Livro retrata a história de catadores do Projeto Eco-Eletro

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Entre 2011 e 2015, mais de 260 catadores de material reciclável ligados a cooperativas foram capacitados para a reciclagem segura e rentável de computadores. Esta experiência, conhecida como Projeto Eco Eletro, acaba de ser reunida no livro O Catador Eletrônico, com lançamento previsto para 18 de novembro, às 19 horas, na Casas das Rosas (Avenida Paulista, 37, Cerqueira Cesar, São Paulo). O projeto foi realizado numa parceria entre o Laboratório de Sustentabilidade (LASSU) da Escola Politécnica (Poli) da USP, coordenado pela professora Tereza Cristina Carvalho, e o Instituto GEA Ética e Meio Ambiente.

Na primeira fase do projeto, em 2011 e 2012, foram treinados 182 catadores. Em 2014 e 2015, uma nova fase do projeto teve como foco ensinar a remanufatura de computadores. Ainda, em 2015, os pesquisadores decidiram levar a experiência para outras cidades do Brasil e realizaram a capacitação de pessoas interessadas em ministrar o curso para catadores em várias cidades como Recife (Pernambuco) e Joinville (Santa Catarina) Belo Horizonte (Minas Gerais), e Novo Hamburgo (Rio Grande do Sul).
Essa capacitação para ensinar como treinar os catadores foi realizada em parceria com Organizações Não Governamentais (ONGs) e Universidades dessas localidades.

O livro conta a história do projeto por meio de entrevistas com alguns catadores que passaram pelo curso, além de professores e também dos organizadores. “Foi a minha primeira experiência como professor e, além de tudo o que eu aprendi na vivência com os catadores, pude também quebrar alguns preconceitos”, conta Walter Akio Goya. “Nas primeiras turmas, a gente percebia um perfil comum de aluno: muitos com baixa auto-estima, e que interrompiam e atrapalhavam a aula. Porém, certa vez, assistindo a uma aula da pós-graduação em um dos MBAs oferecidos pelo LASSU, pude encontrar alunos com comportamentos e atitudes semelhantes”, revela.

Uma outra surpresa — e positiva — foi quanto à baixa escolaridade dos catadores. “No curso de remanufatura, achávamos, inicialmente, que teríamos muita dificuldade de ensiná-los como fazer a montagem e manutenção dos equipamentos. Mas constatamos que eles tinham sim capacidade. Porém, não tiveram muitas oportunidades para estudar e de ter um diploma”, relata.

O livro busca retratar o universo desses catadores. Os textos são do jornalista e escritor Fernando Portela. “A ideia é distribuir gratuitamente, como forma de divulgar o projeto”, conta Akio. Segundo ele, a edição é bilíngue (português/inglês) permitindo que pesquisadores estrangeiros que mantêm pesquisas conjuntas com o LASSU, como os do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, e de outras universidades do exterior, possam apreciar a obra e conhecer o projeto. “Nós quisemos fazer um livro bem bonito visualmente, então a obra é repleta de imagens, com fotografias de Roberto Lajolo.”

Experiência positiva

Para Ana Maria Domingues Luz, do Instituto GEA Ética e Meio Ambiente, o projeto comprova que é possível repassar conhecimentos mais complexos para esta população, como desmontar corretamente equipamentos eletrônicos. “Um conhecimento mais abstrato, gerado na USP, foi passado para essas pessoas, sendo que muitas delas são analfabetas”, comemora.

De acordo com ela, a grande prova de que o projeto deu certo ocorreu recentemente, quando um grande banco público brasileiro procurou o LASSU pois precisava dar uma destinação final adequada a equipamentos eletrônicos, conta.

Por meio do acompanhamento técnico tanto do LASSU como do Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (CEDIR) da USP e a participação de sete cooperativas que participaram do Projeto Eco-Eletro (em São Paulo, Recife, Salvador e Brasília), foi possível encaminhar corretamente cerca de 17 mil equipamentos eletrônicos (como monitores, teclados, CPUs, mouses, fios, máquinas de cartão, etc). “As cooperativas processaram esses equipamentos corretamente e entregaram ao Banco a certificação da destinação final”, comemora.

Sobre o projeto

O projeto surgiu como uma oportunidade de inserir os catadores de material reciclável em um mercado de trabalho mais rentável e seguro. Rentável pois a desmontagem correta de computadores que não servem mais e a posterior venda das peças devidamente separadas para indústrias de reciclagem é muito mais rentável do que vender o computador inteiro, como sucata. E a segurança está ligada ao fato de equipamentos eletrônicos terem, em sua composição, elementos químicos tóxicos como chumbo, mercúrio, cromo e cádmio, entre outros. A desmontagem incorreta, bem como a destinação final inadequada, trazem riscos à saúde humana e ao meio ambiente.

Outro ponto importante do projeto é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), cujo texto cita, em vários momentos, o papel essencial dos catadores e das cooperativas na logística reversa de eletroeletrônicos (procedimento onde esses produtos serão devolvidos pelos consumidores ou as fabricantes ou aos importadores ou aos comerciantes para que tenham uma destinação final adequada).

No lançamento, haverá noite de autógrafos, exposição de fotos, performance dos catadores, e apresentação musical com o grupo Bando da Rua.

Mais informações: email akio.goya@institutogea.org.br, com Walter Akio Goya; (11) 3091-1092, email lassu@usp.br, no LASSU, ou (11) 3058-1088, email institutogea@uol.com.br, no Instituto GEA

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