Laboratório estuda como se formam os microclimas nas cidades

Publicado em Meio ambiente, USP Online Destaque por em

Luciene Antunes, especial para o USP Online

Intuitivamente, sabemos que a sombra de uma árvore ou o interior de um parque são refúgios mais frescos em um dia quente. Medir exatamente a intensidade e a extensão dos efeitos da presença de vegetação e de outros fatores sobre os microclimas urbanos é um dos objetos de investigação do Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética do Departamento de Tecnologia (Labaut) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, coordenado pelas professoras Márcia Peinado Alucci e Denise Duarte.

Em um dia de verão na cidade de São Paulo, por exemplo, a temperatura dentro de um parque pode ser até dois graus mais baixa do que em um trecho não arborizado em um canyon urbano – via cercada por edifícios, formando um “u” – ou em uma praça com vegetação. Se o canyon em questão passasse a ser arborizado, a temperatura do ar poderia diminuir cerca de um grau, mas a sensação térmica para os pedestres seria de até 12 graus a menos (apesar de a vegetação provocar uma redução de até 45% da velocidade máxima do vento).

Os números listados acima são parte das conclusões do projeto de estudo dos impactos da vegetação sobre microclimas urbanos, iniciado em 2007, e que está entre os três grandes projetos de pesquisa do laboratório. Os trabalhos contam com a dedicação de alunos de graduação e pós-graduação, sob a coordenação das docentes da FAU.

O segundo grupo, criado em 2009, ocupa-se das questões do adensamento populacional em cidades e suas relações com as construções, os impactos sobre os microclimas urbanos e os caminhos para recuperação de áreas urbanas degradadas.

Um terceiro projeto – iniciado em 2011 – conta com a participação da FAU, mas é coordenado pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Diz respeito ao impacto de mudanças climáticas na saúde de idosos – “Biometeorologia humana: análise dos efeitos de variáveis ambientais (meteorológicas, conforto térmico e poluição atmosférica) e das mudanças climáticas na população geriátrica da cidade de São Paulo”. Também participam a Faculdade de Medicina da USP e o Departamento de Engenharia Mecânica da Poli.

Sombra e água fresca

No mundo, a pesquisa sobre os índices de conforto ambiental em espaços abertos é bem mais recente do que os estudos sobre conforto em edificações, que já estão em curso há pelo menos 50 anos. O Labaut dedica-se justamente aos espaços abertos. Neste caso, a presença ou não de vegetação é um dos principais fatores de influência.

“Existe um consenso de que quanto mais árvores melhor, que fica mais fresco, tem mais sombra. Mas quanto?”, indaga a professora Denise.

“Estudamos a distribuição espacial desses efeitos”, complementa. “Com o auxílio de aparelhos de medição e com muito trabalho de campo, quantificamos os efeitos, principalmente sobre a temperatura do ar e a da superfície, variáveis do microclima que nos interessam”.

No futuro, há planos de incluir o fator poluição sobre os microclimas urbanos, que ainda não faz parte das pesquisas.

Simulações

Medições de campo e simulações computacionais de balanço de energia somam-se aos estudos. Os pesquisadores usam instrumentos para mensurar temperatura, umidade do ar, ventos, radiação solar, solo, entre outros.

Por uma questão de viabilidade de medidas, a maior parte das pesquisas de campo acontece na cidade de São Paulo, mas há estudos sobre Cuiabá e Belo Horizonte, por exemplo.

Em São Paulo, já foram objeto de investigação as regiões em torno dos parques Trianon, da Luz e da Água Branca, além da extensão da região da Luz, e do bairro do Cambuci, entre outros.

Gente demais

O projeto “Edificação e Desenho Urbano com adensamento e qualidade ambiental: habitação de interesse social na recuperação de áreas urbanas degradadas” analisa os efeitos climáticos e de conforto ambiental dos diferentes arranjos de construções e população em cidades.

No mundo, os estudos mais avançados nessa área estão na Ásia, Europa e Estados Unidos. “Hong Kong, que já teve problemas de saúde pública em função do elevado adensamento populacional, é um dos mais avançados nessa linha de pesquisa”, comenta Denise.

O trabalho  faz parte do Programa Nacional de Pós-Doutoramento da Capes e é desenvolvido em parceria com o Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos (Labhab) da FAU. Seus estudos  já começam a ter impactos sobre o planejamento urbano municipal em São Paulo. “Muitos pesquisadores e profissionais formados na FAU estão envolvidos em projetos urbanísticos da cidade”, ressalta a  docente. Além disso, o edital do Projeto Nova Luz, para revitalização dessa região central da cidade, menciona parte da literatura sobre adensamento e conforto ambiental produzida pelo Labaut. 

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