Brasiliana reúne especialistas para debater papel das bibliotecas

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Silvana Salles / Jornal da USP

Entre os repositórios digitais e os eventos culturais, as bibliotecas lutam para criar novas formas de se aproximar do público e atrair pesquisadores, mostra evento realizado na USP

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens

No começo, elas serviram a um propósito simples: guardar os documentos que registravam o conhecimento, a produção cultural e as experiências humanas. As bibliotecas do século 21, entretanto, não são apenas lugares onde se guardam e consultam livros. Elas protagonizam projetos de formação de leitores, recebem lançamentos de livros, realizam simpósios e são palco de atividades culturais diversas. Dentro da Universidade, recebem e promovem exposições – circulantes ou próprias, montadas a partir do estudo do acervo local. Fora dela, uma biblioteca pública como a Mário de Andrade, no centro de São Paulo, pode atrair dezenas de pessoas para leituras dramáticas ou até uma roda de samba na madrugada. A internet ajuda a divulgar as bibliotecas e atrair novos usuários e pesquisadores. No entanto, as novas possibilidades têm de ser equilibradas com o princípio que fundou as bibliotecas: oferecer a pesquisadores e público em geral acesso ao conhecimento.

A responsabilidade social e a função pública das bibliotecas nessa realidade foram tema de um colóquio realizado no dia 16 de abril, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Especialistas do Brasil e do exterior trouxeram à USP algumas reflexões e relatos a respeito dos desafios e oportunidades que envolvem a digitalização dos acervos, a divulgação e os limites da atuação das instituições. O evento contou também com uma conferência sobre ética proferida pelo Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Alfredo Bosi.

Crise

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Safier: o digital e o in situ

Em meados de 2013, emergiu nos Estados Unidos uma discussão sobre a “crise das humanidades”. Um levantamento em Harvard mostrou que um número considerável de estudantes de graduação que chegavam à universidade com interesse por áreas de humanas acabavam optando por seguirem carreiras como economia, engenharia ou outras hard sciences. Esse foi um assunto que tocou uma nota de preocupação na John Carter Brown Library, sediada na Brown University. Nascida a partir do acervo pessoal de John Carter Brown no século 19, a biblioteca é especializada em história das Américas. Mas se poucos estudantes pretendiam se dedicar à pesquisa de humanas, o que seria do futuro da biblioteca?

Neil Safier, historiador que é diretor da biblioteca, acredita que o crescimento de uma instituição como a sua depende de pensamento de longo prazo. Nesse sentido, algumas das novidades na biblioteca em Providence, Rhode Island, são a integração das atividades de aquisições e produção de exposições e a abertura ao uso por estudantes de graduação que tenham interesse em pesquisar a história das Américas. Compreendendo que os povos africanos foram tão importantes para a formação da América quanto as primeiras nações e os colonizadores europeus, o diretor também tem lutado para incluir no acervo material sobre a África – porém, tem encontrado certa resistência por parte da conselho da biblioteca. Quanto à política de digitalização, que foi iniciada em 2009, deve continuar a força plena.

No momento, a John Carter Brown dispõe de 15% do seu acervo on-line. Mas, na era do digital, disponibilizar esse material na internet é menos uma estratégia para atrair usuários e mais um caminho para democratizar o conhecimento. “Agora temos a habilidade de divulgar o acervo para pessoas no Recife, no Acre, no Paraguai, no Caribe ou no México. Temos patrimônio histórico e cultural de todos os países das Américas; então, é muito importante devolver de alguma forma – não fisicamente, pois mantemos o controle sobre o material – as formas digitais desse patrimônio a essas comunidades”, diz Safier. “Agora, a consulta do objeto digitalizado não é o mesmo que a consulta do livro impresso in situ. Estamos experimentando novas ideias de como integrar as duas formas de consulta, para que seja uma vantagem ter um livro impresso e uma vantagem ter o livro (disponível) 24 horas digitalizado”, completa ele.

Democratização

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Brasiliana Mindlin: digitalização do acervo não exclui possibilidade de consulta física

No Brasil, a Biblioteca Nacional, localizada no centro do Rio de Janeiro, tem investido em projetos digitais sob a mesma ótica, de divulgar o acervo e democratizar o acesso a ele. Na véspera do feriado prolongado de Tiradentes, a instituição lançou o portal Brasiliana Fotográfica. Fruto de uma parceria com o Instituto Moreira Salles, trata-se de um repositório de imagens documentais do Brasil registradas entre meados do século 19 e o início do século 20. O banco de fotos poderá, no futuro, receber colaborações de outras instituições, tanto nacionais quanto do exterior.

Os esforços de divulgação e democratização têm relação próxima com a preocupação das bibliotecas de trazer as pessoas de volta às suas estantes, numa época em que uma infinidade de informações está ao alcance de um clique em uma ferramenta de buscas on-line. “Do ponto de vista histórico, as bibliotecas partem de uma decisão de abrigar a palavra de forma sedentarizada. Elas se constituem como lugares de guarda e de interpretação. Mas, antes do papel social da biblioteca, existe a ideia de que um acervo pode ser infinitamente interpelado. Quantos mundos há numa biblioteca? Neste momento de aceleração dos fluxos de informação, as bibliotecas podem ser espaços de resistência à aceleração do tempo”, reflete Renato Lessa, presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Analfabetismo

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Marina: responsabilidade da escola

Como coordenadora da Hemeroteca Nacional do México, Marina Garone não tem de enfrentar uma tendência de diminuição no volume de usuários e consultas, uma vez que a leitura mais veloz dos periódicos garante a alta utilização tanto on-line quanto nas dependências do Centro Cultural Universitário da Cidade do México. Porém, como pesquisadora do Instituto de Investigaciones Bibliográficas da Universidade Nacional Autônoma do México, ela apresenta algumas ressalvas em relação aos projetos a que as bibliotecas têm se dedicado para combater o problema da pouca procura. Particularmente, quando eles são projetos de formação no contexto de uma América Latina que ainda sofre com o problema do analfabetismo ou da coexistência de diferentes graus de alfabetização, inclusive no que diz respeito a grupos multilínguas e comunidades indígenas.

“Quando a biblioteca assume como responsabilidade prioritária formar leitores ou alfabetizar, há um deslocamento de responsabilidades, pois estas são funções fundamentalmente da escola. Então, se as bibliotecas assumem responsabilidades que são de outras instâncias governamentais, elas deixam de cumprir outras atividades prioritárias”, afirma Garone. “Pelo que se discutiu no colóquio, percebe-se que há atrasos de formação também nos estudantes universitários e a biblioteca, no afã de suprir as lacunas, quer empreender atividades que não são necessariamente sua função principal. A biblioteca universitária deveria centrar-se em dar serviços bibliotecários altamente qualificados, e não dizer ao usuário como se deve ler ou como usar um livro ou material”, complementa.

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