Aula pública na ECA debate jornalismo nas mídias sociais

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Paulo Hebmüller / Jornal da USP

Foto: Lara Deus
Foto: Lara Deus

Não importa quem faz a cobertura e nem qual é a plataforma utilizada: a preocupação em garantir os pressupostos básicos do jornalismo – veracidade, precisão e acolhimento de múltiplas vozes, entre outros – deve ser mantida. “Senão, isso deixa de ser jornalismo e se transforma em outra prática, também válida, de dar voz a determinada opinião ou segmento”, diz a professora Beth Saad, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

A professora participou de uma aula pública organizada por alunos de Jornalismo da ECA no dia 24 de outubro, na Vivência da unidade. Também integrou a discussão sobre “A cobertura dos movimentos estudantis pelas mídias sociais” o jornalista e blogueiro Leonardo Sakamoto, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

Beth Saad diferenciou o que chamou de jornalismo nas mídias sociais daquele feito com as mídias sociais. No primeiro caso, estão as pessoas ou grupos que produzem seus próprios conteúdos e não recorrem aos veículos tradicionais para publicá-los – o coletivo Mídia Ninja, por exemplo. No segundo, as plataformas digitais são usadas para complementar ou ampliar informações. É o que fazem os veículos tradicionais para permitir comentários ou reprodução nas redes de matérias publicadas na versão impressa.

Como “tudo o que acontece nas redes tem a ver com diálogo”, salienta a professora, quem atua nelas precisa estar preparado para saber lidar com as vozes dissonantes e as críticas. Alguns comentários de internautas, inclusive, são bastante pesados, ressaltou Beth – Sakamoto, acostumado a essa realidade em seu próprio blog, riu e fez questão de concordar, provocando risos também na plateia. “Não se pode esperar conversar só com quem concorda com você. A dissonância aumenta exponencialmente na rede, o que é favorecido pelo seu suposto anonimato”, continua a docente.

Beth citou o professor e escritor espanhol Manuel Castells, que, em seu mais recente livro – Redes de indignação e esperança (Zahar, 2013) –, analisa os chamados movimentos dos “indignados” ao redor do mundo (leia cobertura do Jornal da USP sobre conferência que o sociólogo espanhol proferiu em São Paulo, em junho). Para Castells, vivemos numa sociedade multimodal, em que as coisas não acontecem somente na rede, na rua ou na mídia: tudo está interconectado. Por essa razão, diz a professora, não é correto afirmar que as manifestações de junho no Brasil se devem exclusivamente à internet. “É tudo junto”, afirma.

Beth Saad terminou sua intervenção propondo uma reflexão aos alunos: “Pensando nessa realidade multimodal, por que será que a cobertura do movimento estudantil na rede hoje não repercute como vocês esperam?”.

Guerra de convencimento

Foto: Lara Deus
Foto: Lara Deus

Leonardo Sakamoto certamente não tinha a intenção de responder diretamente à questão, mas durante o debate apresentou algumas proposições que podem ajudar na reflexão – fruto de sua experiência em temas como denúncia do trabalho escravo, especialmente na ONG Repórter Brasil, da qual é coordenador.

Para que opiniões e pontos de vista ganhem relevância e espaço na cada vez mais disputada arena pública, é preciso travar uma guerra de convencimento com as armas da comunicação, o que vai muito além da mera divulgação de alguns textos no Facebook. Chamar jornalistas para conversas informais “em tempos de paz” – e não somente nos momentos de greves ou conflitos – e fornecer à mídia material interessante e simples sobre as ideias que o grupo defende são algumas das ações que os movimentos deveriam desenvolver, considera o blogueiro. “Aprendam com os ruralistas. Eles são gênios”, diz.

Sakamoto considera ainda que é preciso abandonar “os antigos cânones do movimento estudantil” para usar formas mais criativas de se comunicar. A primeira disputa, por sinal, não é com a mídia, mas tem a ver com o desafio de envolver as pessoas mais próximas, como colegas que não participam do movimento e professores.

Para Sakamoto, os jornalistas têm muita dificuldade para cobrir questões que envolvam direitos trabalhistas ou manifestações populares de forma geral porque não se veem como trabalhadores. “Talvez por conviver nos mesmos espaços culturais da elite ou dos donos dos veículos, os jornalistas se acham pertencentes a essa classe, à qual não pertencem”, diz. Um dos resultados disso é que manifestações ou paralisações acabam sendo cobertas do ponto de vista dos prejuízos ao trânsito, “como se os carros, e não os seres humanos, tivessem direito à cidadania”.

Outro problema da categoria, aponta, é a formação deficiente dos profissionais, que é generalista e resulta em muita dificuldade para lidar com temas específicos de forma aprofundada. “A cada bom jornalista que cobre educação, por exemplo, há dez que não sabem nada do assunto”, diz. A situação é agravada pela enorme carga de trabalho a que os jornalistas são submetidos na atualidade, com a obrigação de produzir material para múltiplas mídias. Ao lado das dificuldades estruturais da “linha de montagem” das redações, porém, há também preguiça e ignorância, considera Sakamoto.

Na rua é diferente

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Mesmo com o aumento das fontes alternativas de informação, os próprios movimentos e militantes continuam fazendo circular matérias publicadas pelos veículos da mídia tradicional, especialmente quando eles repercutem ações de maneira considerada positiva. “Isso tem muito a ver com a questão da legitimidade”, diz o blogueiro, para quem há na internet conteúdos socialmente legitimados, enquanto outros não o são.

Tornar-se uma fonte confiável na rede é um processo que não ocorre de uma hora para outra e inclui a checagem de toda e qualquer informação, não importando se ela vem de uma pessoa conhecida ou ligada a um movimento. Sakamoto inclusive publicou em seu blog o texto “Os Dez Mandamentos para jornalista nas redes sociais”, no qual faz recomendações como: “Lembrarás que mais vale um tuíte atrasado e bem checado que um tuíte rápido e mal apurado”.

Era comum que os cartazes nas manifestações de junho trouxessem mensagens como “saímos do Facebook”. Para o blogueiro, alguns confrontos entre grupos que defendiam ideias diferentes foram causados exatamente porque saíram à rua pessoas que nunca haviam participado de atos públicos, e que inicialmente se comportaram como se estivessem teclando em seus equipamentos.

“A rede acabou exacerbando certos comportamentos antidemocráticos. Na rua o debate não é o mesmo das redes. Xingar frente a frente é diferente, porque você pode apanhar”, diz. A atual geração jovem é carente de participação política, e cabe às gerações anteriores “atuar de forma mais efetiva para mostrar a história dos movimentos”, defende Sakamoto.

As manifestações no mundo inteiro têm apresentado um discurso forte de insatisfação e desconstrução da realidade, mas ainda não foram capazes de propor como construir o novo. “Criar um ambiente democrático é complicado. É um desafio que vai desde o governo federal até o movimento estudantil. A mesma prática que cobramos do governo tem que ser exercida no âmbito micro, local”, afirma o jornalista. “É preciso ter paciência e atuar para trazer o outro ao debate.”

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