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Marcos Santos / USP Imagens

Grupo da FE incentiva a compreensão da educação como um ato político

Publicado em Educação, USP Online Destaque por em

Analisar a educação através de um viés político, relacionando-a com a democratização do ensino público no país é uma discussão que, embora de grande importância, tende a ser, em muitas situações, colocada em segundo plano. Contudo, para entender de maneira nítida todas as questões que cercam a educação no Brasil é preciso ter clara a função social desempenhada pelas escolas públicas – e como o professor está inserido neste cenário.

A fim de elucidar e discutir todas as adversidades atreladas às práticas pedagógicas e, principalmente, trabalhar a formação de professores, sempre vinculando-os aos espaços públicos, surgiu o Grupo de Estudos e Pesquisa sobre a Formação de Educador (Gepefe), da Faculdade de Educação (FE) da USP, compondo a linha de pesquisa “Didática, Teorias do Ensino e Práticas Escolares”. O grupo, criado em 1989 a partir de uma iniciativa das professoras Maria Fusari e Selma Pimenta, visa à formação de profissionais aptos a exercer atividades educativas, em especial como docentes.

A época da formação do Gepefe, a professora Selma Pimenta, fundadora e pesquisadora do grupo, conta que havia a tradição dos orientadores trabalharem de forma individual com cada orientando, no entanto, percebeu-se a necessidade de se constituir grupos de pesquisa que tivessem um trabalho de orientação coletiva. Dessa maneira, por intermédio do Gepefe, criou-se a oportunidade dos pesquisadores construírem de forma conjunta saberes sobre uma prática, até então, pouco arraigada. Além disso, os alunos começaram a conceber projetos providos de uma visão interdisciplinar muito mais forte do que outrora.

Atualmente, o grupo conta com parcerias em universidades de todo o país, como a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Não por acaso, há uma grande procura de pessoas interessadas em participar das pesquisas do Gepefe, que hoje prioriza o ingresso de orientandos de pós-graduação dos professores integrantes do grupo.

Porém, ainda que haja  limitações para acolher novos membros, existe uma forte interlocução do grupo com os interessados por seus trabalhos a partir da divulgação de pesquisas, oferecimento da bibliografia usada, participação em eventos e demais esforços que visam tornar públicos os frutos de todos os estudos.

gepefe-usp-01Ser professor no Brasil

O professor com a conotação de “profissional que exerce uma atividade” é algo recente na história. Isso acontece devido a uma tradição equivocada de que o trabalho docente não tem grande relevância.

Corroborando com o agravamento de tal situação, tem-se o fato da educação oferecer suporte político e ideológico para que as pessoas se posicionem de forma efetiva na sociedade, o que não é do interesse de todas as esferas de poder. Diante de tudo isso, transformar a educação em agente político torna-se um dos principais objetivos do grupo, de acordo com o professor José Fusari, pesquisador do Gepefe. “Nós não somos um grupo que pensa a formação apenas tecnicamente, nossa formação é também política e ética”, afirma.

Outro ponto que chama atenção na educação no país é que apenas em 1996 passou a ser exigido que os professores em nível primário tivessem formação superior (até então ela poderia ser feita em cursos de especialização). Todos esses fatores acrescidos de más condições de trabalho e baixos salários fizeram com que os próprios professores passassem a desacreditar de suas funções.

Reinventar a escola é um reinventar da política da docência no Brasil.

Segundo a professora Maria Isabel, docente da FE e pesquisadora do Gepefe, essa situação implica em uma grande contradição, já que nos discursos da mídia, de governantes e de boa parcela da população os professores são sempre exaltados. Para a professora, mudar as condições de trabalho hoje implica em mudar a escola como um todo, criando-se um novo ambiente de ensino e aprendizagem, “reinventar a escola é um reinventar da política da docência no Brasil”, assegura.

Docência no ensino superior

O professor universitário é o profissional responsável pela formação de outros profissionais. Muito comumente ministrando matérias específicas que se relacionam com sua área de atuação e que foram lapidadas em cursos de pós-graduação. Contudo, dominar um campo de conhecimento profundamente não significa saber ensinar sobre ele, pois ensinar – que pressupõe uma equação na qual o outro lado está aprendendo algo – requer uma série de conhecimentos que são pedagógicos e didáticos.

gepefe-usp-03Neste contexto, entram em cena os estudos do Gepefe voltados a professores de ensino superior, que possuem carreira na docência universitária, mas não têm formação pedagógica. Segundo a professora Selma Pimenta, uma das principais reclamações dos alunos de graduação são os professores com grande conhecimento em sua área, mas sem didática para ensinar. “Quando uma série de elementos não se reúnem para possibilitar um trabalho de qualidade o profissional se torna um ‘dador de aulas’, que apenas reproduz aquilo que presenciou como aluno durante toda a sua trajetória”, diz a professora. “As dinâmicas em sala de aula precisam se renovar, porque com o tempo tendem a se tornar obsoletas”, acrescenta.

Quando uma série de elementos não se reúnem para possibilitar um trabalho de qualidade o profissional se torna um ‘dador de aulas’, que apenas reproduz aquilo que presenciou como aluno.

As pesquisas do Gepefe direcionadas à docência no ensino superior abordam a necessidade de conhecer a instituição onde se trabalha, organizar o curso de forma eficaz, manter boas relações com colegas de trabalhos e alunos, dentre outras práticas indispensáveis aos docentes que objetivam um bom resultado.

Currículo em ação

Entre as linhas de pesquisas estudadas pelos membros do Gepefe está a “Ensino- Aprendizagem”, que se relaciona intimamente com os esforços do grupo para transformar a educação em sinônimo de gestor político.

Segundo o professor Fusari, pensar no ensino-aprendizagem é contextualizar histórica e politicamente a escola e a forma com a qual o professor lida com o aluno que está nela. Nesta linha, estuda-se a dinâmica na construção do projeto político-pedagógico partindo-se da transformação do currículo escolar em “currículo em ação”. Ou seja, parte-se do pressuposto que o aluno já carrega consigo uma série de conhecimentos pré-adquiridos que devem não apenas serem usados nas aulas, mas as comporem.

Para a professora Maria Isabel, este processo é um ato político; quando os professores trabalham desta maneira formam-se sujeitos capazes de pensar e se situar no mundo.

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