Estudo com ratos ajuda a entender respostas instintivas do cérebro humano

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Danilo Bueno, especial para o USP Online

“Você é um homem ou um rato?” O contexto em que essa frase é usada geralmente é depreciativo para quem a escuta – afinal, aparentemente, as diferenças entre ratos e seres humanos são imensas. O que faz, então, com que estes animais sejam usados nas pesquisas científicas, colaborando tanto com o conhecimento sobre o nosso próprio corpo?

“Apesar das diferenças, homens e ratos têm em comum, entre outras coisas, as mesmas necessidades básicas que permitem a continuidade da espécie, por isso o mecanismo cerebral que comanda estes comportamentos são muito parecidos”, explica a professora Luciane Valéria Sita, do Laboratório de Neuroanatomia Química, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. De acordo com ela, esta é uma das muitas vantagens em se estudar o organismo destes animais.

É com base nessa semelhança que os cientistas buscam entender as respostas do cérebro humano e de animais a alguns tipos de estímulos, como é o caso do Hormônio Concentrador de Melanina (MCH, na sigla em inglês). O MCH atua na estimulação de circuitos neurais, sendo produzido principalmente no hipotálamo, que é a parte do cérebro que comanda ingestão de alimentos, reprodução, defesa materna e outros comportamentos indispensáveis para a sobrevivência.

Estudos anteriores já haviam indicado que este neuropeptídeo estava relacionado com o aumento da massa corporal, atuando na parte do cérebro responsável pela nossa sensação de saciedade. A contribuição dos pesquisadores do laboratório da USP foi mostrar que a influência deste hormônio é bem mais ampla do que se imaginava.

O grupo passou então a pesquisar a relação entre o hormônio e o ciclo reprodutivo das fêmeas de ratos, pois sabia-se que a taxa de gordura corporal tem interferência na liberação dos óvulos. Assim como acontece com jovens atletas de alto nível, que têm seus ciclos menstruais alterados ou mesmo interrompidos pelo excesso de atividade física, as ratas submetidas a exercícios excessivos mostraram os mesmos sintomas, acompanhados por uma alteração bastante evidente na produção de MCH.

Paralelamente, o professor Jackson Cioni Bittencourt coordena no mesmo laboratório uma pesquisa que analisava a influência do MCH na lactação. É conhecido que o nível deste hormônio aumentava drasticamente na fêmea no período em que os filhotes começavam a ser desmamados. Isso levantou a hipótese de que o neuropeptídeo estaria também ligado ao fim da lactação. “Nós conhecemos bem os mecanismos que fazem com que se inicie o período de lactação, mas até hoje não se sabe exatamente o que faz com que esse processo seja interrompido”, afirma Luciane.

A possibilidade de desvendar mais este mistério sobre a morfologia dos mamíferos animou a equipe do laboratório, que se empenhou ainda mais na análise da quantidade de hormônio em cada fase do desenvolvimento dos animais. “Nossa preocupação é sempre entender como é que o cérebro faz isso. Como ele organiza as respostas”, declara.

Imprevisíveis

Diferente dos seres humanos, que por terem um cérebro mais complexo sofrem interferências externas que ultrapassam a barreira da pura biologia, os animais utilizados em laboratório são mais previsíveis por seguirem sempre os instintos básicos. A pesquisadora explica que mulheres sofrem pressões psicológicas e sociais, e por isso têm uma variação muito grande em alguns processos metabólicos, enquanto que o período de lactação das ratas dura sempre 21 dias.

“Se colocamos juntos na mesma gaiola um casal de ratos, podemos ter certeza de que vão copular. Podemos contar com este resultado”, afirma a pesquisadora, que ressalta a importância da previsibilidade de alguns fatores para a condução das experiências.

Por isso, apesar de se saber que o MCH tem influência semelhante nos seres humanos, é difícil definir com certeza o papel dele no período de lactação ou nos quilinhos a mais que ganhamos de vez em quando. “Com os nossos hábitos alimentares tão irregulares, não é possível medir o quanto a presença deste hormônio colaborou para o aumento ou a perda de peso”, afirma Luciane.

Outros animais

A escolha das cobaias usadas nas pesquisas leva em conta não somente questões científicas, mas também econômicas e logísticas. O laboratório utiliza outros animais como os camundongos, que por serem menores têm custos de manutenção mais em conta. Essa característica acaba facilitando a manipulação genética, que exige um grande número de animais para isolar, por exemplo, uma linhagem que não produz MCH.

Já outros animais, como os macacos-prego são bem menos utilizados em razão das restrições impostas pelo Ibama, que acabam encarecendo o custo das pesquisas. Outro fator limitante é o tamanho dos animais, o que exige uma maior logística para a conservação dos tecidos estudados.

Entre as principais vantagens de se trabalhar com os ratos, que são os animais mais usados nos laboratórios do mundo, está o profundo conhecimento científico sobre sua morfologia. Luciane aponta, no entanto, uma mudança no sentido de utilização cada vez maior dos camundongos, pelo seu baixo custo. “Principalmente nos Estados Unidos, percebe-se que está havendo uma migração, que implica em um conhecimento cada vez maior e, consequentemente, uma maior utilização deste tipo de cobaia nas pesquisas brasileiras.”

Ciência Básica

De acordo com a pesquisadora, já houve tentativas de se utilizar o MCH em remédios para controle da obesidade, no entanto estas iniciativas falharam. “Nossa contribuição é mostrar que esse hormônio talvez tenha um papel importante não apenas na ingestão, mas também na busca por alimento.”

Luciane afirma que o principal objetivo da equipe é ampliar o conhecimento a respeito do papel das substâncias neuroativas no controle de comportamentos e que, apesar de não ter como objetivo principal a descoberta de um novo fármaco, pode ser que outros pesquisadores utilizem esses dados para uma aplicação mais específica. “Ciência é assim: cada um faz um pedacinho e aos poucos nós vamos completando o quebra-cabeça”.

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