Assistência coordenada é essencial no combate à tuberculose resistência

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Mariana Melo / Agência USP de Notícias

A complexidade em coordenar a assistência aos pacientes com tuberculose resistente dentro do Sistema de Saúde pode ajudar a disseminar a variação da doença que não responde ao tratamento mais comumente aplicado. “As condições de produção da multirresistência se dão de maneira complexas e esbarram nas particularidades municipais e individuais das pessoas” diz a autora do trabalho, a enfermeira Jaqueline Garcia de Almeida.

A investigação também mostra que há uma grande necessidade do respaldo municipal nos casos dos pacientes que residem afastados dos centros de tratamento. “Como não cabe à Atenção Básica o tratamento à tuberculose resistente, não compete a ela coordenar esse processo”, diz a pesquisadora.

Segundo Jaqueline, o tratamento comum leva 6 meses, mas no caso da tuberculose multirresistente, o tratamento, além de exigir drogas mais caras, leva 18 meses e 3 anos de acompanhamento para que se tenha certeza de que a doença foi curada. Há maior possibilidade de reações adversas também. Além disso, os riscos de uma pessoa com tuberculose multirresistente disseminar o bacilo enquanto recebe o tratamento inadequado aumentam. “Dos casos de tuberculose do país, 0,5% são de tuberculose multirresistente, o que representa cerca de 300 casos por ano” conta a enfermeira.

Esses apontamentos estão na dissertação Condições de produção de tuberculose multirresistente: percepções do doente, realizada entre 2010 e 2012, sob orientação do professor Pedro Fredemir Palha, na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP. O objetivo da pesquisa era determinar as condições de produção de multirresistência da tuberculose por meio de relatos de pacientes.

Tratamento

Apesar da tuberculose ser curável, falhas no tratamento permitem a disseminação da variação que não responde à terapêutica convencional. Para que esta seja bem sucedida, fatores como associação correta dos medicamentos, respeito ao tempo que este deve levar e a dosagem correta devem ser seguidos rigorosamente. Essa variação da tuberculose é caracterizada pela resistência à rifampicina e a isoniazida, que são, justamente, as drogas mais utilizadas no tratamento.

Para realizar a pesquisa, Jaqueline entrevistou, em maio de 2012, oito pacientes, residentes no interior de São Paulo, com tuberculose resistente. Eles foram submetidos a entrevistas semiestruturadas, com algumas perguntas mais abertas, que permitiam que eles respondessem mais livremente sobre as condições nas quais adquiriram a doença e como está sendo realizado seu tratamento. Em seguida, os depoimentos foram organizados por um software e analisados.

Os relatos não permitiram que se determinasse um padrão na forma de desenvolver tuberculose resistente, mas ajudaram a inferir algumas questões, principalmente, a forma como as unidades de saúde básicas, que não possuem estrutura para tratamento da tuberculose, encaminham pacientes para centros especializados, por vezes muito distantes da moradia do paciente. Segundo Jaqueline, o transporte se dá juntamente com outras pessoas com outras doenças, e esse paciente nem sempre usa máscara para evitar contágio, por exemplo. Além disso, neste cenário, o paciente precisa adaptar-se às estruturas disponíveis, o que amplia a possibilidade de erros. Não havia, por exemplo, a implantação de um prontuário online, e o paciente acabava servindo de interlocutor sobre seu estado. “A criação de outros mecanismos de interlocução favoreceriam o tratamento” diz a pesquisadora. Ainda, mostrou-se como problemática a falta de conhecimento da própria doença pelo paciente.

Jaqueline ainda afirma que a forma de adoecimento primária, que ocorre quando uma pessoa saudável é contaminada por um bacilo já resistente, atualmente, corresponde a 4% dos casos. A contaminação secundária, caracterizada por uma pessoa que já tem tuberculose mas algum erro no tratamento leva à seleção do bacilo resistente, é mais recorrente. “Como depois de dois meses os sintomas cessam, algumas vezes, os pacientes abandonam a medicação” conta.

Uma das limitações deste estudo, segundo ela, foi centralizar a investigação na percepção do doente. Outras visões, como as dos profissionais da saúde, podem enriquecer mais pesquisas neste assunto e elucidar vias de contaminação da tuberculose resistente. “Acho que abordar a visão dos profissionais seria relevante para esclarecer melhor sobre como ocorrem esses tratamentos – tanto os que foram mal conduzidos e levaram a resistência quanto os aspectos do tratamento dos casos resistentes e as principais dificuldades enfrentadas”, finaliza a pesquisadora.

Mais informações: email jaqueline.almeida@usp.br

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