As expectativas da primeira turma de graduação em Saúde Pública da FSP

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Luciene Antunes, especial para o USP Online

Em março deste ano tiveram início as aulas do curso de graduação em Saúde Pública oferecido pela USP. A turma de 39 alunos deve ingressar no grupo de profissionais sanitaristas por um caminho ainda novo. Isso porque, até pouco tempo, a área era tratada no país exclusivamente como uma especialização da pós-graduação.

De acordo com Laura Feuerwerker, coordenadora do curso, a primeira turma reúne jovens com um perfil diversificado. Há cerca de dez estudantes para quem a saúde pública é a segunda graduação, e há dois que já têm mestrado. Alguns cursam simultaneamente a graduação em Saúde Pública e alguma outra. Apenas dez alunos têm menos de 20 anos de idade – a maioria tem entre 20 e 30 anos.

Guilherme Costa Cayres, de 31 anos, é um dos alunos da primeira turma. O interesse pela graduação veio pelo trabalho em uma operadora de planos de saúde, em que trabalha há pouco mais de três anos e onde se apaixonou pelos temas de saúde pública. “Quando soube pela imprensa da criação desse curso, percebi que essa seria uma ótima oportunidade de me qualificar academicamente na área e desbravar novos horizontes profissionais”, diz Cayres, que está entusiasmado depois do primeiro mês de aulas.

“Vejo que teremos uma formação bem abrangente e bastante prática. Os professores são excelentes, o nível da turma é alto e o nível de cobrança é exatamente o que eu esperava de um curso da USP.”

O grande desafio deste aluno é conciliar os estudos e o trabalho. Este semestre, ele optou por trancar sua outra graduação, em Filosofia, para arcar com a nova carga de estudos e horas de dedicação.

Victor Chiavegato, de 17 anos, optou pela Saúde Pública como primeira graduação. Na adolescência, fez curso técnico em Saneamento e Controle Ambiental pelo Centro Paula Souza e o tema o conquistou. “Desde então soube que queria futuramente trabalhar na área com o objetivo de realizar pesquisas que auxiliem no descobrimento de soluções para doenças, diz Chiavegato. E complementa:

“Optei pelo curso de Saúde Pública por reconhecer a grande necessidade do país em melhorar essa área.”

Danilo Pedroso, de 22 anos, trabalha na Secretaria do Meio Ambiente e também cursa Geografia na PUC. O contato profissional com os temas de saúde pública despertou seu desejo em trabalhar com consultoria na área de saúde e de saúde ambiental, além de poder atuar como gestor público. “Acredito que, pela própria tradição da FSP, o curso tem tudo para ser único no país, com uma proposta inovadora, que permite juntar inúmeras áreas do conhecimento, formando um profissional multidisciplinar”, diz Pedroso, que também incorporou uma rotina bem pesada. De manhã, trabalha, à tarde assiste às aulas da Saúde Pública e, à noite, faz Geografia.

Da pós à graduação

Diversos profissionais da saúde, assim como pessoas com formação em outras áreas, como geografia, sociologia, estatística, entre outras, buscavam um mestrado ou doutorado em Saúde Pública em geral após começarem a trabalhar com questões relacionadas à saúde pública. “De dez anos para cá teve início uma discussão sobre possibilitar a formação de sanitaristas [profissional da saúde pública] também pela graduação. Era uma ideia um pouco polêmica, primeiro por se tratar de um campo tão essencialmente multidisciplinar e, segundo, por um temor de se gerar algum afastamento entre o campo da saúde pública das demais formações em saúde”, diz Laura.

Pela trajetória mais comum do profissional de saúde pública no país, percebeu-se uma necessidade de formá-lo em maior quantidade e mais rapidamente. Até então, normalmente os profissionais ingressavam em alguma especialidade dentro do sistema de saúde ou de outras áreas, e, depois, por algum motivo, passavam a trabalhar com gestão ou outro aspecto da saúde pública. Só então iam buscar formação.

“Devido a essa trajetória tradicional, o que temos hoje são sanitaristas que em geral se especializaram depois de formados e depois de alguns anos de mercado de trabalho. Com a graduação, pretende-se ampliar as vias de acesso a essa carreira”, diz Laura.

Hoje o sanitarista no Brasil tem diversas possibilidades de atuação. Pode trabalhar no âmbito do sistema de saúde pública, não só na gestão e formação de políticas públicas de saúde, mas também em áreas mais específicas, como nos campos de vigilância epidemiológica, vigilância sanitária, saúde ambiental; em operadoras de planos de saúde; em órgãos públicos como Cetesb e Sabesp; e institutos de pesquisa, como Fundação Seade e IBGE.

Atualmente existem menos de 20 cursos de graduação em saúde pública no país, e as Universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Bahia (UFBA) formam suas primeiras turmas este ano. O curso oferecido pela USP é o primeiro de sua categoria no estado de São Paulo.

Ainda sem uma grade curricular padrão, as instituições estão em constante diálogo por meio de um fórum bianual, que reúne aquelas que já possuem ou que estão em fase de formatação de seus cursos de graduação na área. A USP, que participa do fórum há pouco mais de dois anos, organizou o curso em cinco eixos principais: ciências da vida, ciências humanas e sociais, políticas e gestão, epidemiologia e saúde ambiental. Além desses, existe o chamado eixo integrador, cujo objetivo é desenvolver atividades práticas que articulem várias disciplinas e apresentem as várias situações de trabalho aos alunos. Todos os eixos são trabalhados simultaneamente ao longo dos quatro anos de curso. 

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