Giorgio Moscati e Waldemar Cordeiro: quando o computador encontrou a Arte

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Giorgio Moscati nasceu na semana em que a USP foi criada. Aos quatro anos, ele veio de Gênova, na Itália, para o Brasil. Aqui, se formou em engenharia pela Escola Politécnica e em Física pela extinta Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, ambas  da USP, universidade em que seria docente até 1998. Após mais de 50 anos de uma agitada carreira acadêmica e profissional, Moscati retornou ao Instituto de Física (IF) no último dia 18 para contar a história de um trabalho inovador, desenvolvido entre 1968 e 1970 com o artista plástico Waldemar Cordeiro.

O projeto, considerado pioneiro na área de processamento de texto e imagem, teve grande impacto entre os artistas da época. Ao evidenciar as bordas de uma imagem, a técnica desenvolvida pela colaboração entre o artista e o cientista foi antecessora das que são atualmente utilizadas na televisão e no cinema, assim como no campo da medicina.

Falecido prematuramente em 1973, Waldemar Cordeiro era um especialista em arte concreta. “Ele me procurou porque identificava o computador como um instrumento de armazenamento, reprodução e divulgação de arte”, conta Giorgio. “Não havia no computador [naquela época] espaço para jogos e mídias como hoje em dia”, reflete ao destacar a visão à frente de seu tempo que Waldemar manifestou.

O trabalho de Moscati já envolvia a extração de informação de imagens, e com isso é possível entender por que o Cordeiro o havia procurado para auxiliar a produção de obras de arte. “Minhas experiências, envolvendo traços de partículas e outros estudos, já criavam imagens”, reflete.

E foi assim que juntos, ambos exploraram possibilidades sobre como transformariam o computador num instrumento de produção artística. Em geral, os dois avaliavam que o que era feito na época não estava à altura do potencial revolucionário do computador. “O que os outros artistas faziam era algo muito trivial, não era significativo”, opina o físico antes de relatar como surgiu a ideia para o primeiro de seus dois projetos.

Palavras ao acaso

No início era a linguagem. Mais especificamente, a língua portuguesa. Ambos constataram que o idioma era uma língua fonética, e dessa inspiração aparentemente simples, surgiu o “BEABÁ”, um gerador de pseudo-palavras que soariam como o português.

A forma mais direta de gerar “palavras ao acaso” seria sortear conjuntos de letras de vários comprimentos. “Cheguei a pegar uma régua e medir o comprimento de palavras no dicionário”, conta ele. Os conjuntos gerados aleatoriamente, a partir de combinações que alternariam vogais e consoantes, teriam pouca semelhança com palavras de uma língua, no entanto, por acaso algumas das tais palavras geradas poderiam existir.

Uma vez criado o programa que poderia combinar pares de vogais e consoantes, era impresso um cartão, não muito diferente dos cartões perfurados, que eram o meio de incluir dados e comandos nas primeiras máquinas computadorizadas. Em 1986, em uma exposição no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, um microcomputador foi programado para reproduzir o “BEABÁ”. Cada visitante podia levar para casa uma folha pessoal, com palavras geradas pelo programa, considerado pioneiro na área da poesia digital e do processamento de palavras.

Quando a dupla avançou para imagens, era consenso que queriam objetos que possuíssem maior apelo emocional – em detrimento do que se normalmente fazia quando se produziam imagens em computador. A ideia era escrever um programa capaz de fazer uma “derivada” da imagem.

Moscati explica que “na prática, o programa que ‘deriva’ a imagem faz simplesmente uma operação aritmética que compara os graus de preto de um pixel com o grau de preto dos seus vizinhos”.

O primeiro passo foi selecionar a imagem, um anúncio do Dia dos Namorados. Em seguida, era preciso digitalizá-la, escrever o programa que a transformaria e finalmente executá-lo. Foram várias as composições resultantes. Tornou-se importante notar como as bordas dos resultados geravam diferentes contrastes e profundidades. “Só muito mais tarde nosso trabalho foi considerado inovador no processamento de imagem e detecção de bordas”, afirma o professor.

Reconhecimento

Em 1993, os resultados da arte criada no final dos anos 1960 foram apresentados em uma reunião do Simpósio Brasileiro de Computação Gráfica e Processamento de Imagens, recebendo o devido reconhecimento.

Convidado a se apresentar na Bienal de Artes de São Paulo neste ano, Giorgio Moscati aproveitou não somente para relatar sua experiência no campo das artes digitais, como também para incentivar demais físicos a irem além da pesquisa. Para ele, a maleabilidade da formação dos físicos – que os conduz a pensar em soluções para diferentes problemas – os capacita a trabalharem em virtualmente qualquer campo de atuação, inclusive com arte.

Reforçando que devem ser valorizados todos os profissionais da física, dos que trabalham com pesquisa pura até os professores que formam jovens nas escolas, Giorgio pondera que “às vezes, a solução para problemas pode não estar no próximo degrau, mas numa outra escada”.

Mais informações: email moscati@uol.com.br, com Giorgio Moscati

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