Documentário do MAE expõe raízes da arte e da cultura amazônica

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Pesquisadores do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP vão em busca das raízes da arte e da cultura amazônica. Uma expedição que traz o cotidiano e a história de Belém, Icoaraci, Cachoeira do Arari, Monte Alegre, Santarém e Óbidos, entre outras paisagens. O resultado são o documentário e a exposição de fotos em preto e branco “Antiga Amazônia Presente”, lançados no dia 25 de junho, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo

Um tacacá ao ar livre para repor as energias ao entardecer. Foi assim, com a pequena cuia de cabaça nas mãos, apreciando o caldo amarelado do tucupi – extraído da mandioca previamente cozida com folhas de jambu –, que a equipe do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP foi sentindo o sabor e o desafio de pesquisar as raízes da arte e da cultura amazônica. Sair de barco antes do amanhecer e atravessar rios desconhecidos, descobrir trilhas pelas matas, ouvir histórias, acompanhar o cotidiano dos artesãos e buscar evidências de culturas passadas.

Dessa expedição começou a nascer, em 2013, o documentário Antiga Amazônia Presente, sob a direção do arqueólogo e documentarista Silvio Luiz Cordeiro, produção das arqueólogas Carla Gilbertoni Carneiro e Cristina Demartini, do documentarista Luiz Bargmann e do fotógrafo e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Wagner Souza e Silva. Além do filme de 115 minutos, a equipe montou uma exposição de fotos em preto-e-branco, selecionadas de uma ampla documentação com centenas de imagens. Todo esse material foi lançado no Museu da Imagem e do Som (MIS) no dia 25 de junho e pode ser visto no site www.amazoniantiga.tv.br.

Foto: Wagner Souza e Silva
Foto: Wagner Souza e Silva

“O MAE abriga e conserva um dos maiores acervos de arqueologia amazônica do País”, explica a arqueóloga Carla. “Entre esses objetos produzidos por antigos habitantes da Amazônia, sobressaem duas culturas distintas, observadas na arte expressa nas cerâmicas da região de Santarém e da ilha de Marajó. São peças cujas formas e imagens remetem ao universo próprio de cada cultura, em representações que comunicam algo de seus antigos mitos e ritos, hábitos e valores dessas sociedades do passado.”

Carla e Cristina já vinham se dedicando à pesquisa desse acervo, que resulta de três coleções: a Haral Schultz, formada a partir dos anos 50, a Tapajônica, adquirida na década de 1970, e a coleção do Banco Santos, sob a guarda do MAE desde 2005. “O projeto de revisitar os lugares de origem desses objetos para produzir um documentário foi apoiado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. No início de abril, na época das cheias, partimos para a primeira das duas viagens, que seriam feitas no inverno e no verão para observar as mudanças na paisagem”, conta Cristina.

Fluir de imagens

A direção da expedição e do filme contou com a experiência de Silvio Luiz Cordeiro, arqueólogo com mestrado e doutorado no MAE, onde desenvolveu pesquisas realizadas com imagens e audiovisuais. “Não havia um roteiro prévio, no sentido narrativo. O que havia, de início, era um conjunto de ideias relacionadas ao universo da arqueologia amazônica e dos objetos e paisagens que remanescem das culturas do passado humano na Amazônia, a partir da leitura de alguns estudos”, explica. “Havia também um plano de viagem com um mapa de lugares que selecionamos, todos no baixo Amazonas. Ali estão os mais antigos sítios arqueológicos até agora identificados.”

No site, há o diário dos viajantes e as suas primeiras impressões. A sensação de Wagner Souza e Silva, incumbido de fotografar e documentar toda a travessia, foi a de estar e descobrir a terceira margem do rio. “Estava na fronteira do olhar na paisagem do caminho pelas águas, rumo aos remanescentes de culturas que habitaram lugares distantes. As imagens produzidas durante as gravações revelam no tempo presente um pouco mais sobre esse acervo cultural do passado.”

Foto: Wagner Souza e Silva
Foto: Wagner Souza e Silva

Cordeiro lembra que a primeira viagem, realizada em abril e maio, foi decisiva para entrar no universo das pesquisas. “Pudemos conferir, in situ, muitas daquelas antigas paisagens e sítios importantes para a arqueologia brasileira, desde as pinturas rupestres na Serra do Ererê, em Monte Alegre, ao Teso dos Bichos, na ilha de Marajó. Nesse percurso, e principalmente nas conversas com as pessoas que vivem na região e que mantêm alguma relação com os objetos produzidos pelos habitantes do passado, fui desenhando uma narrativa. E ela, por fim, foi definida na montagem, tempos depois, já com a contribuição de uma memória audiovisual, fotográfica e afetiva com os encontros.”

Na segunda viagem, a Amazônia se apresentou diferente e a equipe pôde vivenciar o verão e observar as diferenças nas paisagens. “Nas duas viagens, gravamos sons e imagens dos lugares, como sítios arqueológicos urbanos e sítios mais distantes, a exemplo das pinturas rupestres encontradas na Serra do Ererê, em Monte Alegre. Mas também documentamos a impressionante reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, as peças expostas no Museu do Marajó, reunidas pelo jesuíta Giovanni Gallo, a coleção arqueológica e histórica do Museu Integrado de Óbidos e ainda uma pequena coleção de peças tapajônicas formada por uma família de Santarém.”

Narrativas

Foto: Wagner Souza e Silva
Foto: Wagner Souza e Silva

Cordeiro ressalta que a parte mais significativa desse acervo audiovisual e fotográfico gerado nas viagens está nos relatos das pessoas que têm a sua história relacionada com o universo arqueológico da Amazônia. “Essa ligação atribui sentidos e valores a elas. O conjunto de imagens gerado nesta produção audiovisual inédita pode ser visto como um documento do processo de construção de narrativas sobre acervos de arqueologia amazônica. De certa forma, o documentário traduz a redescoberta de paisagens culturais em que foram encontrados os objetos que integram o acervo do MAE. Paisagens habitadas em um passado remoto, ainda pouco conhecidas do grande público, que são parte de uma região intensamente transformada no tempo, sobretudo neste em que vivemos.”

Para o segundo semestre, a equipe vai apresentar o documentário e a exposição com uma seleção de imagens no salão de exposições do prédio da Reitoria da USP. “Teremos um total de 120 fotos. Buscamos privilegiar cinco frentes e documentação: paisagens, personagens, making off do documentário, acervo e cultura”, explica Wagner Souza e Silva, curador da mostra. “Apesar de ter sido o fotógrafo oficial das expedições, todos os membros da equipe também produziram muitas imagens. Tentamos, então, contemplar essa participação na exposição, que, de certa forma, está assinada por um coletivo improvisado, até como uma maneira de buscar ainda mais uma aproximação com o que realmente foi essa experiência para o MAE e para a arqueologia brasileira.”

Leila Kiyomura / Jornal da USP

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