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Curso pré-vestibular em Libras fomenta inclusão de alunos surdos na universidade

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O ingresso na universidade é, para maioria dos jovens, a concretização de um grande sonho. No entanto, o sistema de educação brasileiro ainda possui diversas carências que dificultam uma inclusão ampla e igualitária no ensino superior. Uma delas é a insuficiência de políticas públicas que auxiliem na formação dos alunos com deficiência auditiva, para que eles também possam ter acesso à graduação.

Os estudantes surdos possuem diversas demandas educacionais que necessitam de metodologias de ensino adaptadas às suas limitações. Para auxiliar esses jovens, o pesquisador da Escola de Artes, Ciências e Humanidade (EACH) da USP e professor Rafael Dias Silva, desde o ano passado, passou a oferecer um cursinho pré-vestibular em libras gratuito. O objetivo do projeto é preparar os alunos para grandes provas, como a Fuvest e o Enem.

O projeto

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O trabalho de Rafael Silva faz parte de uma das atividades da empresa Libras na Ciência, fundada em 2012, que desenvolve material didático adaptado para a comunidade surda e oferece cursos de formação continuada em libras para professores. O cursinho tem parceria com o projeto “Escola da Família”, que fornece o espaço onde as aulas são ministradas. Elas ocorrem na Escola D. João Maria Ogno, localizada na zona leste de São Paulo.

O professor comenta que os cursinhos tradicionais, em geral, não contratam intérpretes, o que dificulta o acesso dos alunos surdos a esse espaço. Essa carência incentivou o pesquisador a iniciar o projeto. No cursinho, todos os professores são bilíngues e preparam atividades de acordo com as suas áreas específicas e com os assuntos mais cobrados nos vestibulares.

O cursinho conta com cinco docentes de diferentes áreas. Entre eles, há uma professora com deficiência auditiva que também contribui com o projeto. A cada sábado os alunos têm três aulas de uma hora. A partir de outubro, as atividades são reforçadas e direcionadas ao Enem. O cronograma do curso termina em dezembro.

O surdo é visual, ele precisa de uma metodologia
que contemple essa limitação dele

O curso utiliza diversas ferramentas de aprendizado que se complementam. Nas aulas, há uso expressivo de recursos visuais como vídeos e exibições de slides. Os professores também realizam um trabalho com modalidades demonstrativas, como experiências científicas, atividades práticas e exposições didáticas em libras. “O surdo é visual, ele precisa de uma metodologia que contemple essa limitação dele”, afirma Silva.

Dificuldades

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Foto: Wikimedia Commons

Em 2002, a lei nº 10.436 reconheceu como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais (Libras ). A legislação a caracteriza como um sistema linguístico de natureza visual-motora com estrutura gramatical própria e que tem como função transmitir ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. Entretanto, não pode substituir a modalidade escrita da língua portuguesa.

O professor ressalta que uma das principais dificuldades dos alunos é quanto às questões relacionadas à língua portuguesa. Alguns alunos não conseguem interpretar os enunciados que constam nas provas e os intérpretes só são autorizados a traduzir palavras, sendo o contexto das perguntas de responsabilidade do candidato.

Para superar essa dificuldade, o pesquisador comenta que o cursinho trabalha a partir de metodologias que auxiliam os estudantes a reconhecerem as palavras-chave do texto e assim aumentarem o seu vocabulário. De acordo com o professor, o ideal seria que as provas fossem adaptadas, porém essa iniciativa requer um investimento maciço em profissionais capacitados que possam adaptar essas avaliações. Ele ressalta também que os jovens deveriam ter acesso a um material adaptado desde o ensino fundamental.

É importante que haja uma alfabetização científica dos estudantes

Outra dificuldade é em relação às matérias como física, química e ciências, pois ainda não são encontrados materiais adaptados para essas disciplinas. Dessa maneira, alguns sinais da parte técnica, como termos relacionados a mitocôndrias e fotossíntese, podem ser expressos de diferentes maneiras por cada comunidade. Segundo o professor, é importante que haja uma alfabetização científica dos estudantes. Em um congresso, por exemplo, é essencial que os pesquisadores compartilhem dos mesmos sinais para uma melhor comunicação.

Professor interlocutor

Antes de iniciar o projeto do cursinho pré-vestibular em libras, o pesquisador trabalhou como professor interlocutor na Escola D. João Maria Ogno. Segundo Silva, o trabalho consiste em acompanhar todas as disciplinas junto aos outros educadores e avaliar o desempenho dos estudantes surdos nas aulas.

Esse profissional tem a função de detectar possíveis dificuldades e pensar, junto com os professores titulares, estruturas de aulas que contemplem as limitações dos estudantes. O professor cita como exemplo o caso de quatro alunos que tinham problemas com equações logarítmicas, pois não sabiam diferenciar os números pares dos ímpares. Os professores realizaram um trabalho de resgate dos conceitos para ajudá-los.

O pesquisador oferece formação continuada em libras para outros professores, em parceria com a secretaria de educação e as diretorias de ensino de São Paulo. Nas aulas, são discutidos como executar um plano de aula para atender a demanda de surdos nas escolas. No ano passado, o professor promoveu um curso de formação para todos os docentes da Diretoria de Ensino da Leste 1, e cerca de 60 profissionais foram convocados a participar do curso.

Há também formação continuada para professores que têm interesse pessoal em trabalhar com estratégias de ensino em libras, são três módulos de 40 horas. No próximo semestre, o curso também será disponibilizado na modalidade EAD (ensino a distância).

Não adianta só receber a matrícula desse aluno, é preciso fornecer um espaço adequado para ele aluno crescer e aprender

O espaço frequentado pelos os alunos também é importante para sua formação. O pesquisador comenta que muitos estudantes acabam se sentindo isolados e desmotivados a continuar seus estudos por não se adaptarem ao ambiente. Assim, na escola em que atuou como interlocutor, Silva ministrou um curso de libras para os alunos ouvintes da sala.

O trabalho resultou em uma comunicação melhor entre alunos surdos e ouvintes. Segundo o professor, os jovens se sentiram mais motivados e deixavam de faltar, pois tinham colegas que sabiam cumprimentá-los em sua língua. De acordo com o educador, para a inclusão realmente funcionar deve-se estar atento a todas essas questões. “Não adianta só receber a matrícula desse aluno, é preciso  fornecer um espaço adequado para ele aluno crescer e aprender”, declara o professor.

Mais informações: email rafael.dias.silva@usp.br, site https://www.facebook.com/librasnaciencia

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