Foto: Marcos Santos

Centro de referência em esquizofrenia, Projesq completa 25 anos

Publicado em Comportamento, USP Online Destaque por em

Quando se fala em esquizofrenia, geralmente associamos a doença aos surtos psicóticos, episódios em que a pessoa tem alterações na percepção, com delírios e pensamentos distorcidos, como o de que está sendo perseguido. Mas por meio dos antipsicóticos, que constituem a base para o tratamento da esquizofrenia, muito já se avançou no sentido de reduzir estes sintomas.

Vencida a fase aguda da psicose, o paciente tem como principal desafio o enfrentamento de outras consequências do transtorno: os sintomas negativos, que provocam a diminuição da expressão emocional e perda da iniciativa, e os sintomas cognitivos, que afetam o raciocínio e a memória e fazem a pessoa encontrar muita dificuldade em se relacionar, prosseguir nos estudos ou conseguir um emprego.

Assim, é necessário um tratamento integral do paciente, que considere não apenas a administração de remédios, mas a recuperação em termos de convívio social e habilidades cognitivas. Esta é a proposta do Projesq, o Programa de Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). A equipe, que integra psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, é especializada no atendimento e pesquisa na área e desde 1990 vem investigando este transtorno mental, do qual ainda pouco se sabe. “O Projesq foi o primeiro grupo no Brasil a se dedicar exclusivamente à esquizofrenia”, conta um dos coordenadores do programa, professor Helio Elkis.

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Equipe integra psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais

Buscando aprofundar o entendimento da doença e, então, poder propor melhores tratamentos, o grupo atua em várias frentes. Além das intervenções farmacológicas – o programa já testou praticamente todos os antipsicóticos disponíveis por meio de ensaios clínicos – o Projesq tem investido fortemente nas chamadas intervenções psicossociais, que atuam nos sintomas negativos e cognitivos.

Uma grande área de atuação do programa é a investigação da esquizofrenia refratária, que ocorre quando os pacientes não melhoram nem com antipsicóticos de primeira geração e nem com os antipsicóticos modernos. Neste caso, é receitada a Clozapina, muito eficaz para tal condição. Liderada pelo professor Helio Elkis, a área tem várias pesquisas, com publicações de artigos e livros internacionais, e vem desenvolvendo trabalhos voltados a pessoas que não melhoram inclusive com a Clozapina. O grupo investiga o uso de tratamentos biológicos consagrados, como a eletroconvulsoterapia (o ECT ou eletrochoque), e também novas propostas, como a Estimulação Magnética Transcraniana, em colaboração com outros grupos do IPq, para o tratamento da esquizofrenia refratária.

Além dos remédios

Sabe-se que a medicação sozinha não é capaz de reabilitar o paciente com esquizofrenia. Além da orientação da família e de outros tipos de intervenção, o que os pesquisadores do Projesq têm observado são resultados muito positivos a partir da Terapia Ocupacional. Essa abordagem envolve o trabalho com funções executivas, por exemplo, arrumar a mala, ir ao supermercado ou usar o transporte público.

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“Temos realizado um grande investimento na área psicossocial, pois para o paciente com esquizofrenia não basta só tomar remédio”, constata Helio Elkis. Em um trabalho desenvolvido com apoio da Fapesp, uma equipe de terapeutas ocupacionais e neuropsicólogos liderada pela pesquisadora Adriana Vizzotto utilizou um método chamado Occupational Goal Intervention, que estabelece um plano de atividades do que precisa ser feito, passo a passo, para cada meta a ser alcançada, ainda que aparentemente simples. Embora não se tenha observado avanço em todas as funções cognitivas, os participantes tiveram melhora significativa na execução das atividades e aumento da funcionalidade.

Outra intervenção muito importante é a de Psicoterapia Cognitiva Comportamental, que é desenvolvida pelas psicólogas Isabel Napolitano e Elaine di Sarno para pacientes com sintomas persistentes. Este método procura desenvolver a capacidade da pessoa identificar alucinações e delírios e confrontá-las com a realidade. Usando este tipo de terapia, o grupo publicou um trabalho que tem sido citado internacionalmente.

Além disso, há no grupo, ainda, uma integrante trabalha com a musicoterapia para o tratamento da doença e que está desenvolvendo um projeto de pesquisa na área.

Incertezas e perspectivas

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Professor Helio Elkis, durante reunião do Projesq

Elkis divide a coordenação do Projesq com o psiquiatra Mario Louzã Neto. Um dos temas com que este pesquisador trabalha é a intervenção precoce na esquizofrenia. Muitos transtornos mentais podem ter seus efeitos negativos atenuados quando o tratamento começa ainda nas primeiras manifestações, e acredita-se que com a esquizofrenia isso também seja verdade. “Mas esta ainda é uma questão controversa, uma área de pesquisa em desenvolvimento, pois nem todas as pessoas que apresentam indícios desenvolvem a doença”, explica.

Desorganização de pensamento, perda de rendimento nos estudos ou no trabalho, dificuldade de concentração e sensação de persecutoriedade, mas consciente de ser apenas uma impressão, não um fato real, são alguns destes indícios. O que está se buscando são formas de avaliar quando se pode considerar que uma pessoa apresenta alto risco de desenvolver esquizofrenia e quais as melhores maneiras de intervir nesta fase.

“Sabemos algo em relação aos fatores de risco, reduzimos as psicoses, mas de forma geral, o que conhecemos da esquizofrenia ainda é pouco. Acredito que a neurobiologia pode contribuir muito”, afirma Louzã Neto. Apesar das lacunas no conhecimento da síndrome, vários avanços já foram alcançados. “Dos anos 1990, quando o Projesq começou, até hoje, a qualidade de vida dos pacientes melhorou muito. As internações são muito menos frequentes, já é possível manter a doença sob controle apenas com tratamento em ambulatório”, comenta o professor Elkis.

Atualmente, os ambulatórios do Projesq atendem cerca de 400 pessoas. “Tem sempre entradas e saídas. Quando o paciente consegue se estabilizar, há o encaminhamento à rede pública. Deste modo, outras pessoas conseguem participar e se beneficiar do programa”, explica Mario Louzã Neto.

No mês de outubro, o Projesq realiza a quarta edição de seu Simpósio sobre Esquizofrenia, celebrando também os 25 anos do programa.

Mais informações sobre o Projesq e triagem de pacientes pelo email projesqipq@hc.fm.usp.br

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