Cantar ou falar em público exige cuidados e orientações, alerta professora da FORP

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Rita Stella e Marilia Caliari / Assessoria de Comunicação do Campus de  Ribeirão Preto

Quem canta nem sempre espanta seus males. Pelo menos é o que diz estudo realizado pela USP, em Ribeirão Preto, com 60 cantoras profissionais. A pesquisa revelou que o prazer de cantar pode não durar muito tempo se não for bem conduzido. A falta de orientação para o canto ou para falar em público, sem os cuidados com a voz ou as estruturas da face e pescoço (sistema estomatognático), pode comprometer a execução de atividades do dia-a-dia e até mesmo do próprio trabalho. E, ainda, após uma noite mal dormida, nem mesmo a voz escapa e o resultado pode ser a rouquidão.

O resultado dessa falta de cuidado e de orientação pode levar aos Distúrbios da Articulação Temporomandibular (DTM) e as cantoras estão num grupo que mais apresenta a DTM, doença que ataca os músculos e articulações da face e pescoço. Além de sofrer dores e desconfortos nessa região, elas dormem mal e, consequentemente, perdem qualidade de vida no exercício da  profissão.

A professora Andréa Cândido dos Reis, do Departamento de Materiais Dentários e Prótese da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da USP, que é coordenadora do trabalho, explica que a DTM é “uma patologia que pode ser desencadeada por hábitos repetitivos, estresses e pela má qualidade de sono. Estes, por sua vez, interferem na harmonia do sistema estomatognático (estrutura que possibilita a sucção, respiração, deglutição, mastigação e fala), gerando outras complicações”.

São conhecidos da literatura médica os fatos de que essas disfunções da articulação temporomandibular (ATM) prejudicam a qualidade de vida. Os trabalhos desenvolvidos em Ribeirão Preto mostram que esses distúrbios acometem também as pessoas que usam a voz profissionalmente, como os professores, os oradores e os cantores, além de identificar a relação entre o mau funcionamento da ATM e os distúrbios do sono, que causam ainda alterações da voz.

Tratamento precoce e multidisciplinar

A professora adianta que o diagnóstico e tratamento desses problemas devem ser precoces e realizados de forma multidisciplinar, principalmente quando se referem à profissão do cantor. Sabendo que as mulheres são as mais afetadas e para contribuir para a questão, a equipe coordenada pela professora Andrea decidiu avaliar o nível de qualidade de vida dessas profissionais, tendo como base os distúrbios do sono e as DTMs.

Auxiliada pelo professor Abel Rocha, do Departamento de Música da Unesp da Capital, e pela doutoranda da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Snijhana Dragham, a pesquisadora reuniu 60 cantoras de Ribeirão Preto e região. Com idade entre 16 e 76 anos, cantavam em média de duas a 30 horas semanais e exerciam a profissão de dois a 35 anos.

Os resultados mostraram que a maioria delas apresenta dores e alteração da voz. O estudo apontou que 53% sofrem com algum tipo de mau funcionamento das estruturas da face e mandíbula, o que pode levar a alterações da ATM, com deslocamento do disco articular e dor miofascial (músculos do ombro, pescoço e face). Segundo Andréa, esse último sintoma é o mais prejudicial para os cantores, que “relatam constante ingestão de medicamentos analgésicos para a continuidade de seu trabalho”. Ela alerta que o uso indiscriminado de remédio para dor nessas circunstâncias pode “mascarar os sintomas e piorar as lesões”.

A maioria dessas cantoras (86,6%) sentem dificuldades em abrir a boca, e 90% relatam problemas com os movimentos mandibulares. Elas referem ainda episódios de rouquidão, alterações na ressonância da voz, além de muitas queixas de dores. Com relação ao sono, a maioria diz não sofrer de insônia, porém relata alterações na voz ao acordar. Algumas dizem que precisam de mais horas de sono para que “a falta dele não interfira no desempenho em outras atividades do dia”.

Mais informações: email andreare73@yahoo.com.br,  com Andréa Cândido dos Reis

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