Pesquisa do IP revela que grupo terapêutico com crianças tem resultados positivos

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Bruna Romão / Agência USP de Notícias

A participação de crianças com questões psíquicas, como Distúrbios Globais do Desenvolvimento, em grupos terapêuticos pode produzir resultados benéficos sobre suas condições, em função dos efeitos que os próprios participantes produzem uns nos outros. “As crianças, em grupo, identificam-se umas com as outras. É uma situação que não se tem no atendimento individual”, esclarece a psicóloga Carolina Cardoso Tiussi, autora da dissertação de mestrado Grupo em educação terapêutica com crianças: alcance e limites de um dispositivo, desenvolvida no Instituto de Psicologia (IP) da USP.

Na pesquisa, Carolina analisou quatro casos de crianças, na faixa etária de 4 a 6 anos, atendidas semanalmente durante uma hora e meia, em um grupo de Educação Terapêutica coordenado por ela e por outro psicólogo da equipe ao longo de um ano e meio na instituição Lugar de Vida – Centro de Educação Terapêutica. Os participantes vinham tanto por procura espontânea por tratamento, como por meio de um convênio que o centro tinha com a Secretaria Municipal de Educação até 2011. Entre eles havia alguns que também faziam atendimento psicanalítico individual, e outros que apenas participavam do grupo.

O trabalho foi uma iniciativa de se produzir conteúdo e teoria a respeito do trabalho em grupo com crianças. “Apesar de esse atendimento ser amplamente realizado em uma série de instituições como o Centro de Assistência Psico-social (CAPIs), ONGs e Unidades Básicas de Saúde (UBS), tem-se pouca pesquisa e teorização em torno da prática”, comenta Carolina.

A educação terapêutica

O instrumento de avaliação do estudo foi a Avaliação Psicanalítica aos 3 anos (AP3), a partir da qual foi possível comparar a situação das crianças antes e depois do trabalho, indicando suas mudanças e localizando nos encontros do grupo o percurso e as intervenções bem sucedidas para cada criança. Ao longo da pesquisa também foram realizadas reuniões com os pais, sendo cada participante acompanhado por um profissional de referência, responsável por fazer a articulação de todos os dispositivos em que a criança está envolvida, como atendimento individual e escola, além do próprio grupo.

“A educação terapêutica é uma prática de trabalho desenvolvida no Lugar de Vida que articula conhecimentos da psicanálise e da educação em torno da infância”, descreve Carolina. Baseando-se nesta articulação, as atividades do grupo, sempre lúdicas e escolhidas pelas crianças, eram direcionadas para que houvesse a interação e identificação entre os participantes. “O que nós fazíamos era manejar esses encontros de acordo com a questão singular de cada criança, no intuito de promover identificações inéditas, que ampliassem a circulação social e o laço”, explica.

O grupo era heterogêneo, tanto no que se refere à posição subjetiva de cada criança quanto no que se refere à sua posição discursiva. Era formado por cinco crianças – das quais 4 faziam parte da pesquisa – com problemas psíquicos de diferentes ordens. “A ideia é justamente que as trocas entre crianças tão diferentes promovam novas identificações que incidam sobre a sua posição discursiva e subjetiva”, relata a psicóloga.

A pesquisadora explica que algumas crianças enfrentam problemas na realização dos processos identificatórios, por intermédio dos quais se dão as primeiras inscrições sobre seu inconsciente, e que permitem a constituição do “eu”, segundo Lacan, ou do “ego”, para Freud, de cada uma. Esses problemas, sejam simbólicos ou imaginários, têm efeito nesse registro do ego. “Para essas crianças, um grupo com o objetivo de promover identificações horizontais, ou seja, entre as crianças, pode adquirir um lugar central para a direção de tratamento”, diz.

Aprendizado mútuo

Para algumas crianças, conta Carolina, a produção de novas identificações levou à ampliação de sua circulação social e o enriquecimento na produção de laços com o outro. “As crianças se identificavam para depois se apropriarem daquilo que veio do outro e torná-lo seu”, diz a terapeuta. Ela continua: “Para outras, o efeito que vimos foi sua restituição para um lugar de potência, de quem consegue e/ou pode saber”.

Esses efeitos não se restringiram apenas aos encontros do grupo, tendo também reflexos destacados nas relações sociais e escolares daquelas crianças. “Um relato unânime foi sobre como as crianças tinham mudado no ambiente escolar, como o trabalho do grupo produziu efeito na sua permanência na escola”, diz Carolina.

A reunião de crianças em grupo propicia situações que, embora não atinjam alguns registros abordados na análise individual, como a exploração das fantasias, por outro lado, promovem cenas impossíveis de montar no atendimento particular, entre elas a identificação com o semelhante. “Existe um saber sobre a infância que só pode ser engendrado no coletivo. É isso que uma criança é capaz de transmitir para a outra, ou seja, a sua posição no campo da infância”, diz Carolina. Isto se dá pelo fato de qua a criança está em uma posição diferente diante da sexualidade e da castração, tendo condições de transmitir algo sobre a infância que já está inacessível para o adulto. “A construção das identificações na infância está intimamente ligada aos grupos e seus fenômenos. Há saberes que só podemos adquirir em grupo”.

Mais informações: email caroltiussi@yahoo.com.br, com Carolina Cardoso Tiussi

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