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As particularidades da linguagem humorística brasileira

Publicado em Cultura, USP Online Destaque por em

Levar o humor a sério não é uma tarefa fácil. Sua característica trivial acaba o tornando uma espécie de “patinho feio” da academia, que muitas vezes ignora sua contribuição histórica para a sociedade. Com intuito de mostrar um novo olhar sobre esse campo de estudo, o professor Elias Thomé Saliba, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, realizou diversas pesquisas referentes à história cultural humorística no Brasil.

Em sua percepção, o humor é inerente à vida cotidiana. O comediante apenas compila os aspectos da realidade brasileira, que em si já é engraçada, por isso é difícil reconhecê-lo como objeto de estudo.

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Elias Thomé Saliba: o humor é uma das formas mais universais de comunicação
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Saliba menciona que uma das características da linguagem humorística brasileira é ser abrangente e inclusiva. Para o pesquisador, ela é compreendida por todas as classes sociais e em geral atende os gostos da maioria da população. Porém, nem sempre alguns grupos sociais, principalmente os pertencentes às camadas mais eruditas, aceitam esse tipo de humor.

A linha de pesquisa do historiador explora o campo humorístico a partir de diferentes abordagens. Na neurologia, por exemplo, estuda-se quais reações as piadas provocam no cérebro. Já no campo cultural, a antropologia busca compreender a função do riso nos diferentes povos e culturas. “A história do humor é um estudo interdisciplinar”, relata Saliba.

A ética emocional

Foto: Reprodução
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Em 2002, o professor publicou o livro Raízes do Riso, resultado da sua tese de livre-docência. A obra capta como se constrói a linguagem humorística brasileira e quais são suas particularidades. Seu estudo abrange o final do século 19, período conhecido como “Belle Époque”, momento em que a imprensa moderna (jornais e revistas semanais) emergiu no Brasil. Esse cenário provocou o crescimento dos espaços dedicados às sessões humorísticas.

O advento do rádio, nos anos 50, também proporcionou um campo fértil para a expansão do humor. De acordo com o pesquisador, a partir do seu amplo poder de  penetração, inclusive entre analfabetos, esse veículo, encontra nos humoristas um panorama propício para construção de uma linguagem rápida e concisa.  

Em uma alusão à obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, o livro do professor conceitua o humor dentro de uma ética emocional. Segundo ele, os brasileiros tendem a olhar esse campo com muito sentimentalismo. Um cenário típico de uma sociedade em que as leis não funcionam, ressalta Saliba. As pessoas perderam os seus padrões morais para dizer o que é permitido ou não. Isso acaba se tornando um problema, pois muitas modalidades humorísticas trabalham com foco em um alvo e esse, muitas vezes, pode sentir-se ofendido, afirma o pesquisador.

“Os limites são dados constitucionalmente”: essa é a visão do historiador quando se discute às restrições aos humoristas. Para ele, não se deve impor muitos limites, pois o humor que coloca o outro em uma posição de inferioridade, frequentemente, possui piadas muito pobres e consequentemente é repelido pelo público.

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Muitos desses humoristas buscam nos estereótipos já formados na mente das pessoas maneiras de levar a plateia ao riso. O professor aponta que existem diversos clichês, principalmente entre povos diferentes. Os portugueses, por exemplo, sempre são alvos de piadas entre os brasileiros. “Faz parte da identidade de um povo fazer piada com outro, para ele se sentir perto da sua identidade” declara Saliba. O problema é quando eles são usados apenas para agressões fora de contexto.

O humor dos palcos

Nos últimos anos, o stand-up comedy conquistou um espaço significativo na agenda cultural dos brasileiros. Dispensando cenários e acessórios, nesses espetáculos, os comediantes se apresentam de pé, na maioria das vezes descaracterizados. Segundo o professor, apesar de ser uma atração muito comentada atualmente, esse tipo de show já era realizado pelos humoristas de rádio nos anos 50. Eles faziam apresentações em boates com um humor tipicamente verbal.

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Chico Anysio | Foto: Wikimedia Commons

Em sua visão, os shows de stand-up, em geral, se tornam muito apelativos. Para ele, o melhor humorista é aquele que ao fazer uma piada, colocando o outro em  posição de inferioridade, imediatamente faz outra se situando na mesma posição.

O melhor humorista é aquele que ao fazer uma piada, colocando o outro em  posição de inferioridade, imediatamente faz outra se situando na mesma posição

O desaparecimento da figura do comediante interpretando diversos personagens também é uma das questões levantadas pelo professor. Chico Anysio, por exemplo, incorporou diferentes papéis, tanto a mulher como o machista. De acordo, com Saliba, isso possibilita um distanciamento maior do alvo, porque é o mesmo humorista representando inúmeras personalidades.

Um produto mutável

O tempo provoca profundas transformações na sociedade. Alteram-se os hábitos, visões valores e até mesmo as formas de governo. O historiador expõe que o humor acompanha essas mudanças. Ele é produzido historicamente, cada momento possui sua linguagem humorística. Piadas de sucesso, antigamente, dificilmente teriam o mesmo impacto hoje.

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Adoniran Barbosa | Foto: Wikimedia Commons

Em sua pesquisa atual, para estudar algumas coletâneas antigas, ele reuniu diversos dicionários humorísticos e expressões populares. Recentemente, o pesquisador está trabalhando com o roteiro do programa “Histórias das Malocas”, que era apresentado pelo compositor e humorista Adoniran Barbosa. “O humor é uma das formas mais universais de comunicação, ele se difunde muito”, conclui Saliba.

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