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Crise da água reflete também uma crise de informações, analisam especialistas

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Organizadores de evento sobre gestão de recursos hídricos, que será realizado nesta semana na USP, criticam a falta de transparência na governança da água em São Paulo

Existe um cerceamento das informações sobre a situação dos recursos hídricos na cidade de São Paulo. É o que afirma o professor Pedro Jacobi, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam) da USP e um dos organizadores do 5º Encontro Internacional da Governança da Água (GovÁgua), que será promovido nesta semana pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP.

Para Jacobi, os órgãos públicos responsáveis pela governança da água não são transparentes. “Isso faz com que a sociedade desacredite cada vez mais o poder público”, diz o professor. “Quanto mais transparentes forem as informações, mais a confiança da sociedade aumentará.” O que Pedro Jacobi diz parece estar de acordo com recente pesquisa do Datafolha, publicada no jornal Folha de S. Paulo, que detectou que 48% dos paulistanos reprovam o governo de Geraldo Alckmin no que se refere à gestão dos recursos hídricos.

Jacobi sugere que haja mais diálogo, transparência das ações e das informações e o que ele chama de “corresponsabilização”, pois acredita que todos – poder público e população – são responsáveis pela gestão ambiental. “O cidadão deve ser responsável pelo uso da água, da terra, dos recursos que o planeta fornece, e para isso a mudança de hábitos é fundamental”, diz Jacobi. “Não devemos mais ser dependentes da tutela do governo. No entanto, não podemos apenas culpar o cidadão pelo mau uso da água, porque ele nunca foi bem informado e preparado para essa situação.”

Não podemos apenas culpar o cidadão pelo mau uso da água, porque ele nunca foi bem informado e preparado para essa situação. – Pedro Jacobi

Jacobi alerta também para o fato de que a escassez da água afeta a população de forma desigual. Em São Paulo, diz, as pessoas que moram em bairros pobres sofrem mais com a falta de água do que as que moram em bairros melhores. “Essa problemática pode causar um nível de descontrole social nas pessoas, por não conseguirem organizar sua vida devido à escassez da água, gerando um grande conflito social.”

 

Foto: Marcos Santos
Foto: Marcos Santos

O professor defende que a defesa civil esteja melhor preparada para enfrentar possíveis situações de agravamento da escassez hídrica, levando a população a ser tornar agressiva, como já ocorreu em Itu, no ano passado. Ao poder público, segundo Jacobi, cabe desenvolver ações preventivas e permanentes, reduzindo o desperdício de água no processo de distribuição e exigindo que as indústrias usem racionalmente o líquido. Já o dever da população é mudar seus hábitos de consumo de água, que deve ser uma atitude permanente e não somente em situações de crise. “Temos que desenvolver essa disciplina do uso racional da água na população, assim como ensinar também a não deteriorar as áreas verdes, a não aumentar a emissão de carbono etc.”, destaca Jabobi. “Não podemos mais tratar o tema dos recursos hídricos como um assunto tangencial, e somente quando estamos em crise. Os investimentos não podem ser de curto prazo. Há que se fazer ajustes para evitar situações mais graves.”

Falta de água: uma das maiores preocupações da população hoje. Foto: Marcos Santos

Escassez: para especialistas, falta de transparência agrava a crise hídrica. Foto: Divulgação/Cesan

Instabilidade

A professora Ana Paula Fracalanza, do curso de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e também organizadora do 5º GovÁgua, concorda com Jacobi no que diz respeito à falta de transparência do poder público. Ela chega a atribuir a crise hídrica não somente à falta de chuvas, mas também à falta de transparência na gestão da água em São Paulo. Ana Paula afirma que é responsabilidade do Estado agir com transparência na gestão da água, avisando a população, por exemplo, sobre como serão os processos de racionamento, a fim de que ela possa se programar e se precaver, estabelecendo uma nova rotina. “O grande problema para a população é não saber como e quando agir. Tem uma parte da população que não recebe água e outra que recebe. Isso gera instabilidade. A transparência é fundamental”, afirma Ana Paula, que também é vice-coordenadora do Procam.

Ana Paula lembra que a crise hídrica foi anunciada em 2004, quando houve a renovação da outorga de direito do uso das águas dos reservatórios que compõem o Sistema Cantareira, então já com apenas 20% da sua capacidade. “Naquela época, ficou estabelecido que até 2014 se buscariam fontes alternativas e foram desenvolvidos planos de contingência para a Sabesp. Passaram-se dez anos e a crise chegou. O que foi feito?”, questiona a professora.

Passaram-se dez anos e a crise chegou. O que foi feito? – Ana Paula Fracalanza

Com a crise hídrica, a população de baixa renda é a que mais tem sofrido com o desabastecimento, acrescenta, e classifica essa situação como uma “injustiça hídrica”. “Podem haver a privatização e a mercantilização da água. Enquanto a água deveria ser oferecida à população como um bem público, ela agora passa a ser comprada engarrafada.”

A sugestão de Ana Paula é que a população reivindique os dados sobre a gestão da água. “De acordo com a Lei de Acesso à Informação, todos temos direito a saber o que anda acontecendo com a governança da água em nosso país.”

Foto: Divulgação
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Extremos

O professor Tercio Ambrizzi, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, lembra que hoje o planeta vive um período de extremos. “Muitos falam da crise hídrica em função das chuvas abaixo da média nestes últimos anos, mas não podemos nos esquecer do aumento da temperatura. Isso tudo faz com que a atmosfera reaja de forma extrema para compensar esse desequilíbrio. São períodos de seca extrema e outros de chuvas intensas”, diz Ambrizzi, membro da comissão organizadora do 5º GovÁgua.

Para Ambrizzi, a ocorrência de fatos extremos é consequência do aumento da temperatura média global. “Se o poder público tivesse prestado atenção aos sinais que os cientistas apontam há tempos em seus relatórios e palestras, talvez tivesse se preparado melhor para esses eventos extremos. Agora precisa fazer obras emergenciais.”

Se o poder público tivesse prestado atenção aos sinais que os cientistas apontam há tempos em seus relatórios e palestras, talvez tivesse se preparado melhor para esses eventos extremos. – Tercio Ambrizzi

A crise hídrica, segundo Ambrizzi, não se deve apenas à escassez de chuva, mas também ao aumento populacional nas grandes cidades, principalmente em São Paulo. “Daqui a 30 ou 40 anos, estudos indicam que seremos 80% vivendo nas cidades; urge que seja feito algo para resolver o uso adequado da água”, ressalta.

Ambrizzi acredita que é preciso educar a população e incentivar a indústria para o uso mais eficiente da água, além de estimular a utilização de energias sustentáveis. “Por exemplo, o governo poderia estimular as indústrias a produzir painéis de energia elétrica de forma mais barata, para que toda a população tivesse acesso a essa tecnologia. É esse tipo de ação que precisa ser feito com urgência.”

O 5º Encontro Internacional da Governança da Água (GovÁgua) será realizado de terça-feira, dia 10, até sexta, dia 13, a partir das 9h, no auditório do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP (rua do Matão, 1.226, Cidade Universitária, São Paulo). A promoção é do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP. A programação completa do evento está na página eletrônica www.iee.usp.br. Inscrições e mais informações podem ser obtidas pelo e-mail comunicacao@iee.usp.br.

Izabel Leão e Roberto C. G. Castro / Jornal da USP

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