Um cara livre

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Deputado estadual pelo PT (Partido dos Trabalhadores), 64 anos em 2013, Adriano Diogo em 1970 era o Mug, aluno do segundo ano de Geologia da USP e agitador cultural no campus, onde montava peças com base no processo do teatro-jornal de Augusto Boal. Foi como veterano que, naquele ano, Mug recepcionou o calouro Minhoca. “Ele era um cara do interior, livre, completamente diferente de nós, urbanos”, conta. “Nas saídas de campo, ele tinha uma relação com a natureza, os pássaros, os rios, que nós não tínhamos.” O Minhoca era também, descreve, rigoroso nos hábitos e muito contido do ponto de vista do consumo.

Logo Mug viu que o Minhoca era dono de uma cultura e uma capacidade diferenciadas (“ele lia coisas que só muito mais tarde nós fomos conhecer”, diz). Por isso, foi convidado a ajudar na redação de uma peça denunciando o absurdo da Transamazônica, um dos projetos do “Brasil grande” que a ditadura alimentava. Assessorada pelo professor Aziz Ab’Sáber e com a ajuda de outros colegas, a dupla mergulhou no trabalho e produziu A transa amazônica. “Era um trabalho dificílimo, e ele pesquisou tudo sobre os índios, as populações ribeirinhas, os castanheiros, os seringueiros, os solos”, lembra Mug. Minhoca estava apenas no primeiro ano – e “pesquisar”, na época, significava muito mais do que dar uns cliques no Google.

“Alexandre fazia seu curso com uma dedicação exemplar. Aprendia geologia e exercitava-se na tarefa sublime de pensar em dias melhores para o seu país e o seu povo”, escreveu Aziz Ab’Sáber (1924-2012), professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em texto de março de 1998, aos 25 anos da morte do estudante.

“Esse era o Alexandre Vannucchi Leme”, diz, 40 anos depois daquele 1973, voz embargada e fala interrompida pelas lágrimas, um emocionado Adriano Diogo a uma plateia de estudantes da USP, vários deles exibindo um corte de cabelo a denunciar sua condição de calouros.

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