Musicalidade fundamenta revolução modernista na poesia hispano-americana

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Rúvila Magalhães / Agência USP de Notícias

Mais do que um simples ornamento, a musicalidade na poesia modernista hispano-americana forma parte do sentido do poema, e é por meio dela que o movimento modernista alcança alguns de seus objetivos. Esse recurso assume uma função semântica na poesia e permitiu ao pesquisador André Fiorussi investigar a escola modernista em seu contexto. Sua tese de doutorado, desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), objetiva compreender o que representa a musicalidade na poesia dos modernistas hispano-americanos.

O movimento modernista teve início entre 1880 e 1900, na América Hispânica, ou seja, nos países americanos de língua espanhola. O nicaraguense Rubén Darío e o uruguaio Julio Herrera y Reissig foram os poetas em que o pesquisador focou seus estudos, que também contemplam a obra de mais de 20 poetas de diferentes países da América.

“O tema da musicalidade poética é muito comentado, mas é tratado em geral de forma romântica e idealista”, explica Fiorussi. O pesquisador buscou contrapor a essas ideias preconcebidas por trás da musicalidade um estudo das questões específicas da época, analisando o que se dizia e o que os poetas demonstravam por meio de suas obras. “Muitas vezes a poesia do passado é analisada a partir das nossas próprias indagações, e com isso conseguimos lidar com as nossas dúvidas, o que é ótimo. Mas a gente não consegue entender por que aquilo foi feito. Aquilo certamente não foi feito para responder nossas dúvidas, mas para responder questões que provavelmente desconhecemos. Foi por aí que procurei entender o que os poetas modernistas pensavam sobre a música na poesia”, relata o pesquisador.

De maneira geral, o estudo teve como meta mostrar que a musicalidade não é apenas ornamental, mas caracteriza o estilo e é um dado que pode ser aproveitado pelo pesquisador para interpretar o sentido dos poemas. Ao estudar os aspectos musicais, o pesquisador tem acesso aos modelos ocultos dos artistas. A musicalidade é um recurso linguístico com características que se repetem e se transformam em diversos tempos, cadências e ritmos da composição poética. No fim do século 19, a poesia em espanhol estava muito ligada ao plástico e oratório, e os poetas modernistas aproximaram-na da música e do ritmo moderno.

Os poetas

Darío é considerado o fundador do movimento modernista. Para criar a sua obra, ele afasta-se do antigo vocabulário da retórica e da poética, criando uma nova maneira de tratar a poesia, comparando-a com a música. Herrera y Reissig às vezes compunha ao som de seu violão, o que influencia fortemente sua obra, pois lhe permitiu levar elementos da música para a poesia. Ele aborda frequentemente o tema da música, além de escrever com forte musicalidade e com um modo novo de fazer poesia, usando termos científicos, cacofonias e diversas figuras de linguagem para tornar sua obra mais chocante e forte.

O pesquisador destaca que pouco da obra desses poetas — e de muitos outros da América — pode ser encontrado no Brasil. Os livros carecem de tradução e espaço no mercado editorial brasileiro. Para ter acesso a algumas das obras que necessitava para a pesquisa, Fiorussi visitou bibliotecas na Argentina, no Uruguai, no Chile e na França.

A tese de doutorado Inundação musical: a música da poesia modernista hispano-americana foi orientada por Maria Teresa Cristófani de Souza Barreto. O estudo aproxima os poetas modernistas hispano-americanos do Brasil e favorece o conhecimento mútuo. Além disso, mostra a literatura como uma prática social viva e tão dinâmica quanto a própria sociedade da época. A literatura é uma das coisas com as quais a identidade da América é construída, introduz questões e guarda informações. Por fim, o estudo colabora com o fortalecimento do uso do material para discutir a sociedade atual.

Mais informações: email fiorussi@gmail.com

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