Foto: Geraldo Lima

USP traz cientista que desvendou sistema imunológico para palestra em São Paulo

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Com o auditório do Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, repleto de médicos, pesquisadores e estudantes de medicina, o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2011, o médico americano Bruce Beutler, ministrou na terça-feira passada, dia 27 de outubro, a conferência “Desconstruindo o Sistema Imunológico Através de Mutagênese Germinativa Aleatória”.

Foto: Geraldo Lima
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A conferência foi uma iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP em parceria com o Nobel Media e a farmacêutica Astra Zeneca. Nela, Beutler contou que, a partir da descoberta do imunologista canadense Ralph Steinman – também ganhador do Prêmio Nobel de 2011 e falecido antes da entrega do prêmio – sobre a compreensão do sistema imunológico adaptativo, foi possível entender como o sistema imunológico detecta uma infecção.

O trabalho de pesquisa de Beutler baseou-se numa técnica aperfeiçoada por ele e sua equipe quando tentavam perceber como é que certos tipos de toxinas de origem bacteriana, chamadas lipopolisacarídeos (LPS), conseguem produzir uma síndrome potencialmente letal para os doentes, chamada choque séptico. Para isso, procuravam os receptores dos LPS na superfície das células imunitárias de ratos – verdadeiras “antenas moleculares”, conforme destacou Beutler, capazes de se ligar aos LPS e desencadear uma resposta imunitária eventualmente excessiva e mortal.

Foi assim que ele descobriu que os ratos resistentes aos LPS – ou seja, aqueles que não desenvolviam choque tóxico – tinham uma mutação num gene muito parecida com o gene toll das moscas-do-vinagre, estudadas pelo pesquisador francês Jules Hoffmann, também ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2011.

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Butler realizou um amplo mapeamento genético da imunidade inata – uma das linhas de defesa do organismo. As doenças infecciosas, inicialmente, precisam ser reconhecidas pelo sistema imunológico para que este possa montar uma resposta de defesa e ataque às infecções. Beutler mostrou como se dá o reconhecimento imediato do sistema imunológico às doenças infecciosas. “Entender como se processa a resposta imediata é essencial para entender a resposta adaptativa do sistema imunológico. As vacinas dependem das respostas das chamadas imunidades adaptativas, e estas têm que ser dadas num contexto de um sinal inicial, chamado inato. Beutler sinalizou isso”, explica o médico Flavio Alcantara, do Laboratório de Biologia Molecular do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), presente na conferência de Butler. Ele ressalta que a descoberta do cientista americano abriu caminho para mapear as moléculas que reconhecem os organismos de maneira imediata na resposta imune inata para doenças infecciosas.

Defesa

Foto: Geraldo Lima
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As descobertas de Beutler que lhe renderam o Nobel ajudam a compreender o funcionamento do sistema imunológico inato, aquele que nasce com o indivíduo. O sistema imunitário possui duas linhas de defesa. A primeira é a imunidade inata, que ao ativar-se em presença de um micro-organismo potencialmente patogênico consegue destruí-lo rapidamente. Os seus principais protagonistas são células chamadas fagócitos, que literalmente “devoram” os intrusos.

A segunda linha de defesa é a da imunidade adaptativa, que é ativada quando um vírus, bactéria, fungo ou parasita patogênico consegue ultrapassar a primeira barreira. Os seus atores principais sãos linfócitos B e T, que respectivamente produzem anticorpos e causam a multiplicação de células “assassinas” para destruir as células infectadas.

Segundo Alcantara, a descoberta de Beutler abriu caminho para mapear as moléculas que reconhecem os organismos de maneira imediata na resposta imune inata para doenças infecciosas. “Essa descoberta abre caminho para a prevenção e para novos tratamentos de infecções e doenças inflamatórias.”

Maria Izabel Leão / Jornal da USP

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