Técnicas físicas revelam segredos das cores de Portinari

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Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

A maneira com que o pintor Cândido Portinari (1903-1962) combinou pigmentos de materiais variados para criar as cores de suas pinturas é revelada pelos estudos do Núcleo de Apoio a Pesquisa de Física Aplicada ao Patrimônio Histórico e Artístico (NAP-FAEPAH) da USP. Entre os meses de março e agosto deste ano, 21 quadros expostos na Igreja Matriz de Batatais (interior de São Paulo) passaram por análises de fluorescência de raios X e espectroscopia Raman para identificar os elementos químicos e compostos presentes nas tintas. Os resultados permitem auxiliar o processo de restauração das obras de arte e em futuros estudos sobre o método de trabalho de Portinari.

Os quadros na Matriz de Batatais, executados pelo pintor provavelmente entre 1953 e 1955, trazem cenas da vida de Jesus Cristo. São pinturas de vários tamanhos, desde as estações da Via Sacra, que medem aproximadamente 50 por 50 centímetros (cm), até quadros como “Batismo” e “Sagrada Família”, com 1,99 metros (m) de altura por 2,99 m de comprimentos. “Os responsáveis pela restauração procuraram o núcleo para realizar um trabalho de caracterização dos materiais usados nas obras e seu estado de degradação durante o processo de restauro”, diz a professora Márcia Rizzutto, do Instituto de Física (IF) da USP, coordenadora do NAP-FAEPAH. “As medições de raios X e Raman aconteceram na própria igreja, por meio da utilização de equipamentos portáteis pertencentes ao Núcleo”.

As duas técnicas não necessitam de extração de amostras (não-invasivas). A fluorescência de raios X serviu para caracterizar quais substâncias químicas estavam presentes nas tintas dos quadros. “O aparelho emite um feixe de raios X, que são utilizados para excitar o material presente no pigmento e depois raios X característicos dos materiais são reemitidos pelos pigmentos analisados com frequências de onda diferentes, conforme o material encontrado, o que permite classificar cada elemento químico”, conta a professora do IF. “Em algumas obras usou-se a espectroscopia Raman, em que um sistema de laser interage com os compostos e estes espalham novamente o laser e assim fornecem informações sobre a composição química dos materiais analisados”.

Com base nos resultados das medições realizou-se um mapeamento dos quadros, que indicam os componentes de cada pigmento presente nas obras. “As análises apontam que Portinari usava pigmentos industrializados, porém feitos de diferentes elementos químicos, para variar as tonalidades de cores, como no céu pintado em alguns quadros”, diz Márcia. Para conseguir um maior número de tons de azul, o pintor usava pigmentos a base de cobalto, estanho e cobre. “Nas partes pintadas de branco foram encontrados traços de zinco; nos amarelos, cádmio, nos marrons, ferro, nos verdes, cromo, e assim por diante”.

Paleta de cores

As informações obtidas sobre a paleta de cores utilizada nos quadros da Matriz de Batatais podem ser comparadas com outras obras do artista. “É possível verificar se os pigmentos e as técnicas de pintura usadas nestes trabalhos apresentam semelhanças ou diferenças com quadros de Portinari em outros acervos, como o do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP”, ressalta a professora. “Os estudos com imageamento não encontraram traços de carbono, presentes no carvão e no grafite usado por artistas para esboçar traços iniciais em suas obras, o que pode ser um indício de que o pintor realizou os quadros diretamente sobre a tela”.

O NAP-FAEPAH surgiu em 2012, com o objetivo de realizar um trabalho interdisciplinar entre pesquisadores de ciências exatas e humanas para fazer um estudo sistemático de caracterização de objetos em acervos artísticos, históricos e etnográficos. “Por meio de técnicas físicas e químicas é possível verificar, por exemplo, processos de degradação, mudanças nos materiais ao longo do tempo e efeitos de restaurações anteriores realizadas em obras de arte, ou semelhanças entre culturas devido as características da produção de objetos em coleções etnográficas”, explica Márcia. Desde 2003, a professora realiza análises em acervos museológicos, inicialmente no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

Com auxílio da Pró-Reitoria de Pesquisa e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Núcleo adquiriu equipamentos para realizar as medições, principalmente nos locais em que se encontram os acervos. “Além do equipamento de fluorescência de raios X e da espectroscopia Raman, também são utilizadas diferentes tangencias de imageamento para caracterizar as obras de arte como uma câmera de infravermelho, fotografia de alta resolução e fotografia com fluorescência UV que se complementam e auxiliam a estudar a obra, estudar o processo criativo do artista por meio da identificação dos traços iniciais em pinturas e desenhos. Pode-se ainda ampliar os estudos de análises de materiais utilizando o Acelerador de Partículas do Instituto”, completa a coordenadora.

No MAC são estudadas as pinturas italianas do acervo de Ciccilio Matarazzo e a coleção de gravuras em papel, em colaboração com a professora e historiadora Ana Gonçalves Magalhães e com os especialistas em Conservação e Restauro do Museu, Rejane Elias Clemencio, Renata Casatti, Marcia Barbosa e Ariane Lavezzo. “No IEB é feito um trabalho com as pinturas de cavalete de Anita Malfatti e desenhos de Di Cavalcanti, com auxílio da especialista em conservação e restauro, Lucia Elena Thomé”, relata a professora.

No Museu Paulista (MP) da USP são estudados os processos de impressão fotográfica do final do século 19 e início do 20, em conjunto com a vice-coordenadora do Núcleo, professora Solange Ferraz de Lima, e as conservadoras do Museu, Sonia Spigolon, Ina Hergert e Yara Petrella. “No MAE é feita a analise de artefatos cerâmicos etnográficos e arqueológicos da Amazônia, com participação da professora Fabíola Silva e Dra. Silvia Cunha Lima”, acrescenta Márcia. Também participam do Núcleo os professores Manfredo H. Tabacniks e Nemitala Added, do IF, Augusto Câmara Neiva, da Escola Politécnica (Poli) da USP, Carlos Appoloni, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e Patrick Ravines, da Buffalo State Univeristy, nos Estados Unidos, além de estudantes de graduação, pós-doutoramento e do técnico Tiago Fiorini, do Acelerador de Partículas.

Mais informações: (11) 3091-7102, com a professora Márcia Rizzutto

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