Pesquisa do IP aponta que exclusão afeta aprendizagem de aluna com deficiência visual

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Mariana Melo / Agência USP de Notícias

A integração de uma garota de 17 anos com deficiência visual no cotidiano de uma escola regular mostrou que algumas práticas dos professores observados poderiam ser consideradas como comportamento de exclusão.

No trabalho Educação de pessoas com deficiência visual: inclusão escolar e preconceito, realizado no Instituto de Psicologia (IP) da USP entre 2008 e 2010, a psicóloga Diana Villac Oliva acompanhou por seis meses as aulas e os intervalos para recreio desta garota em uma escola particular de médio porte, no interior de São Paulo. A garota cursava a 9ª série do Ensino Fundamental.

Durante o recreio, segundo a pesquisadora, há boa interação da menina com seus colegas. Nas aulas, no entanto, a garota tende a ficar excluída. Poucos professores se preocupam em tomar uma postura que auxilie a garota a entender o que está sendo explicado. “A ausência de adaptações curriculares para a acessibilidade resulta na exclusão do conteúdo” afirma Diana.

Dessa forma, embora a menina consiga socializar, ela não tem a mesma oportunidade de aprender que os demais colegas, devido à imposição de alguns obstáculos, como volume baixo na voz dos professores ou mesmo a não utilização de recursos já adquiridos e destinados a deficientes visuais para as aulas de informática, como um teclado adaptado e um software para leitura de tela.

Justificativas

Ainda que os professores se justificassem dizendo não serem preparados para adaptar o conteúdo de suas matérias a jovens com deficiência visual, o comportamento dos docentes no decorrer das aulas demonstrou uma alienação em relação a um aluno que precisa de ações inclusivas para partilhar de um aprendizado semelhante ao do restante da turma.

As práticas observadas demonstram o quanto esses professores são, ao mesmo tempo, vítimas e reprodutores de uma pseudoformação. Diana destacou a exigência de que a aluna descrevesse em uma redação um objeto que nunca tinha visto. Para a psicóloga, falta a esses professores identificação com a aluna, para que as barreiras que ela enfrenta possam ser eliminadas.“Não é preciso capacitação para perceber que um aluno com deficiência visual não pode descrever objetos que não conhece” disse a pesquisadora.

Outro ponto verificado foi de que não havia diálogo entre a escola regular e a escola especializada frequentada pela aluna. Nas escolas especializadas, as técnicas de ensino são modificadas para tornarem-se viáveis para deficientes. Com a falta de diálogo entre as duas instituições, a aluna não conseguia aproveitar a possibilidade da adaptação dos materiais para o acesso ao conteúdo na escola regular. Se isso fosse possível, a garota poderia ter provas e textos traduzidos para o braille e materiais de física, história e geografia, por exemplo, viabilizados para cegos. A exclusão do conteúdo ao qual essa aluna passa é uma manifestação do preconceito que ela sofre em sala de aula.

Uma das formas de diminuir o preconceito na sociedade, segundo Diana, é integrar crianças diferentes entre si, para que estas, durante a formação de suas personalidades, não reconheçam as distinções forjadas pela sociedade. “Tanto os alunos em situação de inclusão, quanto os demais membros da comunidade escolar, e em ampla escala, toda a sociedade, se beneficiam com a diversidade e a identificação propostas pela inclusão” finaliza a pesquisadora.

O estudo teve a orientação do professor José Leon Crochík, no IP, e foi defendido em maio de 2011.

Mais informações: e-mail dianavoliva@hotmail.com, com Diana Villac Oliva 

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