Congresso internacional na ECA debate ativismo organizado na internet

Publicado em Sociedade, USP Online Destaque por em

Izabel Leão / Jornal da USP

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Congresso debateu as novas formas de participação social e política que surgiram com as redes digitais

Como as tecnologias interativas, o acesso aos bancos de dados e a possibilidade de divulgação do conteúdo por todo e qualquer indivíduo estão ajudando a desenvolver formas colaborativas de ativismo no mundo. Esse foi um dos temas discutidos durante o 1º Congresso Internacional de Net-Ativismo, que aconteceu na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP entre os dias 6 e 8 de novembro. O evento reuniu pesquisadores como Pierre Lévy, Michel Maffesoli, José Bragança de Miranda, Alberto Abruzzese e Massimo Di Felice.

Di Felice, professor da ECA, pesquisador da Atopos – rede internacional de pesquisadores de diversos países que investigam o impacto das tecnologias digitais na sociedade –, observou que, apesar das relações com movimentos sociais tradicionais, o net-ativismo possui algumas características muito particulares do seu tempo.

Net-ativismo são ações colaborativas e novas formas de participação em redes digitais, das quais, segundo Di Felice, as manifestações ocorridas no Brasil, em junho, são um exemplo que será analisado por muitos anos e estarão presentes em diversos manuais de comunicação como um novo paradigma.

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Massimo Di Felice, coordenador do evento: tudo o que nos cerca foi transformado pela digitalização e pela conectividade

Sobre os movimentos no mundo, Di Felice afirmou que, com o advento das redes digitais e das formas de net-ativismo, embora em alguns casos mantenham um diálogo com algumas reivindicações próprias de movimentos sociais tradicionais, acontecem em espacialidades, formas, práticas e objetivos diferentes. “A conflitualidade social, assim como a política em geral, as formas de nos relacionarmos, a estrutura do social e tudo o que nos cerca foi qualitativamente transformado pelo processo de digitalização e pela conectividade. Ingressamos num novo âmbito social e num novo tipo de conflito, que não tem nada a ver com a disputa pelo poder e que se coloca externamente em oposição aos espaços da política moderna (partidos, sindicatos, movimentos estudantis), e que tem na conexão, no acesso e no compartilhamento dos dados e, portanto, não na ideologia, seus elementos constituidores”, esclareceu.

Em sua palestra sobre “Democracia algorítmica”, o filósofo Pierre Lévy considerou que os movimentos sociais que aconteceram no Brasil foram muito positivos, uma manifestação da inteligência coletiva, defendida por ele, e representam uma etapa importante da evolução da sociedade brasileira.

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
O filósofo Pierre Lévy apresentou palestra sobre democracia algorítmica

Para Lévy, a verdade ganha com a multiplicidade das fontes. E não se deve ter medo da diversidade. “A ciberdemocracia compreende o aumento da liberdade de expressão dos cidadãos sem precisar de competências particulares e dinheiro. É nesse ponto que se dá o aumento da liberdade de expressão, ou seja, o aumento da esfera pública internacional, quando os governos terão que dar satisfação à população, tornar os orçamentos transparentes. Essa é a ciberdemocracia.”

A ciberdemocracia compreende o aumento da liberdade de expressão dos cidadãos sem precisar de competências particulares e dinheiro.

O filósofo alertou para a facilidade de pensamento que esses movimentos sociais virtuais promovem, e citou o exemplo da Líbia, onde a ditadura do governo foi intensificada após movimento reivindicatório. E sugeriu que todos passem a se interessar pela política do mundo da informática, porque é essa relação que vai controlar todos os jogos de poder daqui para frente. “Cada vez mais as lutas políticas passam pelo processamento de dados. O que faz da Google uma grande empresa é sua capacidade de ter ótimos algoritmos”, exemplificou.

Lévy destacou ainda que espera que esse universo de softwares que está sendo construído reflita nossa inteligência coletiva, seja aberto e contemple a todos. O importante, para o filósofo, é aumentar nossa capacidade de produzir, coletar e processar dados, abrindo ao máximo o acesso aos algoritmos e permitindo refletir nossa identidade.

Banalidades

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
O sociólogo francês Michel Maffesoli: é no cotidiano que há resistência a todos os tipos de poderes

O sociólogo francês Michel Maffesoli, autor de livros como A Violência Fundadora (1978) e A Violência Totalitária (1979), um dos especialistas mais requisitados para falar dos protestos que se espalharam pelo mundo há três anos, ao tratar do tema “Emocional e net-ativismo”, afirmou que boa parte do conteúdo das redes sociais se refere às coisas do dia a dia e que é na banalidade cotidiana que acontece a resistência ao poder. Finalizou esse pensamento dizendo que “é frívolo quem não se interessa pela frivolidade. O cotidiano não é algo frívolo ou secundário, e sim essencial”. Para ele, é no cotidiano que há resistência a todos os tipos de poderes. Nas redes sociais as informações que mais circulam tratam de coisas do cotidiano.

Maffesoli afirmou ainda que uma sociedade cada vez mais vazia, sendo constituída pelo nada, tem todas as possibilidades. Para ele, o net-ativismo é uma manifestação da pós-modernidade. Ele destacou que nessas manifestações há uma violência banal e fundadora. No final da ação violenta, os manifestantes simplesmente vão embora, para depois ressurgir em outro ponto. “É isso a violência banal. Ela não tem razão, não tem causa. É uma violência emocional. E a gestação disso, hoje, se dá na internet.”

.