Projeto do IPq estuda tratamento para TOC em crianças e adolescentes

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Pesquisadores do IPq desenvolveram, em conjunto com a Universidade de Pernambuco, um estudo clínico para responder a questões importantes sobre a segurança, eficácia e sequência de tratamentos para o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). O estudo leva o nome de Smart (do inglês Sequential Multiple Assignment Randomized Trial – SMART).

O TOC é um transtorno psiquiátrico, na maioria das vezes crônico, caracterizado pela ocorrência de pensamentos ou imagens obsessivos e atos repetitivos, que são praticados como compulsões. Esses rituais são obedecidos geralmente com o objetivo de diminuir o desconforto ou a ansiedade que toma conta da pessoa. Os sintomas, quando caracterizam TOC, causam sofrimento ao portador e interferem no seu convívio com familiares e colegas, além de alterar significativamente sua rotina. A doença afeta aproximadamente 2% da população e freqüentemente tem seu início na infância ou adolescência.”

Durante muito tempo o TOC era conhecido como ‘doença do segredo’, porque entre o início dos sintomas e a busca pelo serviço de saúde passavam-se anos. Crianças e os adolescentes muitas vezes percebem esse comportamento sintomático como inadequado, estranho, e, mesmo não conseguindo controlar, tentam disfarça-los enquanto dá. “Quando os pais percebem, a doença já evoluiu”, afirma Rosa Magaly Morais, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) e uma das participantes do estudo.

O Estudo Smart

O Smart está inserido em um projeto do Instituto Nacional de Psquiatria do Desenvolvimento (INDP), que foi criado em 2008 e tinha como proposta principal a prevenção. “Como a prevenção em saúde mental e a detecção precoce transtornos mentais da infância e adolescência ainda não são uma realidade, foi decidido que dentro do INPD haveriam projetos ligados à intervenção precoce e pelo menos um projeto piloto de intervenção em crianças e adolescentes com o transtorno instalado que funcionasse como modelo para outros transtornos da infância e adolescência. Como nós do IPq já tínhamos experiência prévia com o TOC, ele foi escolhido para ser o primeiro modelo de projeto de tratamento”, explica Roseli Gedanke Shavitt, psiquiatra do IPq e responsável pelo Estudo.

O estudo pretende desenvolver estratégias para o tratamento de crianças e adolescentes com idade entre 6 anos e seis meses e 17 anos e quatro meses. Para isso, será usado um modelo de tratamento sequencial randomizado, que tem como base dois tratamentos já consagrados: a terapia cognitiva-comportamental (tcc) ou um medicamento chamado fluoxetina.

O Smart está dividido em duas fases, com duração de 14 semanas: depois de selecionado, o paciente é direcionado, aleatoriamente, para um dos tratamentos: tcc ou medicação. Quem for selecionado para a terapia cognitiva-comportamental passará a frequentar sessões semanais de terapia em grupo que utiliza diferentes estratégias para que, gradualmente, o paciente possa se expor às situações que provocam ansiedade sem precisar realizar rituais para alívio dela. A outra possibilidade é do paciente ser direcionado para tratamento com medicamento. “Aqui no Smart será utilizada a fluoxetina, um antidepressivo que já está há mais de 20 anos no mercado, com segurança e eficácia para o tratamento do TOC comprovada por vários estudos”, explica Morais. A medicação é administrada em gotas, o que permite início de tratamento com doses pequenas e aumento gradual caso haja necessidade. Todos pacientes são acompanhados semanalmente.

Ao final dessas primeiras 14 semanas, é feita uma avaliação da resposta. Quem respondeu bem ao tratamento inicial permanece nele e quem não respondeu é novamente randomizado, ou para somar o outro tratamento, ou para trocar de tratamento. Essa segunda fase dura mais 14 semanas. “É preciso que os pais, quando optam ao inscrever a criança no Smart, tenham disponibilidade de tempo, porque as consultas são semanais, e aceitem que a criança possa ser submetida a qualquer um dos tratamentos. Quem é contra um dos dois nem deve se inscrever”, salienta Shavitt.

Expectativas

As pesquisadoras esperam obter muitas respostas com o Smart. “Em um país com pouco recurso, um estudo desse tipo pode ser capaz de responder qual dos dois tratamentos é mais eficiente e merece maior investimento. Além disso, gostaríamos de saber se uma opção ou outra, a terapia em grupo ou o medicamento, apresenta melhor evolução a médio prazo. A principal questão é essa: comparar as sequências de tratamento e ver se a ordem dos tratamentos faz diferença. Isso pode embasar alguma política de tratamento em larga escala”, diz Shavitt.

As boas notícias não são apenas para as pesquisadoras. As crianças respondem muito bem aos tratamentos, até melhor e mais rápido que adultos, de acordo com Roseli Shavitt. “Ter o controle da doença auxilia o todo o desenvolvimento dessas crianças e nós já temos reparado que quanto mais precoce for a detecção e intervenção, melhor”, conclui

“Mesmo depois dessas 28 semanas de duração do Smart, temos uma proposta de um segundo projeto que acompanharia essas crianças por mais um ano. Assim, avaliaremos não só a resposta na fase aguda, mas como essas crianças e adolescentes continuaram respondendo ao tratamento a médio e longo prazo”, complementa Morais.

Serviço

Os interessados em participar devem entrar em contato pelos telefones (11)2661-6972 ou (11) 2661-7594 ou email smart.inpd@gmail.com, mencionando o interesse no projeto de tratamento de crianças com TOC e deixando telefone para retorno.

Haverá um pré-triagem telefônica e, caso o voluntário tenha o perfil exigido para participação, será agendada uma avaliação presencial. Essa avaliação consiste em entrevistas detalhadas para caracterizar não apenas o TOC, mas se existe outro problema relacionado. Além disso, serão avaliadas a gravidade e o tipo dos sintomas. Serão admitidos pacientes para o grupo de São Paulo até junho desse ano.

Mais informações:  (11) 2661-6972 / 2661-7594, email smart.inpd@gmail.com

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