Artes e objetos africanos povoam acervo didático do MAE

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O acervo de arte afro-brasileira do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP possui cerca de mil peças – o que pode até ser considerado pouco, mas trata-se de“uma coleção muito bem pautada dentro de uma linha de pensamento, e muito representativa da área geográfica a que faz referência”, como ressalta a docente responsável pelo setor, Marta Heloísa Leuba Salum.

Tal orientação não consiste apenas na apresentação das peças ao público e na produção de artigos acadêmicos sobre essas culturas. O MAE possui uma ampla linha didática produzida em cima do seu Acervo de Etnologia Africana, procurando, com isso, criar uma relação entre os profissionais da educação e o Museu. O material tem a intenção de tornar o acervo tanto produto quanto objeto de pesquisas e atividades educativas, e traz uma série de sugestões de atividades voltadas aos alunos, que podem ser realizadas tanto na sala de aula quanto nas próprias exposições. 

O MAE terá um novo espaço no Parque dos Museus – obra em andamento que se localiza próxima ao portão 3 do campus Butantã da USP – e há iniciativas para a formação de uma nova exposição de longa duração prevista para antes da mudança, no início de 2014. Durante este período, o acervo continua disponível para consulta e pesquisa, de estudiosos e educadores, sob demanda.

Formação do acervo

Tem-se que os primeiros olhares dados às produções culturais africanas foram vieram de olhos colonizadores. As primeiras ações históricas que buscaram a cultura dos povos desse continente se expressaram no sentido da obtenção de conhecimento para facilitar a dominação. “Eles [os colonizadores] achavam que era um elemento de conhecimento possuir algumas peças para poder olhar melhor o outro e, assim, saber como dominá-lo. Mas a partir da década de 30, os grandes museus do ocidente já estavam interessados em formar os acervos para as grandes exposições universais”, informa a antróloga. Já no MAE, os primeiros documentos que demonstram um interesse pela formação de um acervo com peças africanas datam do final da década de 1960, e a primeira peça desse acervo tombada do museu, de 1971.

Dentre todos os personagens responsáveis pela idealização e organização do atual acervo de arte africana do MAE, destaca-se Marianno Carneiro da Cunha. Marianno era um arqueólogo especialista em Médio Oriente, e “um apaixonado pela cultura afro-brasileira”, relembra Heloísa. De acordo com a docnte, até então, nunca o campo da arqueologia afro-brasileira havia tido um especialista formado para esse setor específico. Marianno teria galgado essa formação por si só, indo então, no início dos anos 1970, ser leitor de peças na África – mais especificamente no Golfo do Benin -, onde ficou incumbido de comprar peças que integrariam o acervo do MAE.
Ao montar a coleção, Marianno enfatizou as relações da Nigéria e do Benin, que correspondem, grosso modo, aos povos Jeje e o Nagô, que qualificam a maior parte dos candomblés da Bahia. O arqueólogo também se preocupou em trazer objetos de outros locais, como da Costa do Marfim e de Mali – países esses que “mostram, dentro do campo da História da Arte da África, alguns centros estilísticos que se relacionam com estudos importantes sobre o continente”, comenta a antropóloga.

Em 1980, Marianno morre quando estavam chegando os últimos lotes da África. Assim, a coleção de peças africanas do MAE – que até então havia sido alimentada pelos esforços do arqueólogo e por doações da associação de amigos do museu (SAMAE) – passa a ter que ser catalogada sem Marianno. “Havia todo um trabalho a ser feito relacionado a documentação, cadastramento de peças, numeração, ajustes de classificação e uma série de outras coisas”, conta Heloísa. No entanto, Marianno havia deixado uma exposição praticamente já planejada.

A primeira montagem de uma exposição aconteceu também em 1980, pois, com a morte de Marianno, houve um empenho dos integrantes do MAE em finalizar a montagem iniciada pelo arqueólogo – montagem essa que já tinha praticamente todas as peças do acervo atual. “É como se o Marianno, ao mesmo tempo em que estava formando um acervo, trazendo peças para juntar àquelas já existentes, estivesse pensando em montar uma exposição. Parecia que o sonho era o de trazer tudo para o público, porque essa montagem já tinha praticamente tudo [do acervo atual]”, reflete Heloísa.

“Africana”

Arte africana, etnologia africana, cultura africana. Há quem critique este tipo de classificação, julgando-o por demais reducionista. Afinal, transmitir toda a vasta produção técnica, estilística e ontológica de centenas de sociedades, reinos e culturas do continente africano através de expressões tão simplórias? Algumas exposições internacionais recentes, conta Heloísa, passaram a utilizar termos como “artes da África”, “artes primeiras”, para designar a produção de cultura material na África. No entanto, ela alerta que uma simples mudança de nomenclatura nada resolve. Pelo contrário, pode disfarçar o valor discursivo que esses nomes possuem.

A expressão “arte africana” carrega com ela uma série de significâncias que não devem ser abandonadas. Ao mesmo tempo que o termo traz o peso da diversidade de uma quantidade enorme de etnias, também nos lembra que as artes das sociedades africanas foram, antes de tudo, reduzidas e renegadas historicamente. Heloísa sugere que seria uma forma de resistência manter tal termo, para que, assim, o passado não seja suavizado com o tempo.“Eu insisto no uso da expressão [arte africana], é uma imposição mantê-lo. Porque não adianta mais – hoje, depois de passada toda a exploração da África, depois de passado o fato colonial, a descolonização, e tudo que decorre disso – renegar um termo, como por exemplo ‘arte primitiva’, alterando-o por algo como ‘artes primeiras’, afirma, categórica.

A dualidade presente em arte africana – que designa ao mesmo tempo a pluralidade dos povos africanos, e a minimização de todas as artes da África a uma espécie de arte única frente ao mundo – talvez seja um dos principais preceitos dos estudiosos desse continente. “Esse conjunto é uma invenção ideológica, mas é, simultaneamente, uma invenção acadêmica, porque com base nele é que começaram os estudos a que damos continuidade”, reflete a antropóloga.

O MAE fica na Av. Prof. Almeida Prado, 1466, Cidade Universitária, São Paulo. O telefone é o (11) 3091-4905.

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