A Cidade Universitária: policiamento comunitário é resposta contra violência no campus 
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Proteção antecipada: policiamento comunitário entra em vigor na USP

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Crime contra estudante de Letras expõe divergências sobre o modo de combater a violência na Cidade Universitária, que a partir desta semana deve contar com a atuação da polícia comunitária

A tentativa de roubo ocorrida no dia 1º deste mês, na Cidade Universitária, que resultou num aluno do curso de Letras baleado, embora lamentável, mostrou que a parceria entre a Guarda Universitária e a Polícia Militar funciona “perfeitamente” e é uma forma eficaz de combater a criminalidade no campus. É o que afirma o superintendente de Prevenção e Proteção Universitária da USP, professor José Antonio Visintin.

Ele destaca que, imediatamente após o estudante Alexandre Simão de Oliveira Cardoso, de 28 anos, ser baleado, a Guarda Universitária socorreu a vítima, encaminhando-a para o Hospital Universitário (HU), onde foi prontamente atendida. Ao mesmo tempo, a Guarda acionou a Polícia Militar, que em seguida prendeu os suspeitos de serem os autores do crime, três menores (leia o texto ao lado). “Se a Guarda tivesse demorado, o estudante teria morrido”, diz Visintin. “Foi uma ação integrada e muito bem-sucedida entre a Guarda, a PM e o HU.”

José Antonio Visintin Foto: Marcos Santos
José Antonio Visintin
Foto: Marcos Santos

Foi uma ação integrada e muito bem-sucedida entre a Guarda, a PM e o HU. – José Antonio Visintin, superintendente de Prevenção e Proteção Universitária da USP

O diretor do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), Magno de Carvalho, tem outra visão do mesmo fato. Para ele, a tentativa de roubo cometida contra o estudante é uma evidência de que a presença da Polícia Militar na Cidade Universitária não evita a prática de crimes no campus. “A USP já está cheia de policiais e, mesmo assim, essas coisas continuam acontecendo, mesmo porque a bandidagem sabe onde os policiais ficam”, diz Magno.

Magno de Carvalho Costa Foto: Marcos Santos/Jornal da USP
Magno de Carvalho Costa
Foto: Marcos Santos

Ele destaca que “quem chegou na frente”, antes da PM, e socorreu o aluno foi a Guarda Universitária, o que, segundo o diretor, demonstra a importância da Guarda para a comunidade e a necessidade de fortalecê-la. Se a Guarda Universitária estivesse espalhada por todo o campus, com guardas nas saídas das unidades, principalmente à noite, isso inibiria os bandidos e evitaria muitas ocorrências”, acrescenta Magno. “A PM no campus não vai reduzir os crimes. Só vai acirrar o confronto com os estudantes.”

A USP já está cheia de policiais e, mesmo assim, essas coisas continuam acontecendo. – Magno de Carvalho, diretor do Sintusp

Conselho

Mesmo com essa crítica do Sintusp, o secretário estadual da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, anunciou no dia 2 a antecipação, para a segunda-feira desta semana, dia 7, da implantação do policiamento comunitário na Cidade Universitária – baseado no sistema Koban –, que ainda não tinha data determinada. O secretário fez o anúncio à imprensa logo após se reunir com o reitor Marco Antonio Zago, na Reitoria. Moraes informou ainda que será criado o Conselho de Segurança (Conseg) da Cidade Universitária, que terá reuniões mensais e a participação de representantes de professores, funcionários e alunos. Será oferecido ainda um curso de defesa pessoal para alunas da Universidade.

O superintendente José Antonio Visintin confirmou ao Jornal da USP a implantação oficial, nesta segunda-feira, do novo sistema de policiamento na Cidade Universitária. Ele disse ainda que, desde julho passado, o sistema Koban está “em experimentação” no campus. “Como verificamos que o sistema funcionou como um relógio, agora vamos implantá-lo oficialmente. Agora é pra valer.” Visintin afirma que discutiu o projeto com os diretores das unidades e que, diante da gravidade da situação, é preciso tomar decisões de gestão rapidamente. “Não podemos esperar mais e ficar discutindo, discutindo. Temos que agir.”

Sistema Koban

O sistema Koban de policiamento comunitário, que deve começar a vigorar nesta semana na Cidade Universitária, foi criado no Japão em 1874. Ele consiste na instalação de bases fixas, com policiais integrados à comunidade. Incluído no projeto USP Segura, o sistema foi apresentado à Comissão de Direitos Humanos da USP pelo secretário Alexandre de Moraes no dia 7 de agosto passado, em reunião na Reitoria.

Conforme adiantou o Jornal da USP na edição da semana passada, o projeto apresentado pelo secretário afirma que a Polícia Comunitária atuará de forma integrada à Guarda Universitária, com quem compartilhará dados e informações. Ela terá fácil visibilidade e acessibilidade, “para que a comunidade acadêmica possa encontrar o policial em caso de demanda”. O policiamento será personalizado, segundo o projeto, ou seja, voltado para as circunstâncias e demandas do campus. “Os policiais militares designados para trabalhar na USP não serão empregados em intervenções policiais-militares envolvendo alunos, professores e servidores, como o cumprimento de mandato judicial de reintegração de posse”, segundo a proposta. Os policiais que atuarão na Cidade Universitária são voluntários (escolhidos entre aqueles agentes que realmente desejam trabalhar no campus), jovens e universitários, a fim de se identificar com o público predominante da USP.

Ainda segundo a proposta do secretário, “o patrulhamento consistirá nas visitas comunitárias a diversos segmentos acadêmicos e na presença ostensiva, principalmente por meio dos pontos de estacionamento predeterminados, para que a comunidade acadêmica saiba onde e quando encontrar o policial”. O atendimento policial-militar ocorrerá ininterruptamente, nas 24 horas do dia. Haverá “observância irrestrita” aos princípios de direitos humanos.
Menores abordaram aluno

Menores abordam aluno

Eram cerca de 21 horas do dia 1º deste mês quando Alexandre Simão de Oliveira Cardoso, de 28 anos, estudante do quarto ano do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, foi baleado numa tentativa de roubo, na avenida Professor Luciano Gualberto, na Cidade Universitária, em frente à FFLCH.

O local onde o estudante foi baleado: atendimento rápido da Guarda Universitária Foto: Cecília Bastos/Jornal da USP
O local onde o estudante foi baleado: atendimento rápido da Guarda Universitária
Foto: Cecília Bastos/Jornal da USP

A ação foi realizada por três menores, dois deles moradores da comunidade São Remo, vizinha da USP. O autor do disparo mora em Cotia, na Grande São Paulo. Os três prestaram depoimento na 91ª Delegacia de Polícia e foram conduzidos para a Fundação Casa. Devido à gravidade do ferimento, a Guarda Universitária improvisou uma maca e imediatamente levou Cardoso para o Hospital Universitário (HU). O estudante foi atingido por uma arma de calibre 22 pelas costas e a perfuração chegou ao fígado. Depois de operado, ficou se recuperando no hospital.

A Guarda Universitária se dividiu no atendimento à vítima e na observação dos suspeitos, conta o chefe operacional da Guarda, Alexandre da Silva Pereira. Ao mesmo tempo, a PM foi acionada. Dois dos suspeitos fugiram num ônibus circular. As viaturas da PM abordaram e apreenderam os três menores. Um deles, o autor do disparo, estava em frente à Prefeitura do campus. Portava uma arma com cinco balas intactas e uma deflagrada. Os suspeitos foram identificados por três alunas do curso de Letras que testemunharam o crime. Elas apontaram o autor do disparo, o menor V.F.O., informou Pereira.

Ao mesmo tempo, a equipe do HU havia sido avisada e atendeu o estudante com rapidez. “O atendimento médico foi muito profissional e ágil”, disse Michael Soares da Silva, aluno da FFLCH, que ajudou no socorro da vítima.

“Sou solidário ao aluno e à família dele, não apenas como diretor da unidade, mas porque todos os alunos são muito especiais para nós, professores”, disse ao Jornal da USP o diretor da FFLCH, professor Sérgio Adorno, que visitou o estudante na tarde do dia 2. “Temos muitas demandas na área da segurança e tentamos resolver da melhor forma possível, mesmo com os cortes no orçamento.”

Em nota, a Reitoria informou que garantir a segurança dos usuários do campus tem sido uma das principais metas da Administração Central da Universidade. “Desde o início deste ano, a Secretaria Estadual da Segurança Pública e a Reitoria, com participação da Comissão de Direitos Humanos, estão trabalhando juntos em um modelo próprio de policiamento comunitário, batizado de USP Segura.”

Sylvia Miguel e Roberto Castro/Jornal da USP

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