Pesquisa do IP revela que jovens têm dificuldade para se sentir pertencentes a abrigos

Publicado em Sociedade por em

Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Adolescentes que estão em abrigos muitas vezes vêem a experiência apenas como uma passagem em suas vidas, sem se identificar como pertencentes ao local em que estão acolhidos, revela pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP. Nos relatos que fizeram à psicóloga Dailza Pineda, os jovens descrevem uma rotina movimentada, mas entediante, e quase nunca chamam as outras pessoas do abrigo, inclusive os funcionários, pelo nome, apenas por “menino”, “menina”, “tia” ou “educadora”. Eles ainda mantém um vínculo afetivo com os famliares, o que leva  a pesquisadora a alertar para a necessidade de que os abrigos dêem mais atenção às famílias dos abrigados para ampliar suas perspectivas de futuro.

Dailza realizou dez entrevistas com adolescentes entre 12 e 17 anos, de ambos os sexos, em três abrigos da cidade de São Paulo.  A pesquisa faz parte da dissertação de mestrado da psicóloga, orientada pela professora Marlene Guirado, do IP, e apresentada no último dia 23 de abril. “O acolhimento institucional é previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como medida de proteção para crianças e jovens de 0 a 17 anos”, aponta. “Há poucos órfãos, a maioria possui família, mas ela normalmente se encontra em situação de vulnerabilidade social, devido a pobreza, desemprego, falta de moradia, dependência química, entre outros fatores.”

A psicóloga procurou saber dos jovens como era a rotina no abrigo, como era viver dentro da instituição e os seus sonhos para o futuro. “Não foram entrevistas fáceis, pois eles falavam pouco e muitas vezes eram resistentes às perguntas”, conta. As respostas foram analisadas com o método da Análise Institucional do Discurso, desenvolvido pela professora Marlene Guirado, orientadora do trabalho. “O método analisa o discurso dos entrevistados para delinear quem são os sujeitos dentro do contexto do abrigo.”

A maneira com que os adolescentes se referiam ao acolhimento chamou a atenção de Dailza. “Nenhum dos entrevistados disse ‘moro no abrigo’, sempre falam ‘tô aqui’, se vieram de outras instituições dizem ‘passei por ali’ e se vão mudar dizem ‘vou para lá’, apenas”, ressalta. “O abrigo é visto apenas como um hiato entre duas possibilidades de morar, um tempo entre o lugar que moravam antes de serem acolhidos e o local onde vão morar depois que saírem”. A lei 12010 de 2010 instituiu o tempo máximo de permanência em um abrigo em dois anos, efetivando sua provisoriedade.

Identidade

Outro indício da falta de identidade com o abrigo apontado pela psicóloga é quando os entrevistados disseram “para quem é de abrigo tudo é mais difícil”. “Esse ‘ser’ indica que eles estão marcados pelo lugar, sem necessariamente se sentir pertencentes a ele”, ressalta. Ao descrever o dia a dia no abrigo (comer, dormir, estudar, brincar, ir ao médico, entre outras atividades), os relatos utilizam muitos verbos de ação, como “ir”, “voltar”, “andar”, “fazer”, com poucos adjetivos para qualificar essas atividades como bons ou ruins. “Ao mesmo tempo em que falavam numa rotina movimentada, não diziam de um sentido nessas ações e passavam a impressão de que faziam as coisas quase que mecanicamente”.

Dailza destaca que os adolescentes costumavam olhar para o futuro como uma possibilidade positiva. “Todos se manifestaram esperançosos como possibilidade de morar, de ter uma casa, de ser profissional em algo”, afirma. As famílias estão muito presentes, seja pelas visitas, nos relatos sobre a vida antes do acolhimento ou nas falas sobre a perspectiva de voltar a viver com os pais ou parentes mais próximos. “Ao dizerem ‘gosto da minha família’, ‘não gosto’, ‘briguei’, mostram uma possibilidade que eles tem de afeto, de se afetar com as coisas”.

Ao mesmo tempo, as pessoas dentro dos abrigos raramente são citadas nas entrevistas por seus nomes próprios, sendo chamados de “menina”, “menino”, “tia, “educadora”. “Como um aspecto positivo do abrigo, destacamos que eles são vistos pelos jovens como possibilidade de acesso e porta de saída, já que lhes é permitido ir à escola, parques, atividades esportivas e de lazer”, conta a psicóloga. “As descrições que fazem das atividades fora do abrigo são mais vivas, com mais adjetivos.”

Dailza acredita que as instituições de acolhimento precisam repensar a maneira com que atendem os adolescentes. “É preciso que o abrigo não seja visto como uma simples passagem, mas como um lugar possível. Atualmente, a impressão que se tem é que o acolhimento é uma medida extrema e desesperadora”, alerta. Ao mesmo tempo, a psicologa sugere que os abrigos acolham mais as famílias. “Elas estão presentes o tempo todo no discurso dos jovens. Mesmo com os problemas, são uma possibilidade real de afeto e de saída.”

Mais informações: (11) 97692-1086, email dailzapineda@gmail.com, com Dailza Pineda

.