Cepeusp capacita crianças e educadores para nova abordagem do esporte

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O Centro de Práticas Esportivas da USP (Cepeusp) não é apenas um lugar que oferece à comunidade USP equipamentos, espaço e aulas para treinamento de esportes. Ali fica também a sede do Programa de Formação e Estudo em Desenvolvimento Humano pelo Esporte (PRODHE), que atende gratuitamente crianças e adolescentes de 8 a 18 anos, oferece bolsas a graduandos da USP e promove cursos, competições e festivais esportivos.

O PRODHE tem sua origem no Projeto Esporte Talento (PET), criado em 1995 através do Instituto Ayrton Senna (IAS), seguindo quatro pilares: aprender a ser, a fazer, a conhecer e a conviver. Esses pilares, segundo o professor Maykell Carvalho, são necessários não só no esporte mas para se viver, e geram, respectivamente, competências pessoais, produtivas, cognitivas e sociais. “A primeira concepção do projeto é que o esporte seja uma via para o desenvolvimento dessas competências”, declara Marcos Vincius Moura e Silva, um dos coordenadores.

Aprender a:
Ser
Fazer
Conhecer
Conviver

O Instituto chegou a lançar um livro sobre a iniciativa, o Educação Pelo Esporte (Editora Saraiva), que envolvia outras universidades públicas. Em novembro de 2009 o PET virou o PRODHE, que, apesar de seguir a mesma linha de atuação, não é mais financiado pelo IAS.

Esquema tático

Atualmente participam do programa cerca de 125 crianças, metade fazendo parte da comunidade USP (filhos e filhas de funcionários) e metade da comunidade externa, selecionadas de acordo com a renda familiar. As inscrições para participar vão de 24 de outubro à 9 de novembro, no site do Cepeusp.

Divididos em grupos de acordo com a idade, os participantes são incentivados a crescer através do esporte. Para os mais novos, conta a educadora Suzana Cavalheiro, “a proposta é que consigam aproveitar a descoberta de todas as possibilidades corporais”, oferecendo-se estímulos desde o meio terrestre até o aquático. Nesse sentido, todos os espaços possíveis do Cepeusp são utilizados nas atividades.

Já os mais velhos “são desafiados a terem algumas posturas diferentes dentro da atuação”, continua Suzana, que no caso deles é mais tática, uma vez que o domínio da parte física já foi conquistado. Além disso, no início do semestre o grupo decide coletivamente em qual prática cada um deseja se aprofundar. Suzana explica que “saber expor suas ideias, ouvir o que o colega está trazendo e negociar esses diferentes interesses é algo que acontece nessa faixa etária”, quando começam a aparecer escolhas que definirão a vida adulta do indivíduo.

Disseminação da filosofia

O trabalho com as crianças ocorre três vezes por semana, em dois períodos, mas representa apenas uma parte do Programa. Suzana conta que o “amadurecimento da equipe levou a perceber que não adianta oferecer só o atendimento. Se investimos na formação de novos educadores, conseguimos atender um público final muito maior”.

Desta forma, as bolsas e os cursos oferecidos são voltados à preparação de profissionais. Suzana conta que o questionamento da equipe foi sobre “o que pode ser feito dentro de uma universidade para cutucar as pessoas a se movimentarem?”, isto é, para que compreendam a importância da atividade física e percebam que ela tem um impacto não só no momento, mas a longo prazo.

O que pode ser feito dentro de uma universidade para “cutucar” as pessoas a se movimentarem?

O bolsistas, além de auxiliarem na coordenação do atendimento, planejam atividades e realizam a cada 15 dias um grupo de estudos sobre o assunto. O viés de formação se concretiza também nos cursos que precedem a OLIPET, olimpíada esportiva promovida pelo projeto. Instituições enviam profissionais para ajudar na sua elaboração, e a eles é oferecido um curso de dois módulos, seguido de apresentação de seminário.

A criatividade ali rola solta. Na OLIPET desse ano, que teve sua final no último dia 30 e contou com aproximadamente 700 participantes, foi entregue às crianças um passaporte com metas adicionais (além dos objetivos clássicos dos jogos, como por exemplo o gol no futebol) que eles deveriam inventar. Depois das disputas, cada um preencheria a cartela de acordo com seu desempenho, as opções sendo Aeê! Eu Consegui; Uh! Foi por pouco, quase consegui; e Ah! Não foi desta vez.

Começaram a incomodar os coordenadores, com o boom do terceiro setor na década de 1990, premissas como “o esporte é bom porque tira da rua” e “ensina disciplina” para outras atividades da vida escolar. Marcos Vinícius questiona o uso da prática esportiva meramente como preenchimento do tempo livre da criança e do adolescente, e que depois é substituído pelo trabalho, cursos de língua e outras atividades que são vistas pelos pais como mais importantes, “que vão dar um futuro na vida”.

A preocupação do PRODHE, define Maykell, é oferecer um “instrumento pedagógico que possa auxiliar nesse processo de incorporação de valores e hábitos mais perenes, que a criança possa desenvolver outros olhares sobre o esporte e que isso possa fazer sentido para ela em outros momentos de sua vida”. Para Marcos Vinícius, estar , por estarmos dentro da universidade torna uma “obrigação” investigar e entender melhor, experimentar, ir além do senso comum.

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