Estudo da FSP mostra que trabalhar à noite possibilita maiores riscos à saúde

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Igor Truz / Agência USP de Notícias

Motoristas de caminhão que atuam no horário noturno têm maiores chances de desenvolver problemas de saúde relacionados a obesidade e doenças cardiovasculares. Na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, estudo da educadora física Elaine Cristina Marqueze, avaliou os horários de trabalho e tempo de duração de sono dos motoristas de uma empresa na cidade de São Paulo. Constatou-se que há diferenças significativas entre os que dirigem à noite e os que atuam durante o dia. A organização do trabalho dos caminhoneiros acaba os submetendo a longas jornadas de trabalho, altera a maneira como eles dormem e provoca importantes alterações metabólicas. Pesquisas recentes apontam, inclusive, que o trabalho noturno pode ser considerado um fator de risco independente para a obesidade, ou seja, que não depende de nenhuma outra variável, como alimentação ou exercício físico.

Em sua tese de doutorado Alterações cardiometabólicas e de sono em motoristas de caminhão, orientada pela professora Cláudia Roberto de Castro Moreno, Elaine monitorou 57 motoristas de caminhão. Destes, 26 eram do turno diurno, com horário regular de trabalho, e atuavam principalmente nos arredores da grande São Paulo. Os outros 31 faziam parte da equipe do período irregular, iniciavam seu turno a noite, e trabalhavam de acordo com a demanda, fazendo entregas para outras cidades e estados do Brasil.

Além de responder questionários para avaliar aspectos relacionados à sua profissão, os motoristas também foram submetidos a medida de massa corporal, estatura, circunferências abdominal e do quadril, e o perímetro cervical. Também foram colhidas amostras de sangue para avaliação do perfil lipídico, glicêmico e medição de hormônios reguladores do apetite. Os motoristas ainda utilizaram, durante um período de sete dias, um aparelho chamado actímetro, que registra os níveis de atividade e estima o tempo e a qualidade de sono.

Diferenças

Os resultados apontaram que os dois grupos (diurnos e irregulares) apresentaram fatores de risco para a saúde e sofrem com a diminuição do tempo de duração de sono, que chega a ser de 6 horas em média. Isso ocorre por conta de suas longas jornadas, que podem chegar a 10, 12 ou até mesmo 14 horas de trabalho ininterrupto.

Entretanto, a pesquisa demonstrou que os caminhoneiros do grupo de trabalho irregular estavam em uma situação de saúde ainda pior. Além de apresentarem alterações nos hormônios reguladores do apetite e maiores níveis de colesterol,  estavam  um Índice de Massa Corpórea (IMC) 2 quilogramas por metro quadrado maior do que os diurnos. “Essa é uma diferença muito significativa, porque não estamos falando de peso absoluto, e sim de um índice calculado através de uma fórmula que relativiza peso e estatura”, explica a educadora física.

Risco Independente

Segundo a pesquisa, os trabalhadores irregulares praticavam mais atividade física no seu tempo de lazer do que os motoristas do turno diurno. Enquanto os caminhoneiros diurnos relataram pouco mais de 20 minutos por semana de prática de atividade física moderada os motoristas do turno irregular praticavam em média 99 minutos por semana. Esse dado pode parecer, a primeira vista, discordante com os números que apontam mais obesos entre os caminhoneiros que trabalham à noite, mas, no entanto, só reforça a importância do sono para a saúde das pessoas.

“Somos seres de hábitos diurnos”, ressalta Elaine. “Nosso organismo não é preparado para ficar acordado de dia e dormir à noite, já que durante o dia temos um sono fragmentado, com muitas interrupções e normalmente com uma menor duração”, afirma. Além disso,  grande parte da alimentação dos motoristas do turno irregular ocorre durante à noite, onde até mesmo a digestão dos alimentos é diferenciada, reduzida, levando a um maior acúmulo de tecido adiposo.

O tecido adiposo, além de funcionar como depósito de reserva de gordura, também produz um hormônio chamado leptina. Este é o hormônio da saciedade, e funciona como uma espécie de regulador de apetite, dizendo ao nosso corpo quando devemos parar de comer, além de estimular o gasto energético. Os dados do estudo de Elaine apontaram níveis muito elevados de leptina entre os trabalhadores irregulares, o que indica uma resistência do organismo ao hormônio. Sem o regulador, e consequentemente, a noção de quando parar de comer, os motoristas do turno noturno acabam consumindo alimentos em excesso, o que piora ainda mais o quadro de obesidade.

‘Monetarização’, não!

A legislação trabalhista brasileira já considera que trabalhar à noite é um agente etiológico ou fator de risco de natureza ocupacional, traduzido na prática, na imposição de pagamento de uma taxa de adicional no salário de trabalhadores noturnos.

Elaine acredita, no entanto, que compensações financeiras não podem resolver o que, para ela, é uma questão de saúde pública: “Sou completamente contra a monetarização da saúde. Temos de buscar saídas que melhorem a vida das pessoas não por via financeira, mas por uma melhor organização do trabalho. Em abril de 2012 tivemos a regulamentação da profissão de motoristas, e precisamos continuar avançando neste âmbito, como, por exemplo, a busca das condições necessárias para a implementação da redução das longas jornadas de trabalho.”

Mais informações: email ecmarqueze@usp.br, com Elaine Cristina Marqueze

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