendo igual, por ocultar povos inteiros e assim mantê-los em todo o tipo de miséria.

Dessa vez, venho contar a história de certos monstros. É difícil de contar porque acho que são monstros de verdade, e estão muito perto. E são como nós, brasileiros. Entrei na USP em 1974. A Psicologia e toda a Faculdade de Ciências e Letras (mais a Geologia, do outro lado da Avenida Prof. Lúcio Martins Rodrigues) conviviam em um conjunto de barracões precariamente construídos, que foi a solução encontrada no início de 60, para instalar dentro do campus os cursos que ainda não tinham prédio próprio.

Dizem, porém, que essa transferência se deu para retirar a visibilidade que a resistência estudantil contra a imposição da ditadura em todas as áreas, alcançava lá no centro. Até hoje, essa história está mal contada. Nesse ano que entrei, todas as salas de aula do Instituto de Psicologia exibiam uma discreta tarja de luto no canto direito ao alto dos quadros-negros. Não sei quando foram postas, achei que era fato recente, embora fosse pelo assassinato da ex-aluna e também militante Iara Iavelberg, que aconteceu em agosto de 1971, pelas forças da ordem daquela ditadura que não admitia que se contrariasse seu absolutismo esmagador. Vocês não têm ideia de como demorávamos para saber o que acontecia, tanto dentro como fora do país, por causa da censura… E as paredes do banheiro tinham mais essa função: reportar o que a censura de Estado nos vetava. E eu lembro que as notícias mais confiáveis sobre a guerrilha do Araguaia que recebemos
naquela época, foram breves frases no banheiro da FeFeLeCHe.

Agora eu escrevo assim: “assassinada pelas forças daquela ditadura”, mas naquela época, a gente se calava de medo… Uma moça jovem que queria escolher seu rumo, pensar por si mesma… Disseram que cercada pela polícia, ela se matou para não ser presa e torturada, como aconteceu com outra moça de 17 anos, a Nilda Carvalho Cunha, que foi presa nessa mesma ocasião, e que morreu depois de dois meses de bárbara tortura. Mas ninguém podia falar, e as notícias eram somente as que convinham. Lá na Psico, seu suicídio nos soava inverossímil… Foi muito difícil porque nossa colega Iara, e mesmo sua morte, eram ostensivamente difamadas, e a última coisa de que se podia tratar era como ela morreu… quem a matou…

– Deu pra você ver os monstros asquerosos e pavorosos que nos rodeavam?!

O Centro Acadêmico se chamava apenas “da Psico”, ou melhor, “Centrinho”, e era dos poucos Centros Estudantis independentes que não havia sido fechado em 1968. Tínhamos como certo que isso aconteceu apenas porque o curso de Psicologia era muito pequeno, e assim escapara da truculência da ditadura de 64 contra os estudantes do Brasil. Hoje, leva o nome da Iara Iavelberg.

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Quando eu enviava cartas para minha família (Sim, era uma época em que até ligações telefônicas tinham um preço alto e eram difíceis de realizar, e a internet simplesmente não existia), eu as enviava às segundas-feiras pela Agência Pública do Correio que havia ao lado da Biologia, porque era quando havia aulas daquela ciência para a nossa turma da Psico. E as cartas endereçadas para casa foram respondidas umas poucas vezes por meu pai, que as postou em uma Agência do Correio na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, onde ele era professor.

Eu recebi nossas cartas ostensivamente abertas e lacradas com a identificação do DOI-CODI e soube nas férias que minha família recebeu igualmente cartas violadas. Sem nada saber de política nesse momento, fui tomada por um sentimento de indignação, pelo inapelável desrespeito desse governo.

– E agora, você também percebe as terríveis sombras nos rodeando?!

Nessa época, eu não sabia… Mas meu pai foi um dos professores que o reitor-interventor da UFPB listou para o comando do Exército local, em um famigerado Ofício de subserviência, onde constavam nomes de funcionários e professores punidos. E meu pai foi apenas um professor dedicado que acreditava que para ser um educador, deveria dar o exemplo que conseguisse. Um cidadão normal e pensante, não era sequer filiado a uma organização política.

Meus pais nada contaram… Penso que assombrados, eles quisessem dilatar um pouco certo espaço para seus filhos, em relação ao enorme monstro que assolava o Brasil.

– Você ouve, como nós ouvimos, o ranger das fauces arreganhadas? E sente faltar o ar quando os monstros sacodem nosso pescoço, e dos nossos entes mais queridos?!!

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Só descobri esse Ofício em 2011, porque foi onde encontrei o nome de meu pai corretamente escrito, já que na Reparação que a UFPB fez depois, eles grafaram seu nome errado, e não procuraram saber quem era ou onde estava uma das pessoas pela qual a Reparação fora realizada.

Então quero relembrar esse passado cheio de fantasmas e de monstros que doem… Que ainda pesam e nos arrastam e embaraçam no presente com sua frequência bestial e incompreensível.
Foi uma época de medos… Pesou sobre todos, o terror que só pudéssemos pensar e fazer o permitido por alguns poucos no poder. E o refrão propagado de “Prá frente Brasil!”, ou “Ame-o ou deixe-o!”, foi quando o Brasil inteiro estava ameaçado, e reagíamos apenas a todo esse medo… E até hoje, apesar do tanto conquistado em torno do Movimento pelas Diretas e toda construção popular da Constituição de 1988, permanece a lógica central e inconteste de lucrar a qualquer custo. Ou seja, consideramos normal pisar e ser pisado, se for para ganhar vantagem. Então os mesmos monstros se mantêm vivos. E nos acuam.

O único a fazer, é enfrentar o nosso pavor… E atravessar! E avançar para além deles, para um lugar onde as pessoas e as relações é que valham. É o que me moveu a escrever.

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