Carreira: “fazer contas” e dar aulas resume mal trabalho de matemático

Publicado em Educação, Ex-alunos, USP Online Destaque, Vestibular por em

Da Assessoria de Comunicação do ICMC

Foto: Divulgação/ICMC
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A quantidade de oportunidades que se abrem diante de quem se forma na área da matemática pode ser comparada ao tamanho do universo dos números: infinito. Mas na hora de prestar o vestibular, esse universo se oculta diante dos olhos de muitos estudantes que gostam de matemática. Em vez de enxergar essas oportunidades, eles só são capazes de ver os mitos que assombram quem pensa em seguir por esse caminho.

O mito de que todo matemático é professor de matemática 

Nem todo matemático é, necessariamente, um professor de matemática. Seguir a carreira de professor é apenas uma opção entre muitas outras que existem à disposição de quem gosta de matemática. O coordenador do Bacharelado em Matemática do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, Leandro Aurichi, assegura que faltam matemáticos no mercado de trabalho: os bancos e as agências de consultoria financeira demandam muito mais profissionais do que as universidades conseguem formar.

“São tantas ofertas que nossos alunos escolhem onde querem trabalhar: além da área financeira, um matemático pode atuar em empresas de gestão, de logística e até de marketing”, completa o coordenador do Bacharelado em Matemática Aplicada e Computação Científica, Gustavo Buscaglia.

Para enxergar o universo de possibilidades de atuação desse profissional, imagine onde a matemática pode ser empregada no mundo real. A busca pelo petróleo, por exemplo, se dá por meio de métodos matemáticos: ondas são enviadas para o subsolo e os ecos são analisados matematicamente. Dependendo das características desses ecos, são identificados os indícios da existência de petróleo naquele local.

Mais um exemplo: em uma fábrica de calçados, para aproveitar ao máximo os materiais, é preciso otimizar matematicamente a disposição das peças a serem cortadas. Esse é um desafio geométrico que demanda também o desenvolvimento de programas para realizar essa atividade automaticamente.

Foto: Divulgação/ICMC
Foto: Divulgação/ICMC

Quem se encanta com as soluções da matemática para problemas concretos da humanidade como esses pode seguir o caminho do Bacharelado em Matemática Aplicada e Computação Científica (carreira 790 da FUVEST, curso 61), em que a matemática aplicada liga-se à computação. No entanto, é fato que a vocação para o ensino acomete muitos matemáticos. Entre esses, estão os que escolhem dar aulas para o ensino médio e fundamental e, para isso, cursam Licenciatura em Matemática (carreira 790, curso 62). Na Licenciatura, o objetivo é, especificamente, formar professores, possibilitando aos estudantes obter uma visão ampla do conhecimento matemático e pedagógico. Nesse sentido, esse profissional pode se especializar em educação, educação matemática ou administração escolar.

Há também quem deseja se tornar um pesquisador-professor universitário, binômio inseparável. Esse nicho de mercado costuma ser ocupado pelos Bacharéis em Matemática (carreira 790, curso 62). Quando eles não se dirigem ao mercado de trabalho, optam pela carreira acadêmica e prosseguem os estudos com a pós-graduação (mestrado e doutorado). Alunos dos demais cursos também podem seguir carreira acadêmica e se tornarem aptos a dar aulas no ensino superior e a realizar pesquisas na área da matemática, as quais nem sempre estão relacionadas aos problemas do mundo real.

Vale lembrar que tanto aqueles que querem seguir a Licenciatura quanto quem quer o Bacharelado, na hora de se inscrever no vestibular FUVEST, escolhe uma mesma opção de carreira (790) e curso (62). Isso porque o estudante só vai decidir qual caminho seguir após o terceiro semestre do curso, já que, até esse momento, as disciplinas são comuns para as duas habilitações (Licenciatura e Bacharelado).

O mito do matemático que morreu de fome

O medo de não conseguir garantir a própria sobrevivência no futuro é outro mito recorrente entre os vestibulandos que gostam de matemática. Esse mito está muito ligado ao anterior – “todo matemático é professor de matemática” –, por isso, cogita-se que tenha se fortalecido juntamente com a disseminação da “síndrome do professor mal remunerado”. Certamente, surgiu em sua mente aquele cenário tradicional de uma escola pública de ensino médio e fundamental com falta de professores de matemática e baixos salários.

“Todos têm opiniões prontas sobre mercado e salário de professores. Obviamente, não direi que o salário não é um problema e que o professor não precisa ser melhor valorizado no Brasil, mas existem sim boas condições de trabalho e formas de atingir os objetivos sendo um profissional bem formado, bem capacitado e comprometido com seu trabalho”, afirma o professor Marcelo Pereira, que se formou em Licenciatura em Ciências Exatas (carreira 815, curso 68). O curso é oferecido pelo ICMC em parceria com os institutos de Física e de Química e possibilita obter habilitação em Física, Química e Matemática.

Vale ressaltar que o cenário do pleno emprego é uma realidade para os professores de matemática, embora não se possa negar que a questão da remuneração ainda seja um problema no ensino público. Por outro lado, para os matemáticos que decidem atuar como pesquisadores em instituições de ensino superior e dar aulas nessas instituições, as perspectivas de remuneração são bem mais animadoras. Segundo Aurichi, apesar de ter um bom salário, os matemáticos que seguem carreira acadêmica ganham menos do que aqueles que vão para o mercado, pois a disputa acirrada por profissionais torna os salários iniciais bastante atraentes. “Nossos alunos recém-formados têm ingressado no mercado de trabalho com salários que variam de R$ 3,5 a 4 mil e com ótimas perspectivas de crescimento profissional nas empresas”, completa Buscaglia.

O mito do matemático que morreu de fome assombrou por muito tempo o aluno do ICMC André Luís Soares, levando-o a prestar vestibular para engenharia mecânica por dois anos seguidos, sem sucesso. Só então, arriscou assinalar a opção do Bacharelado em Matemática Aplicada e Computação Científica. Começou o curso e descobriu que não gostava da mistura entre matemática e computação. Então, transferiu para o Bacharelado em Matemática. “Antes de prestar o vestibular, a gente fica se perguntando: será que vou gostar? Você só vai descobrir se tentar. Depois de entrar na universidade, se não gostar do curso, basta transferir para outro”, ensina Soares.

portal20140905_aaO professor Aurichi revela que 16,22% dos alunos que se formaram no Bacharelado em Matemática, de 2009 a 2013, são estudantes provenientes de outros cursos da USP. Fica a dica: “Se você gosta de ciências exatas e, na hora de prestar o vestibular, escolher um curso que não atenda ao seu perfil, é muito fácil realizar uma transferência para outro curso no ICMC”. Descartamos aqui mais um mito, o de que “você não pode errar na hora de escolher um curso no vestibular”.

O mito de que todo matemático sabe fazer contas

As alunas do ICMC Graziele Bombonato, da Licenciatura em Matemática, e Oriana Ortiz, do Bacharelado em Matemática, confessam que ficam furiosas quando, na hora de pagar a conta na mesa do bar, são requisitadas para fazer os cálculos: “A gente não sabe fazer contas”.

Entre os profissionais das ciências exatas, segundo o professor Aurichi, o matemático é o que menos sabe calcular: “A matemática que os alunos encontram na universidade é completamente diferente da matéria que eles aprenderam no ensino médio e fundamental. Aqui, nós não estamos interessados em fazer contas, mas em entender como as coisas funcionam e as relações entre essas coisas. É uma busca por uma compreensão mais qualitativa que quantitativa”.

Para um matemático, muitas vezes, é suficiente saber que a reposta para uma questão existe e é passível de ser calculada. Depois de descobrir isso, ele simplesmente não precisa fazer conta.

O mito de que matemática não combina com outras ciências

Cada vez mais as ciências exatas são reconhecidas como relevantes para o desenvolvimento de outras ciências. Da biologia à sociologia, é possível encontrar inúmeros exemplos de matemáticos que buscam desenvolver modelos para entender como as coisas funcionam nesses diferentes campos do saber. Quando chega a época das eleições, esse fenômeno fica ainda mais evidente com as inúmeras análises estatísticas que tentam prever o que acontecerá nos rumos políticos do país.

“Toda a ciência que tem algo a ver com a natureza e com o mundo real precisa da estatística”, diz Aurichi. O Bacharelado em Estatística (carreira 790, curso 63) é outra opção de curso oferecido pelo ICMC e quem se forma nessa área pode atuar em inúmeros setores, tendo em vista que o emprego das metodologias estatísticas tornou-se uma prática comum em bancos, seguradoras, na medicina, na biologia, na indústria de forma geral e no governo. Daí a conclusão de que a probabilidade de um estatístico ficar desempregado atualmente tende a zero.

Vale dizer que os estatísticos costumam atuar nos bastidores, auxiliando outro profissional a desenvolver sua área de atuação. Por isso, os estudantes desse curso precisam ter capacidade de relacionamento interpessoal e de trabalhar multidisciplinarmente, já que sempre irão atuar com pessoas de diferentes campos do conhecimento. Essa é mais uma opção para quem ama matemática, um campo tão infinito de possibilidades.

Mais informações: email comunica@icmc.usp.br

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